22 dezembro 2006

Capítulo XXVI

Na segunda, Ana teve que ensaiar com a banda para o show. Reuniam-se na casa de Marcos, o percussionista. O ensaio foi bem produtivo. Conseguiram estruturar várias das músicas para o show.
Por volta de onze e meia da noite, decidiram encerrar. Despediram-se e Ana foi para casa em seu carro.
No caminho para o seu apartamento tinha a mente em Helena. Não conseguia pensar em muito mais que isso. Aliás, estava surpresa por conseguir funcionar e continuar com sua vida.
Parou no semáforo. Cantarolava uma canção e batucava no volante enquanto esperava. Quando o sinal abriu, o carro falhou. Tentou dar a partida de novo e não conseguiu. Fechou a mão e esmurrou o volante. Estava brava consigo mesma. Arrependeu-se de não ter levado o carro para a oficina como tinha planejado há vários meses. Nem cogitou tentar entender o que havia de errado com o carro; automóveis eram um assunto do qual definitivamente nada sabia. Iria apenas sujar as mãos desnecessariamente.
O que faria? Não tinha celular. Resolveu procurar por um telefone público. Ligaria para Helena que viria buscá-la.
Pegou a bolsa e saiu do carro. Teria que deixá-lo ali mesmo na rua. Ainda bem que não tinha o seu violão consigo, era um instrumento caro; no ensaio, tinha usado o violão que Marcos tinha em casa. Olhou em volta. A não ser por uma caminhonete preta vindo bem mais atrás, a rua estava deserta àquela hora da noite.
Trancou o carro e olhou em volta para ver se havia algum telefone público. Nenhum à vista. [Que falta de sorte!]

Ao correr os olhos pela rua à procura do telefone, Ana observou que a caminhonete preta tinha estacionado a alguns metros de onde estava. A porta do veículo se abriu, dois homens saíram e começaram a andar em sua direção.
- Ei! – um deles gritou. – Precisa de ajuda, moça?
Por alguma razão – intuição talvez – Ana não acreditou que queriam lhe ajudar. Na verdade, o que sentiu foi medo. Não lhe inspiravam confiança. À sua direita, a rua seguia para uma avenida mais movimentada e melhor iluminada. Talvez pudesse encontrar um posto de gasolina, alguma loja de conveniência, ou um bendito telefone. Acelerou o passo naquela direção.
Percebeu, então, com aflição, que os dois homens continuaram a segui-la, agora também andando rápido. Começou a entrar em pânico e decidiu correr em direção à avenida. Nesse momento, o motorista da caminhonete deu partida no carro, vindo em sua direção. [Que droga!]
Ana ainda tinha uns cinqüenta metros para alcançar a avenida quando o carro passou por ela e invadiu a calçada um pouco mais à sua frente, trancando-lhe a passagem. O motorista saiu do carro – nem se deu ao trabalho de fechar a porta – e veio andando em sua direção. Ana tentou manter a calma, mas percebeu que estava seriamente em perigo. Tremia muito e seu coração estava acelerado pela descarga de adrenalina. Mas estava bem atenta.
Um dos outros dois homens que vinham correndo logo atrás, moveu-se da calçada para a rua a fim de impedir que Ana tentasse fugir por ali. Estavam cercando-lhe por todos os lados. Ainda tentando manter a calma, Ana percebeu que sua única chance de escapar seria encarar um deles. Não gostou. Eles eram altos e fortes. Não tão jovens. Mas mais altos que ela. Tentou conversar. Num fio de voz, disse:
- Olha... Minha bolsa... Pode levar...
Eles nada disseram. Continuaram a aproximar-se dela. A morena posicionou seu corpo, com uma perna mais à frente, de modo a defender-se. Agradeceu aos céus as aulas de judô. Davam-lhe confiança e talvez pudessem ajudá-la a sair dessa. O motorista aproximou-se primeiro e tentou agarrá-la. Ana conseguiu desvencilhar-se dele com um safanão. O outro que a cercava vindo da rua, chegou por trás e agarrou-lhe um dos braços. Ana conseguiu dar-lhe uma bolsada, mas ele não a soltou. O terceiro que vinha mais atrás agarrou o outro braço, imobilizando-a. Quando o motorista chegou perto, Ana tentou livrar-se dele usando as pernas. Chutou a esmo sem atingi-lo, mas ele foi mais rápido e acertou-lhe um murro no rosto. Ana nem sentiu a dor direito, mas percebeu que sangrava pela boca e nariz. Então, outros murros se seguiram. Nas costelas e estômago. Foi jogada ao chão. Chutes. Vindos de todos os lados. Agora sentia dor. Muita dor. Chutavam-lhe as pernas, a barriga, as costas.
[Vou morrer!]
Uma pancada mais forte a fez perder os sentidos.