22 dezembro 2006

Capitulo I

São Paulo, fevereiro de 2002

- Você não tá falando sério! – Ana respondeu, voz quase falhando, não acreditando no que tinha ouvido.
- É claro que estou.
E estava mesmo. Continuava com os olhos fixos em Ana, de um jeito desafiador, sentada relaxadamente no sofá, pernas cruzadas na altura do joelho, balançando a ponta do pé direito pra frente e pra trás, mãos cruzadas atrás na nuca e aquele sorriso. Como se tivesse sugerido coisa tão simples como “que tal se a gente pedisse uma pizza?”.
- Você está sugerindo que eu te beije pra você ver como é que eu me saio? [Espero que isso tenha soado natural porque meu coração parece que vai sair pela boca.]
- É. – aquele sorriso de novo.
- (...)
- A idéia foi sua.
- Eu não estava falando sério, Helena.
- Você me perguntou sobre como eu movo minha língua quando beijo. Eu disse que faço movimentos no sentido do relógio. Você achou engraçado. E eu disse que é uma coisa normal, todo mundo faz isso. Aí você disse...
- Eu sei o que eu disse, Helena – Ana interrompeu – e repito, acho esse negócio de mover a língua no sentido horário, esquisito. Nunca vi ninguém fazer isso.
- Então... Eu topo te mostrar te beijando. – Helena estava realmente se divertindo com a reação da amiga.
- Deixa pra lá. Eu não tava tão curiosa assim.
- Pois eu fiquei curiosa e agora quero saber como é que você beija.
- Você é doida, Helena.
- Que eu sou doida a gente já sabe, Ana. Agora vem cá e me mostra o que é que você faz com a língua quando beija.
- Não vou beijar você, sua maluca. Você é minha amiga!
- Ana, deixa de ser tonta. Não é assim... um beijo de verdade. É só pra cada uma ver como a outra beija. Nada demais nisso.
Ana não acreditava na idéia da amiga.
- Ana, não estou interessada em você. Não desse jeito. Meu negócio é homem. Todo mundo sabe disso. É só pra gente ver.
- Ah, Helena – pensou Ana, – se você soubesse.
- O que foi? Tá com medo de se apaixonar? – Helena ria, divertindo-se com a falta de jeito de Ana.
- Tá curtindo com a minha cara né, Helena.
- Tem gente que não suporta a idéia de beijar alguém do mesmo sexo. Não é o meu caso. E nem o seu. Lembra naquela festa quando aquela morena te agarrou?
- Eu estava trêbada. E foi aquela maluca que me puxou.
- É verdade. Mas você não tentou fugir. Você já me disse que não teria problema nenhum em beijar uma mulher. Se ela fosse gostosa o suficiente... – Helena sorri provocante – não sou de jogar fora.
[Essa é boa. Helena, mais do que ninguém, sabia o quanto era atraente.]
- Tá procurando elogio.
- Não tô não, Ana. Tô tentando entender porque você está fazendo esse fuzuê todo pra me mostrar como beija. Sou sua amiga, mulher. A gente já fez cada coisa juntas! É só mais uma...
- A gente nunca fez isso! [Não que eu não tenha pensado nisso.]
- E o que é que tem demais?
- (...)
Helena pára de sorrir, fixa o olhar na amiga e franze o cenho.
- O que foi, Helena? Que é que tá me encarando?
Helena encolhe as pernas, sorri e balança a cabeça negativamente.
- O que foi Helena?
- Quero entender o que rola nessa sua cabeça. Você geralmente topa minhas maluquices numa boa.
[Ih, agora ela está desconfiada. Como eu faço pra despistá-la?]
- Isso é diferente. Amigos não se beijam na boca, Helena.
- Já te falei que não é beijo de verdade.
- Desencana. Não tem nada nessa minha cabeça vazia. [Disfarce sua cara de pânico, Ana. Desse jeito ela vai descobrir que seus pensamentos com relação a ela não são nada cristãos. Como foi mesmo o último sonho que teve com ela? Envolvia até chantilly, não é mesmo?]
- Sei...
[Agora ela vai ficar desconfiada. É melhor você fazer alguma coisa.]
- Ok – Ana disse bem baixinho, nem acreditando no que dizia. Deus! Não acredito que eu vou beijá-la.
Helena sorri incrédula.
- Topa mesmo?
- Topo. Mas morre aqui. Meu coração vai saltar pela boca. E minhas mãos estão suando tanto!
- Claro. Você acha que meu noivo vai gostar de saber que eu te beijei?
- Você falou que não é assim beijo de verdade...
- E não é. Deixa de conversa e vem cá, gostosa. Me mostra como se faz – Helena responde com uma gargalhada, batendo com a mão no sofá e convidando Ana pra se chegar mais.

E Ana senta-se ao seu lado. Seu coração está descontrolado. Sua única preocupação era tentar esconder o turbilhão de reações que a expectativa de beijar Helena estava provocando em seu corpo. Tenta esboçar um sorriso ao sentir o calor do corpo de Helena, tão próximo do seu. [Sorria, Ana. Tente se controlar.]

Elas estão sentadas lado a lado, bem próximas. Helena vira um pouco o corpo e fica de frente pra Ana. [Diabo de mulher bonita essa Helena.]
- Relaxa, Ana. – Helena está se divertindo com a falta de jeito da amiga.
Ana acha um interesse repentino na pintura abstrata na parede da sala de Helena. Não consegue encarar a amiga de jeito nenhum.
Helena chega seu rosto mais perto, puxa o rosto de Ana pra perto e toca os lábios da amiga com os seus. Ana fecha os olhos. A sensação é maravilhosa. O perfume de Helena, misturado com o cheiro leve de xampu dos cabelos loiros. O gosto da boca macia. Mas Ana não consegue relaxar.
- Ana...
- Hmmm
- Você parece uma estátua. É assim que beija?
- Hmmm, não. É que estou sem jeito.
- Relaxa, mulher. Me mostra como faz com a língua.
Então, Ana resolve beijá-la de verdade.

*****

O beijo começa hesitante. Mas Ana começa a se soltar. Deixa-se levar pelo momento. Sonhara tanto com isso. Beijar Helena, sentir sua língua invadindo sua boca. Tinha imaginado isso tantas vezes. Então, deixa-se envolver completamente pela sensação dos lábios de Helena tocando os seus. Interessantemente, Ana sente Helena ficando cada vez mais tensa em seu abraço. [Talvez ela esteja se dando conta de que a coisa toda não foi uma boa idéia afinal. Não quero pensar nisso, não vou estragar o que talvez vá ser minha única chance de beijá-la.] E Ana perde-se nas sensações que o beijo lhe provoca. Está tão apaixonada pela amiga. Há meses vem carregando a frustração de conviver tão de perto com essa mulher, sem ter coragem de confessar o quanto a deseja. Em sua mente, um só pensamento: Helena eu te quero tanto! Sempre te quis, mesmo quando eu não entendia o que estava sentindo.

Helena também se deixa envolver pelo beijo. Mas começa a se sentir muito incomodada com o modo como seu corpo está reagindo ao beijo de Ana. [De repente, a brincadeira não parece mais tão inconseqüente assim.] Deixa-se levar pela sensação gostosa. [Como não fazê-lo? Como pode alguém beijar assim? Nunca fora beijada desse jeito! João, certamente não me beija assim. Que pele macia tem Ana. E porque meu coração está batendo tão forte? É só pra matar minha curiosidade, não deveria ter esse efeito todo. Mas o beijo é tão sensual!]

Ana geme na boca de Helena. O único som audível no apartamento todo é o dos lábios se tocando, sugando um ao outro. A língua de Helena entra e sai da boca de Ana e esta a captura entre seus lábios, chupando e lambendo a boca da amiga. As duas estão entregues ao beijo. As mãos de Helena deslizam pelas laterais sobre a camisa de Ana. Ela cuidadosamente mantém-se longe dos seios da morena, mas a idéia de tocá-los lança uma nova onda de calor pelo seu corpo. Ela desliza uma das mãos pelas costas de Ana e a puxa para mais perto. Uma das mãos de Ana desliza pelos cabelos, nuca, ombros de Helena. Ana se ajeita no sofá. Sem interromper a dança das línguas, cada uma move o corpo pra mais perto da outra. Ana segura o rosto de Helena com uma das mãos. A outra mão está nas costas de Helena, puxando-a para mais perto. Helena geme.

O beijo todo durou pouco mais de um minuto. Não que alguém estivesse controlando o tempo.

Helena é a primeira a se afastar, buscando ar. O coração está acelerado, a respiração ofegante. Ela abre a boca, imediatamente sentindo falta do contato com corpo e boca da amiga. [Que diabo foi isso?] A loira não sabe o que dizer. Recompõe-se e tenta, desesperadamente, não parecer tão afetada pelo beijo. Olha Ana à sua frente, que está com os olhos ainda fechados. Helena quer voltar a beijá-la. Ana abre os olhos e Helena sente-se perdida num mar de castanho escuro. Não consegue ver a amiga na mulher à sua frente. A morena que olha pra ela é uma mulher sensual, linda, que ela precisa tocar a todo custo. Nunca sentira isso por Ana. Ou por nenhuma mulher. Mas tudo o que quer agora é se perder nesses olhos e voltar a beijar essa boca... Os olhos de Helena pousam nos lábios de Ana outra vez. [Meu Deus, eu quero mais desses lábios. Se eu não me controlar vou agarrá-la de novo. Não posso dar essa bandeira toda. Que diabos está acontecendo comigo?] Controla-se e esboça um sorriso.

- Você move a língua diferente... – diz num fio de voz, tentando, em vão, parecer relaxada. [Meu Pai do céu, espero que isso tenha soado natural.]
Ana sorri nervosa. [Preciso sair daqui. Agora!]
- Eu te falei isso. – a voz está quase falhando. O beijo tinha sido bem mais do que tinha imaginado. E ela tinha se imaginado beijando Helena tantas vezes. Tinha certeza de que tinha ficado sexualmente excitada. Não sabe o que dizer. Teve que fazer um esforço sobre-humano pra dizer o que disse em seguida. Levanta-se do sofá e diz meio sussurrando – Helena, tenho que ir, eu toco hoje.
- Hum? Ah, claro – diz a loira passando as mãos nervosamente pelos cabelos. Levanta-se também. De certo modo, está contente que a amiga tenha decidido ir. Sente falta do contato, mas a situação é extremamente embaraçosa. E não tem certeza se pode se controlar se Ana continuar a fitá-la desse jeito.

Nenhuma das duas sabe como agir ou o que dizer. Não conseguem se olhar nos olhos. O abraço costumeiro e o toque das mãos, sempre espontâneo e tão natural às duas amigas, agora parece inapropriado e carregado. É como se uma barreira invisível tivesse se levantado entre elas.
- Te vejo logo mais no bar?
- Hum? Ah, sim, claro. João deve passar aqui logo mais e nós damos um pulo lá.
- Ok, então. Até mais tarde, Helena.
- Até, Ana. Te levo até a porta.
- Não precisa, amiga. – disse já em direção a porta – Tchau. [Esse “amiga” soou tão estranho. Meu Deus, o que acabou de acontecer? Eu beijei Helena! Não acredito que beijei Helena.]

Helena, depois que Ana deixou o apartamento, tocou os lábios com os dedos. [Que diabo foi isso, Helena?]