22 dezembro 2006

Capítulo VII

A pausa para o café no meio da tarde tinha mesmo virado rotina. Dias depois, Ana na cozinha esperava a água ferver. Helena chega por trás e coloca seus braços sobre Ana.
[Ai, Helena!]
- Puxa, Ana, como você tá tensa! – e Helena começou a apalpar os músculos dos ombros da amiga. – Estes músculos estão tão duros. Vem cá, vou te fazer uma massagem.
- Não, tudo bem, Helena. Sua massagem me dá sono e eu ainda tenho muito que fazer. Obrigada.
Helena simplesmente a ignorou.
- Senta aí. – mandou, puxando uma cadeira.
Ana balançou a cabeça. Era comum Helena ignorar os protestos da amiga. Isso acontecia sempre que sugeria algo já tendo uma decisão sobre o assunto.
- Porque esse jeito mandão pro meu lado? Não me ouviu dizendo que sua massagem me dá sono? – Ana ria.
- Eu sei o que é melhor pra você. Senta aí. Vou te fazer relaxar.
E começou a massagear os ombros de Ana. Esta fechou os olhos e tentou se deixar relaxar com as mãos habilidosas da jornalista. Decidiu não encucar com a reação exagerada do seu corpo e tentar curtir a massagem.
- Já deu uma examinada nos documentos? – perguntou Ana.
- Ainda estou tentando entendê-los. Você sabe, não posso me dedicar apenas a isso, tenho que continuar com meu trabalho. Mas fiz um pouco de pesquisa e a coisa toda está fazendo bem mais sentido. Já comecei a redigir um rascunho de texto.
- Do que tratam os papéis?
- Basicamente, mostram superfaturamento em vários tipos de licitações na prefeitura. E há pistas, eu diria até provas, de quem está envolvido.
- E quem é?
- Parece ser um grupo de pessoas, ligados a um dos secretários da prefeitura.
- Contou pro João a respeito?
- Ainda não. Acho que ele não aprovaria meu envolvimento. Vou esperar mais um pouco. Só você sabe que eu tenho esses papéis.
A massagem continuou. Ana não conseguia relaxar totalmente; fechou os olhos. Percebeu que seus sentidos estavam aguçados, reagindo intensamente a cada estímulo que vinha de Helena. Havia o toque forte das mãos nos ombros. O cheiro do xampu nos cabelos da loira e, bem de leve, o de sabonete. A voz macia e grave tão próxima ao ouvido.

Mas a massagem era tão boa. Esse era definitivamente outro talento de Helena. Ana decidiu provocá-la.
- Você vai dar uma esposa maravilhosa. Sujeito de sorte, esse João. Parece que vai casar com uma daquelas garotas de seriados americanos. Loira, inteligente (o que convenhamos já é uma coisa rara)...
- Ei! – a loira fingiu indignação.
- Além disso, cozinha, é detetive nas horas vagas, faz massagem como ninguém...
Helena sorriu e continuou apalpando os ombros tensos.
- Vai alugando, Ana Maria. Vamos trocar de papéis pra variar.
A morena continuou:
- Como ninguém é perfeito, você deve ser ruim de cama. – Ana achou graça do próprio comentário e soltou uma gargalhada, divertindo-se. Helena deu um tapa de leve no ombro da amiga, fingindo protestar. Então se aproximou do ouvido dela e sussurrou:
- Isso você nunca vai saber.
Um arrepio percorreu o corpo da morena. Tentou disfarçar o efeito dos lábios da jornalista tão próximos do seu ouvido.
- Posso sempre perguntar a João – disse, tentando se acalmar.
- Fique à vontade. Te garanto que ele não vai reclamar.
- Confiante, hein Helena? Fala a verdade, você se acha...
- É você que está tirando sarro do meu desempenho na cama.
Silêncio.
Helena virou seu corpo e ficou de frente para Ana. Não passou despercebido à morena, o roçar dos cabelos loiros no seu ombro. [Meu corpo parece que vai pegar fogo com cada coisa que ela faz.]
- Nenhuma de nós é uma freira, Ana. Você sossegou um pouco por que está envolvida com a tese. E eu porque finalmente achei meu parceiro. Mas lembra de quantas vezes a gente saiu à caça juntas?
Ana ficou calada por um instante. Helena voltou à massagem.
- Nunca fui páreo pra você, Helena. Don Juan de saias.
- Eeei... – parou a massagem.
- Verdade – Ana achou engraçada a reação da amiga.
- Esse termo é tão clichê, Ana. E nada tem a ver comigo.
- Quer que eu comece com a lista dos corações que você despedaçou?
- Não sei do que você está falando – Helena queria mudar de assunto.
- Hmmm, deixa eu ver... teve o Tavinho... o Rodrigo.... Marcos... Pedro...
- Não arrebentei coração de ninguém. – Helena interrompeu – Sempre deixei muito claro que não queria compromisso.
- Sei...
- E eles superaram. Já estão em outra. A vida continua.
- Sei...
Silêncio.
- Você nunca aprovou muito minha galinhagem, não é?
- Que termo horroroso, Helena.
- O nome é feio, mas é apropriado. Não tenho vergonha e não dou a mínima pra o que os outros pensam.
- Eu sei – Ana ficou pensativa. – Não é que eu não aprove o jeito com que você se relaciona com esses caras. Sua vida sexual não é da minha conta. [Infelizmente, não é, Ana?] Só vi alguns deles, que eram amigos próximos, se apaixonarem por você e sofrerem muito por isso.
- Eu sei. – Helena estava séria. – Fui muito imatura algumas vezes. Às vezes me arrependo de algumas coisas que fiz, ou do modo como tratei alguns deles.
Ana não disse nada. Helena continuou:
- Mas isso tudo faz parte do passado. Agora sou outra pessoa.
- De alguma forma você sempre foi honesta com eles.
- Sabe que às vezes eu sinto falta do sexo?
- Qual é o problema com João? – perguntou Ana rindo.
- Não há nada de errado com João, sua maldosa. – Novo tapa nas costas. – Apenas sinto falta de sangue novo. – parou e deu um sorriso malicioso. – Não exatamente sangue, se é que me entende.
- Libertina. – Ana riu. Pura tensão. A conversa estava, na verdade, lhe gerando um calor enorme por dentro.
- E tenho boas memórias. Às vezes, sinto falta de flertar e levar alguém pra cama. O lance da conquista.
- Você continua flertando.
- Mas não levo ninguém pra minha cama.
Helena interrompeu a massagem outra vez. Virou-se e abaixou-se para encarar Ana.
[Que tom incrível de verde têm seus olhos, Helena!]
- Sei lá... Porque isso me passa pela cabeça, Ana? Sempre imaginei que quando se acha a pessoa certa, você não pensa em mais ninguém.
Ana estava tendo problemas pra manter a respiração num ritmo normal, com o rosto da loira tão próximo do seu. [Que inferno!]
- Essa é uma idéia muito romântica, Helena. As coisas não são assim. A gente fantasia muito quando o assunto é sexo.
Silêncio. Helena moveu-se para trás da morena e recomeçou a massagem. Ana ficou encucada:
- Já percebeu como a gente sempre acaba falando em sexo?
Era verdade. As conversas sobre sexo eram freqüentes entre as duas.
- Ana, você é minha melhor amiga. É a irmã que eu nunca tive. Não tenho nenhum problema em compartilhar tudo com você.
- Às vezes me pergunto se outras amigas são tão abertas quando conversam sobre sexo.
- Acho que é uma coisa de mulher. Falam de sexo sem necessariamente erotizar. Não é como homens falam de sexo. E adoro discutir essas coisas com você.
- Por quê?
- Ah, sei lá, Ana. Sempre foi assim. Me sinto à vontade pra compartilhar isso com você. – parou e virou-se pra encarar a amiga de novo. – Falando nisso... Que marasmo sua vida sexual ultimamente hein, mulher? Quando foi a última vez?
- Não é da sua conta.
- Tanto tempo assim? – agora era Helena quem ria. – E aquele pianista?
Continuou com a massagem.
- Quem? O Maurício?
- É. Acho que era esse o nome. Bonitinho ele. E tinha uma bunda maravilhosa.
- É, tinha mesmo. Mas era só isso. Era uma bunda que tocava piano.
- Hmmm... mais nada?
- Nadica. Não dava pra conversar. Mas era bom de cama.
- Porque não continuou com ele?
- Ele tava ficando sério demais.
- Oh, quem é que destrói corações, mesmo?
- Não é isso. Eu só queria me divertir e ele queria mais que isso.
- Divertir... Leia-se “uma boa trepada”.
- Do jeito que você coloca as coisas...
- Só dou nome aos bois. E aí? Porque Maurício era bom?
- Hmmm... Ele tinha uma língua maravilhosa.
- Beijava bem?
- Hmmm... Não exatamente... – Ana sorriu.
- Ah... – Helena disse com um sorriso malicioso. Aproximou-se do ouvido da amiga e disse sussurrando:
- Você é uma despudorada, Ana Maria.
Novo arrepio percorreu o corpo da morena. [Já sei o que é isso. É falta de sexo. Preciso ir pra cama com alguém. E ontem!]
- Ah é? Sou só eu? Me diz que você não aprecia uma língua habilidosa, Helena.
- Adoro. A água tá fervendo. Vai fazer o café ou faço eu?
- Deixa que eu faço.