Quando acordou, o sol já estava alto. Procurou por Helena, mas apenas Leonora estava no quarto.
- Ei... Você acordou!
Ana sorriu.
- Não fale. – disse Leonora aproximando-se e beijando-lhe a cabeça.
[Cadê Helena?]
- Helena foi pra casa tomar um banho e cuidar de algumas coisas, mas volta logo. Nós decidimos nos alternar pra ficar com você.
Ana sorriu. Achou engraçado Leonora adivinhando-lhe o pensamento.
- Leonora – Ana sussurrou.
- Tente não falar, filha.
- Obrigada.
- Não tem o que agradecer, Ana Maria.
Sorriu e disse:
- Você é minha filha. – fechou os olhos e pôs a mão sobre o peito. – E quase me matou do coração. – Então segurou uma das mãos de Ana. – Mas não imagina como estamos felizes de saber que vai ficar bem. Agora trate de descansar.
*****
O mesmo médico que tinha trazido as primeiras notícias à família, Dr. Gabriel, chegou logo em seguida e apresentou-se à Ana. Helena tinha voltado.
- Bom dia, Ana. Eu sou o Dr. Gabriel Silva. Como está se sentindo?
- Tenho um pouco de dor – Ana respondeu baixinho.
Ele aproximou-se da morena e com cuidado examinou-lhe a região abdominal.
- Já sabe a extensão dos seus ferimentos?
Ana balançou a cabeça negativamente.
Então ele mais ou menos repetiu o que havia dito à família no dia anterior. E acrescentou:
- Você ainda está sob efeito dos medicamentos por isso não sente tanta dor.
Ana fez uma careta. [Quer dizer que é mais doído que isso?]
- Mas não se preocupe, vamos mantê-la medicada assim. – ele disse. – Você deve estar sentindo um pouco de dor ao respirar.
Ana assentiu com a cabeça.
- Isso é por causa das fraturas nas costelas. Tudo o que você precisa agora é descansar. Seu próprio corpo vai cuidar do processo de cura. Nós vamos assistir de perto – ele sorriu. – e também vamos levar todo o crédito.
Ana riu. E com a risada, sentiu uma pontada nas costelas.
- Pelo menos por enquanto, você vai sentir dor ao falar e rir também. Mas essa sensação deve passar logo.
Ele prosseguiu:
- Estamos mantendo você aqui porque ainda precisamos monitorá-la e verificar se há danos a órgãos vitais.
Ana franziu o cenho.
- Não se preocupe – ele explicou. – Não acredito que haja nenhum dano maior. Mas temos que ficar de olho em você – ele disse com um sorriso. – E também por causa da cirurgia. Os demais ferimentos, embora doloridos, não são profundos.
- Quanto tempo devo ficar aqui? – perguntou Ana.
- Aproximadamente uma semana.
Helena e Leonora também ouviam atentamente.
- Alguma pergunta?
- Quanto tempo pra me recuperar? – perguntou Ana falando devagar.
- As fraturas devem se recuperar totalmente dentro de quatro a seis semanas.
[Tudo isso?!]
- E gradualmente você vai poder voltar às suas atividades normais. Qual é o seu trabalho?
- Toco violão.
- Hmmm... Acredito que possa voltar a tocar logo.
- Alguma outra pergunta?
- Meu rosto... posso ver?
- Claro, vou pedir à enfermeira que te arrume um espelho. Mas já posso lhe adiantar que esses ferimentos vão desaparecer logo. Hematomas em algumas partes do seu corpo podem levar mais tempo, mas o pequeno corte no supercílio não vai deixar cicatriz. O inchaço na região das pálpebras deve desaparecer gradualmente. Não se preocupe.
Ana assentiu com a cabeça.
- Há um outro detalhe importante... Você foi trazida aqui pela polícia e devido à natureza dos seus ferimentos, eles vão procurá-la em algum momento com perguntas sobre o que aconteceu. Mas vou pedir que esperem alguns dias para visitá-la, assim não será tão difícil pra você conversar. Você conhecia os agressores?
Ana sentiu-se mal. Não queria pensar naquela noite. Balançou a cabeça negativamente.
- Estará segura aqui, Ana Maria. – Ele disse. – E se quiser, posso indicar uma psicóloga com quem poderá conversar. Este tipo de profissional é de grande ajuda em traumas desse tipo.
Ana baixou a cabeça. Não queria passar por aquilo de novo. Dr. Gabriel não insistiu.
- Tudo bem. É apenas uma sugestão. E não precisa decidir nada agora.
- Obrigada, doutor. – Ana disse baixinho.
- Se precisar de alguma coisa, as enfermeiras podem ajudá-la. Eu volto amanhã para ver como você está.
Helena tinha algumas perguntas que gostaria de fazer ao Dr. Gabriel, detalhes sobre os ferimentos e, principalmente, se tinha havido algum tipo de crime sexual. Sua mente curiosa não parava de perguntar e conjeturar sobre quem tinha feito aquilo. Mas sabia que não ajudaria Ana se bombardeasse o médico com perguntas nesse momento. Ana ainda estava traumatizada e era difícil reviver as cenas do espancamento. Decidiu que conversaria com o médico em particular numa outra hora. Agora, Ana precisava de sua companhia como amiga, não como detetive.
Como prometido pelo médico, a enfermeira trouxe um espelho logo em seguida. Helena sabia que Ana ficaria assustada – lembrou-se da própria reação quando viu o rosto inchado de Ana pela primeira vez. Chegou perto da morena e tocou-lhe os ombros (estava descobrindo novos lugares no corpo de Ana que poderia tocar sem provocar nenhuma dor).
Quando viu a própria imagem no espelho, Ana, de fato, assustou-se. Lembrou-se imediatamente daquelas cenas finais de lutas de boxe com os lutadores quase desfigurados. Não estava tão mal, mas foi a imagem que lhe veio à mente. Ficou em silêncio. Tocou de leve os hematomas e o inchaço do rosto, viu os pequenos cortes. Mas lembrou-se das palavras do médico. Sabia que seu rosto voltaria ao normal. Levantou os olhos e encarou Helena ao seu lado. A loira sorria.
- Pelo menos sua bunda continua a mesma. – disse Helena.
Ana riu. E imediatamente sentiu uma pontada de dor. Fez uma careta.
Helena percebeu o que tinha feito e sentiu-se terrivelmente mal por fazer a morena rir.
- Ai, Ana, desculpa.
Inclinou-se e beijou-lhe os cabelos.
- Tentei descontrair você e acabei te fazendo rir.
- Eu precisava. – Ana sorriu para a loira.
- A aparência do seu rosto é tão insignificante diante do fato de que você escapou e vai se recuperar totalmente. – disse Leonora.
- Leonora está certa, Ana – disse Helena. Olhou-a bem de perto – E você continua linda.
Ana sorriu. Sabia que Helena estava sendo sincera. [Isso é o suficiente pra mim.]