23 dezembro 2006

Capítulo LVIII

Ana acordou e imediatamente sentiu falta do corpo da loira ao seu lado. Estava sozinha. Nem tinha idéia de quanto tempo tinha dormido. Procurou pelo relógio. Dez da noite! [Droga! Dormi demais.] Rapidamente tomou outro banho, trocou-se e desceu para a festa.

A área em volta da piscina estava cheia de gente. Muita gente jovem. A noite estava agradável e havia música, boa comida, e conversa animada. Algumas pessoas dançavam.
De longe, Ana avistou Helena. Sorriu para ela. Sentiu um arrepio ao lembrar-se dos momentos de prazer que tinham acabado de compartilhar. [Nunca vou ter o suficiente dela.]

Helena conversava animadamente; estava numa roda que incluía Duda, Flávio, Júnior, Aline e Sara. Estava contando uma anedota quando avistou Ana de longe. Perdeu-se na seqüência da historia, mas conseguiu se achar e terminou a piada.
Sentiu aquecer-se por dentro quando Ana sorriu-lhe do outro lado da piscina. Aquele era um olhar repleto de significados. Compartilhavam um segredo e isso tornava tudo tão mais excitante e especial. Helena fechou os olhos por um momento e sentiu novamente o toque da morena na sua pele, fazendo amor com ela, beijando-lhe a boca. Arrepiou-se toda. [Ela me deixa louca de tesão.] Respirou fundo e abriu os olhos.
- Tá tudo bem? – Aline perguntou ao seu lado.
Helena sorriu.
Encarou a jovem por um instante. Ela era boa companhia e Helena achava-a divertidíssima. Tinham o mesmo senso de humor: rápido e ácido. Aline também gostava de fazer piada com tudo e com todos, inclusive consigo mesma, exatamente como Helena.
Mas a loira percebeu que a garota não estava conseguindo – ou querendo – disfarçar o seu interesse por ela. Perguntou-se se Aline o fazia intencionalmente. Concluiu que não.
Aline era mesmo muito discreta e Helena realmente gostava dela, mas os olhares eram intensos. Helena não estava exatamente desconfortável com a atitude da garota, mas também não sabia o que fazer a respeito. Quando noiva de João, tudo o que tinha que fazer para desencorajar uma paquera insistente, era “grudar” nele. Mas agora não tinha essa opção. Além disso gostava da companhia de Aline. Apenas não queria encorajar nada.
- Sim, estou bem, Aline – Helena respondeu. [Eu realmente gosto de conversar com ela. Mas é só isso mesmo.]
É claro que havia algo de muito excitante em ser cortejada por uma mulher. Era algo novo para Helena. Os olhares que Aline lhe lançava eram diferentes. A garota fixava-se em seus olhos. E sorria muito. Tinha realmente um sorriso bonito.

Mas o coração de Helena pertencia a outra pessoa. E não havia lugar para mais ninguém. Bastava observar suas reações quando Ana apareceu do outro lado da piscina: tudo à sua volta tornara-se irrelevante e seu corpo respondera imediatamente à presença da morena.

Ana também usava uma saia e Helena começou a imaginar sua mão sob aquele tecido. [Meu Deus! Preciso me controlar!]
A noite fresca de fim de março pedia roupas leves e frescas e a blusinha que Ana usava era exatamente assim. O tecido fino insinuava as formas delicadas do corpo.
[Que mulher linda ela é! E acabei de fazer amor com ela!] Outro arrepio percorreu-lhe a espinha, seguido por uma onda de calor. Estava totalmente tomada pela visão de Ana e queria beijá-la de novo.

Aline, ao seu lado, tinha os olhos fixos na interação entre ela e a morena.

*****

Ana e Helena não se falaram. A morena encontrou vários conhecidos e foi parando para conversar. Mas não deixava de procurar o olhar da loira. E sempre o encontrava, acompanhado de um sorriso.
Helena, por sua vez, estava entretida na conversa com seus amigos.
Nenhuma das duas parecia tão ansiosa por conversar com a outra. [Pensando melhor... conversar só complicaria as coisas... vai dizer o que a ela, Helena?] Queriam mesmo era voltar para o quarto. Mas na impossibilidade de estarem juntas, curtiam imensamente a intensa troca de olhares e a paquera sem palavras.

Helena decidiu banir qualquer pensamento que envolvesse sua decisão de se afastar de Ana. [Hoje não vou pensar nisso.]
Relaxou um pouco e decidiu que iria tentar se divertir.
Havia uma porção de rostos desconhecidos na festa, mas, extrovertida que era, acabou conhecendo várias pessoas.
As conversas eram sempre regadas a muita cerveja.

*****

Já passava de uma da manhã e a festa estava animadíssima. Na verdade, o número de pessoas à beira da piscina tinha aumentado. Sob um céu estrelado, numa noite de temperatura amena, alguns dançavam, outros namoravam e a maioria conversava em pequenos grupos. E bebiam muito.

Ana não quis beber. Na verdade, não tinha certeza se podia exagerar na bebida por causa dos medicamentos que ainda tomava; resolver ir devagar. Conversava com Júnior e Duda e, à distância, observou que Helena estava realmente se divertindo. Com um copo na mão, dançava e ria muito.

*****

A certa altura, um pouco cansada da música alta, Ana resolveu dar um tempo no sofá da sala. Entrou na casa, deitou-se e fechou os olhos. Embora a casa estivesse aberta, não havia ninguém ali. Ficou em silêncio por alguns minutos.
De repente ouviu que alguém se aproximava, mas não se mexeu. Novo silêncio.

Um outro barulho; desta vez bem próximo de si. Ana abriu os olhos e deu de cara com o rosto de Helena a centímetros do seu. A loira tentava não rir, mas estava fazendo um esforço enorme para ficar séria. Estava completamente embriagada. Nem esperou que Ana respondesse: foi chegando a boca mais perto da morena e a beijou.
Foi um beijo bêbado: espontâneo, intenso, molhado, sem técnica nenhuma, a língua invadindo a boca de Ana; tinha gosto de cerveja e uísque; e Helena murmurava palavras incompreensíveis. E como Ana imaginou que fosse acontecer, a loira não conseguiu segurar o peso do corpo por muito tempo e soltou-se sobre Ana. A morena sentiu uma dor aguda na região do abdômen. Mas não ligou tanto; estava simplesmente adorando o beijo. Ajeitou-se melhor no sofá e encaixou as pernas da loira entre as suas.
Helena resmungava alguma coisa parecida com “eu te amo” e continuava a beijar Ana. E passava as mãos pelos cabelos de dela, bagunçando-os completamente. Ana tinha as mãos nas costas da loira. Estava adorando o contato das suas pernas com as da loira. [Hmmm... Adoro saia.]
Ouviram um barulho: era alguém que se aproximava. Ana entrou em pânico. Helena estava bêbada demais para reagir e ela não conseguiria tirar a loira de sobre si a tempo.