- Oi Helena – João era todo sorriso. Estava tão feliz em vê-la. [Eu sabia que a encontraria aqui.]
- Oi João – ela o cumprimentou com um abraço. Foi soltando, mas ele a segurou mais um pouco e disse ao seu ouvido:
- Senti tanto sua falta.
Helena suspirou fundo. Não disse nada. Apenas encarou-o e tocou-lhe o rosto com a mão. Deu-lhe um beijo rápido no rosto e convidou-o para entrar:
- Vem, Duda está aqui também.
A loira conduziu-o até a sala.
- Ei Ana. – João disse abraçando a morena. – Oi Duda – beijou a prima de Helena.
- Como está se sentindo? – ele perguntou a Ana.
- Melhor, João. Obrigada. – Ana respondeu tentando sorrir. Estava evitando olhar para a loira.
De repente a morena franziu o cenho. Ficou encucada. [Será que o comportamento de Helena tem alguma coisa a ver com João? Será que ele veio porque ela o convidou?]
- Aconteceu alguma coisa Ana? – João ficou intrigado com a expressão no rosto da morena.
- Hã? Não... – Ana respondeu.
[Será que eles conversaram depois de ontem à noite?]
Encarou a loira. Helena ainda tentava fugir do olhar de Ana. [Não quer olhar pra mim. E isso está me matando.]
Duda também estava atenta. Já suspeitava que João e Helena não estavam bem. Tinha visto o modo como interagiam no hospital. Mas não tinha tido certeza então. Agora não; estava claro que não estavam juntos. [Estão definitivamente separados.] Estavam os dois deliberadamente mantendo-se distantes um do outro.
Também havia algo entre Ana e Helena além da briga. Percebera que Helena estava sendo dissimulada. [Está evitando o olhar de Ana.]
- Vou preparar mais café – disse Helena – Quem quer?
- Eu topo – disse Duda.
- Eu também – João disse.
- Por que não vem todo mundo pra cozinha? – convidou Helena – Vocês já comeram?
Eles a seguiram. Ana andando devagar, amparada por Duda.
Helena preparou pedaços de bolo para Duda e João. E os quatro sentaram-se à mesa com as canecas cheias do líquido fumegante.
A loira sentia-se num campo minado. Com relação a assuntos, para todo lugar que olhava havia uma bomba esperando por ela. Não queria falar com João. [Pelo menos não sobre o que ele quer conversar.]
Também não podia conversar honestamente com Ana. [E isso está me matando por dentro.]
E não conseguia se esconder do olhar inquisidor de Duda. [Ela está me analisando.]
João também tinha sua lista de assuntos que queria evitar. Não podia falar do noivado. E também não queria falar do noivado de Duda porque isso implicaria em perguntas sobre o seu com Helena. [Mas hoje eu vou conversar com você, Helena. Não agüento mais esperar.]
Duda estava achando tudo muito interessante. Estava particularmente intrigada com o que estava acontecendo entre Ana e Helena. [O que será que Helena fez que irritou tanto Ana? E porque está evitando o olhar de Ana?]
Ana, por sua vez, queria sair dali. Era doído ser tratada assim por Helena depois de tudo o que tinham compartilhado. [Meu Deus! Ela transou comigo ontem e hoje age como se nada tivesse acontecido!]
Mas não podia ser tão rude e sair. Duda e João estavam ali por sua causa. [Bom... João... talvez não exatamente.]
Lembrou-se dos papos sempre animados entre os quatro. Agora, a única coisa que conseguia pensar era na lista enorme de assuntos que não queria ou podia discutir. Sua briga com Helena, por exemplo. Também não podia falar do noivado da loira ou do doutorado que conseguira. [Vou falar do que?!]
- Acho que vai chover hoje – disse olhando pela janela.
João lembrou-se da canção:
- Águas de março fechando o verão.
- Promessa de vida? – perguntou Duda olhando para Helena.
Helena suspirou.
[Não no meu coração.]
Ana bebeu mais um gole do café.
- Essa canção foi inspirada num poema de Olavo Bilac – disse.
- Ah é? Não sabia – Duda estava surpresa.
Então Helena recitou:
- “Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação...” Hmmm... não consigo lembrar o resto.
João ficou surpreso:
- Como consegue lembrar disso?
- Sei lá. – A loira deu de ombros – Tem umas coisas que a gente não esquece. [Principalmente esse verso.]
“- O que você ouve? – Helena perguntou.
- Hmmm... gosto muito de MPB – Ana respondeu.
- Ah é? Quem?
- Gosto dos clássicos... Tom, Chico, Caetano, Gil, Ivan Lins, Milton Nascimento... esses caras.
Olhou para a loira. Ela segurava o rosto com as duas mãos. Tinha os cotovelos apoiados na mesa e olhava fixamente para a morena sentada à sua frente. Ana bebeu do suco e perguntou:
- Você gosta de MPB?
- Não conheço muita coisa. Mas adoraria aprender a respeito.
- Posso te mostrar...
- Você tem cds?
- Não exatamente... – respondeu Ana.
- Então o que...
- Você tem tempo livre agora? – a morena interrompeu.
- Tenho, porque? – Helena perguntou.
- Vem comigo.
Ana levou-a até sua casa. Helena estava curiosíssima. Durante todo o trajeto foi perguntando o que é que Ana queria lhe mostrar. Mas a morena não respondeu.
Entraram no quarto de Ana e ela pegou o violão.
- Não acredito que você toca.
Ana fez que sim com a cabeça.
- Nesses meses todos você nunca falou nada!
- Bom... tô falando agora. – Ana disse com um sorriso. – Vou te mostrar uma música que eu acho que é a sua cara. – Abriu um sorriso mais largo ainda. – Tom Jobim fez pra uma loira. [Tão bonita quanto você.]
Então Ana tocou e cantou “Luiza” de Tom Jobim para Helena.
Quando levantou a cabeça e encarou a loira, ela estava enxugando as lágrimas.
- Você tá chorando? – Ana perguntou.
Helena balançou a cabeça:
- É que... é tão bonito que eu fiquei emocionada.
Ana sorriu.
- Ok... vou tocar uma mais alegre pra você não chorar. E tocou uma parte de “Águas de Março”.
Quando terminou, Helena estava sem palavras.
- Meu Deus, você toca muito.
Ana ficou meio sem jeito com o elogio da loira.
- Obrigada.
Não sabia o que dizer.
- Dizem que o Tom Jobim se inspirou numa poesia do Olavo Bilac pra essa música. [Informação de almanaque que eu resolvi soltar agora porque estou sem graça.]
- Ah é? Sou doida por poesia. Qual delas? – perguntou Helena.
- Uma a ver com esmeraldas.
- Ah, eu sei qual é... “Caçador de esmeraldas”.
- Deve ser.
Depois de alguns dias, Helena apareceu com um livro e leu uma parte do poema para Ana.”
Por um breve momento, os olhos de Helena encontraram os de Ana. Viu confusão, frustração e mágoa. Ana, por sua vez, viu uma expressão dura. [Ela sabe que está me magoando. E parece estar fazendo de propósito.] Helena desviou o olhar mais uma vez.
Uma chuva fina começou a cair lá fora.
João criou coragem e perguntou à loira:
- Será que pode almoçar comigo hoje, Helena?
- Claro – respondeu ela.
Ana não agüentou mais:
- Olha... não estou me sentindo muito bem. Acho que vou voltar pro meu quarto.
Duda levantou-se e ofereceu:
- Eu te ajudo.