22 dezembro 2006

Capítulo IX

- Quais são os planos para o fim de semana? – perguntou Helena.
- Não tenho nenhum. – Ana fez uma careta. – Tem a festa do Mário no sábado. Você vai?
- Vou. Você não parece muito empolgada.
- Me sinto culpada quando tenho que parar com a tese.
- Vai ser bom pra você.
- É... acho que vai me fazer bem.
- Ana, vou sumir no sábado, ok? Sexta à noite, João me pega e eu volto no domingo. Tudo bem?
- Claro. Você tem uma cópia da chave, pode entrar e sair quando quiser.

*****

Sexta-feira à noite. O interfone toca. Ana nem se moveu da cadeira. Apenas levantou os olhos e disse com um sorriso:
- Seu príncipe chegou.
Helena sorriu e levantou-se para atender.

Dentro de alguns minutos um rapaz alto, moreno e sorridente entrava na sala.
- Oi Ana.
- Como estão as coisas, João? – perguntou a morena.
- Correria e estresse como sempre. Como está sua tese?
- Estou finalmente vendo a luz no fim do túnel.
- Isso é bom, Ana. Parabéns. Já estou sentindo falta das nossas rodas de viola.
João também tocava violão. Ele dedicava-se ao instrumento com paixão, mas era mesmo um hobby. Quando podiam, juntavam-se para tocar – o que não vinha acontecendo muito nos últimos meses. Na verdade, essa tese tinha mudado toda a rotina de Ana. Quase tudo o que costumava fazer e curtir, tinha deixado de lado por causa desse projeto.
João também tinha uma rotina bem puxada por causa das lojas que administrava. Estas pertenciam à sua família; três grandes lojas que vendiam tudo relacionado a computadores. Um trabalho rotineiro, sem nenhum glamour, chato aos olhos da maioria das pessoas. Mas João gostava muito do que fazia. E era bom nisso.
João era sempre um bom papo, companhia agradabilíssima. Mas era quieto e sério. Tinha um senso de humor diferente, mais refinado. Aquele tipo de pessoa que diz algo extremamente engraçado de forma sutil e sem sorrir. Era um pouco tímido também. O contraste com Helena era visível. Pensando bem, em termos de personalidade, ele era mais ou menos uma versão masculina de Ana. Talvez por isso os dois se dessem tão bem, o que fazia a loira imensamente feliz.
- Eu também, João. Tem tocado ultimamente?
- Não tanto quanto eu gostaria. E aí? Dá pra estudar com essa tagarela por perto? – disse olhando para Helena.
A “tagarela”, que já estava abraçada a ele, fez-lhe uma careta.
- Adoro a comida dela, mas me ajude a ter um pouco de sossego e leve ela daqui. – Ana provocou.
- Ei, vocês dois! – a loira fingiu ofender-se.
- Vou emprestá-la por alguns dias e a trago de volta no domingo. - Disse ele respondendo ao abraço e olhando apaixonado para Helena.
- Não tenha pressa – respondeu Ana sorrindo.
Outra careta de Helena.

Helena e João ainda estavam no corredor, do lado de fora da porta e Ana se deu conta que já sentia uma falta enorme da loira. [Esse fim de semana vai ser um porre.]

*****

Sábado à noite.
Quando entrou no apartamento de Mário, Ana foi logo cumprimentada por alguns amigos. Havia música tocando, uma mesa com alguns comes e umas quinze pessoas conversavam e riam em pequenos grupos. Alguns, não via há algum tempo. Alguns poucos, Ana não conhecia. Ficou irritada consigo mesma, ao procurar por Helena assim que entrou.
- Ana! – Mário veio ao seu encontro com um sorriso. – Que bom que veio. – Um beijo no rosto. – O que quer beber?
- Hmmm... Cerveja.
- Claro. Vem cá.

A campainha tocou. Alguém dirigiu-se à porta e a abriu. Ana estava conversando com Lúcia, que lhe contava alguma coisa engraçada. Com o canto dos olhos, viu Helena entrar na sala acompanhada de João. [Meu Deus do céu! Como ela consegue ficar ainda mais bonita? E esses ombros a mostra!]
A loira varreu a sala com os olhos, reconheceu alguns amigos e fixou o olhar em Ana. Abriu um largo sorriso. Tão quente e contagiante! Ana sorriu de volta. [Senti sua falta, Helena.]
Alguém veio cumprimentar Helena. Mário oferecia-lhe uma bebida. A loira quebrou o contato com o olhar de Ana, cumprimentando Mário com um abraço caloroso.
Ana voltou a prestar atenção ao que Lúcia dizia.

A festa estava mesmo muito boa. A comida era farta e deliciosa. O grupo era interessante. A conversa animada. Ana estava se divertindo. Mas muito discretamente e sem que ninguém percebesse, estivera seguindo cada passo de Helena pelo apartamento. Ela estava tão linda naquela saia preta e top verde. [Não consigo tirar os olhos dela!] Ana tentou parar de segui-la e concentrar-se em alguma outra coisa, mas acabava voltando sua atenção ao que a jornalista estava fazendo ou com quem estava conversando. Ficou seguindo-lhe os gestos delicados. O modo como tocava as pessoas. O jeito charmoso de conversar e rir, contando histórias, provocando risadas. Ana percebera também o interesse que Helena despertara em um rapaz de cavanhaque que chegara por último à festa. Era um rapaz alto, magro, que, aparentemente não dava a mínima para a aliança que a loira usava na mão direita. João, como de costume, não grudava em Helena em festas e ela andava pela sala despertando olhares e flertando com as companhias masculinas.
Ana resolveu torturar-se um pouco mais e passou a acompanhar as investidas de Carlos, o rapaz de cavanhaque. Ele era discreto, mas o interesse dele pela loira podia ser notado facilmente. Helena também tinha notado. Tinham conversado por uns minutos e qualquer coisa era desculpa pra que ele se aproximasse e puxasse conversa.

Depois de algumas horas, a festa já rumava para um desfecho. Algumas pessoas já tinham ido embora. Ana conversava com Sebastião, um amigo.
- Tô em falta com você, Ana, eu sei. Não tenho tido muito tempo pra ir ao bar. Tem algum show agendado?
- Não esquenta, Tião. Eu sei que quando você pode, aparece. Por enquanto estamos fazendo só o bar. Mas acho que a gente vai tocar no SESC em uns dois meses. Estamos escolhendo o repertório.
- Promete que me avisa, Ana. Quero ir.
- Se rolar, eu mando um aviso pra todo mundo por e-mail.
- Eu adoro ver você tocar. Quero te ouvir tocando “Castigo” do Edu Lobo.
Ana sorriu.
- Ah é... Esqueci que você adora essa música...
- Eu não conhecia. Ouvi pela primeira vez com você no violão. Me apaixonei. Pela música, pelo violão, pela violeira...
Ana riu meio sem graça com o elogio. Mas sabia que ele estava brincando.
- Vou contar pra Mariana.
- Ela sabe...
- Combinado então. Próxima vez que você for ao bar, eu toco “Castigo” pra você.
- Que honra. Vou ficar todo orgulhoso e contar pra todo mundo no bar que sou seu amigo.
- Exagerado...
- Exagerado nada... – era Helena aproximando-se e entrando na conversa. – Eu mesma já fiz isso várias vezes. – Helena abraçou Tião de leve. – Ela toca muito e eu choro toda vez.
Tião concordou. Apontou para o próprio peito e disse balançando a cabeça pra cima e pra baixo:
- Fã número um. – Apontou para Helena e disse: - Fã número dois.
- Nada disso, Tião – protestou a loira. – O número um já é meu.
Ana estava pra lá de encabulada. Queria mesmo era sair de fininho:
- Vocês não têm nada melhor pra fazer do que me deixar sem graça?
- Dá um autógrafo, vai – brincou Tião, fazendo cara de pidão.
Os três riram. Mas Tião estava mesmo de saída.
- Meninas, eu tenho que ir. Adorei ver vocês. – beijou as duas e saiu.

- Leonora me ligou hoje – Helena sentou-se na cadeira ao lado de Ana. – Amanhã eu almoço com eles. Está te esperando também.
A morena sorriu e bebeu o restinho da cerveja que tinha na mão:
- Isso é uma pergunta ou você e sua mãe já decidiram onde eu vou almoçar?
- Já decidimos. Estou apenas te comunicando o que já foi resolvido.
- Família de mandões. Nunca vi.
- Quer que eu passe e te pegue?
- Não, não precisa. A que horas?
- Meio-dia eu acho. Almoço de domingo não tem hora certa pra começar. Se você chegar a qualquer hora antes da uma, não vai ter problema.
- Se eu não for...
Helena riu.
[Que risada linda ela tem!]
- Por tua conta e risco. Nem me envolva.
- Não me defenderia pra sua mãe? – Ana fingiu surpresa.
- Não. Você se acerta com Leonora. Afinal, você é a filha predileta dela. – Helena deu de ombros, fingindo despeito.
- Melhor eu ir.
- Também acho. Leva o violão.
- Eu sabia. Vou ter que trabalhar pra ganhar meu almoço? Além de mandões, exploradores.
- Tadinha de você, né? – Helena fazia biquinho ao falar. – Você não tocou nada pra mim esta semana. Eu tenho te dado uma folga por causa da tese e não peço nada. Mas amanhã, quero ouvir minhas canções.
Ana balançou a cabeça.
- Mandona. – sorriu. – Gente como você devia vir com um aviso no peito: “Controladora compulsiva. Mantenha distância”.
- Você me ama. Não tem a menor noção de como levar a vida sem que eu te diga o que fazer.
- Não sei por que ando com você. É a prepotência e convencimento em pessoa.
Helena abraçou a amiga:
- E eu te amo também. – disse com ironia. Depois ficou séria: – Senti sua falta hoje, Ana.
[Eu também, Helena. Eu também.]
- O que fez de bom?
- Ficamos no apartamento de João ontem. Hoje demos umas voltas e à tarde demos uma passada em casa. Precisava de umas roupas.
Ficaram caladas por um instante.
- Me acostumei tanto com sua companhia, Ana. Nem eu achei que nos daríamos tão bem morando juntas.
- Eu também não. Quer outra cerveja? Vou pegar uma pra mim.
- Quero.
A morena levantou-se e voltou em seguida com duas latinhas. Passou uma para Helena que a abriu imediatamente.
Ana retomou a conversa:
- A gente se dá bem porque se conhece muito bem. Quantos anos? Dez, doze?
- Ah, sei lá. Te conheci por causa do Paulo.
- É, eu lembro.
- Não acredito que você roubou meu namorado e depois de tudo, ainda se tornou minha melhor amiga.
Ana riu do comentário.
- Impressionante como numa frase curta assim você conseguiu juntar tanta inverdade.
- Ah é? Refresque minha memória, Ana Maria.
- Primeiro, ele não estava namorando você quando a gente ficou juntos.
- Hmmm...
- Segundo, não roubei ninguém. Não levantei um dedo pra conquistar o cara. Na verdade, não conquistei ninguém. Ele sumiu logo depois.
- Você está se prendendo a detalhes insignificantes. O resumo da ópera é que eu gostava dele e ele se interessou por você. Me chutou e foi atrás do que queria.
- Aquela experiência toda fez um bem danado pra minha auto-estima.
- Pra mim, teve o efeito contrário.
- A paixão da garota mais bonita do colégio se interessa por mim...
- Eu fiquei arrasada. Queria te estrangular.
- E quase estrangulou mesmo. Lembra da nossa primeira conversa?

“- Sua vadia desgraçada! Não vai dizer nada, não?
Ana não sabia o que dizer. Estava tão nervosa com a reação da loira à sua frente. Perdeu a fala.
Olhou para a porta do banheiro do colégio, mas a loira estava trancando a passagem. Não havia ninguém por perto. A loira estava a fim de briga.
- Eu... ah...
- Você saiu com meu namorado.
- Eu nem sabia...
- Mentirosa!
- Eu...
- Eu vou te estrangular! – e avançou pra cima da morena.
Mas Ana era mais alta que a loira. E fora mais rápida também. Não sabia como, mas conseguira segurar a garota pelos pulsos e a prensara contra a parede. Helena se debatia em suas mãos.
- Fica calma, garota. Se quer o Paulo tanto assim, pode ficar com ele. – disse num tom baixo – Eu só aceitei um convite pra ir ao cinema.
- E depois ficou nos amassos com ele.
- Eu não sabia que ele era seu namorado.
- Eu vou te matar quando eu sair daqui.
- Então não vou te soltar.
Helena parou de se debater. As duas ficaram em silêncio.
- Porque não vai perguntar a versão dele da história?
Helena só bufava.
- Me solta.
- Só se você prometer me deixar em paz.
A respiração de Helena ainda estava alterada.
- Tudo bem, não vou fazer nada - concordou.
Ana hesitou. Não confiava na loira. Não queria confusão pro seu lado. Uma briga poderia resultar em suspensão ou expulsão e perderia a bolsa que conseguira com tanto custo. Se alguém tinha algo a perder numa briga com a loira era ela.
Por alguma razão, acreditou na loira. E ela, de fato, nada fez. Ana aproveitou e saiu rápido dali.”

Helena riu ao lembrar do episódio.
- Eu era tão arrogante! E ele nem merecia tanto barulho.
- Ainda bem que eu era mais forte que você. Se não, tinha levado uns tapas. Mas eu treinava judô na época. Tinha confiança no meu físico quando era pra encarar alguém.
- Meu Deus, que baixaria. Você até que ficou calma naquela situação toda.
- Eu tinha medo de um escândalo. Não podia ir parar na secretaria. Eu perderia a bolsa.
- Tinha esquecido isso.
- E por dentro eu tava uma pilha só. Você que não me viu tremendo. – balançou a cabeça. E continuou: – Eu não estava tão envolvida com o sujeito. E por alguma razão, não consegui ter raiva de você. Achei até um pouco engraçado você tão brava.
- Por onde anda o Paulo?
- Não faço idéia. Nunca mais ouvi falar.
- Eu tenho muito a agradecer a ele.
- Eu também.
- Um brinde ao Paulo. Onde quer que ele esteja...
- Tim-tim. – Ana responde, encostando sua lata de cerveja na de Helena.