22 dezembro 2006

Capítulo XIX

São Paulo, fevereiro de 2002 (Depois do beijo...)

Ana estivera distraída a noite toda no bar. Estava fazendo um esforço sobre-humano para concentrar-se na música. Não conseguia esquecer o beijo em Helena. Queria ir pra casa, fechar os olhos e viver aqueles segundos mais uma vez. Mas não dava. Tinha ainda umas duas horas de trampo pela frente no bar. Não tirava os olhos da porta, esperando que Helena viesse ao bar, como ela tinha dito. No intervalo, Melissa a confrontou:
- Está distraída hoje.
- Estou cansada, Mel. Quero ir pra casa logo.
- Não tira os olhos da porta. Esperando alguém?
- Não.
Não convencera a cantora. Mas esta resolveu não insistir.

Helena acabou não aparecendo no bar.

*****

Helena estava tão afetada pelo beijo quanto Ana. Também não conseguia parar de reviver a cena, a boca de Ana na sua, a língua de Ana na sua boca, o gosto dela, as mãos no corpo dela, as mãos dela no seu corpo, as mãos dela no seu rosto. Nunca se sentira tão envolvida por alguém. Nunca um beijo a tinha deixado tão excitada.

Assim que a morena saiu, ligou para João e inventou uma dor de cabeça. Não queria vê-lo. Queria mesmo era ir para o bar e ver Ana, e tocá-la e beijá-la mais uma vez. Mas estava confusa; não sabia o que fazer.

Até agora, tinha sido capaz de justificar para si mesma que Ana era sua amiga e João era o amor da sua vida. Estes dois estavam etiquetados e guardados nas devidas caixas dentro da sua cabeça. Mesmo com tudo o que vinha ocorrendo entre ela e a morena, ainda tinha sido capaz de manter as etiquetas: Ana, a amiga; João, o noivo. Quando sentia alguma coisa diferente e seu corpo dizia outra coisa, checava as etiquetas. Escolhera ignorar o fato de que o papel de Ana em sua vida estava ultrapassando o de amiga. E não era apenas por causa do que Ana fazia. A morena tinha se tornado algo mais porque Helena a via de um jeito diferente.

Duda tinha vindo com aquela pergunta insolente “Há quanto tempo está apaixonada por Ana?”, tentando mostrar a verdade que não queria admitir. Mas até então, ainda tinha argumentos para mostrar que Ana e ela eram apenas amigas íntimas. Nada tinham feito de mais.

Mas e agora? O beijo mudara tudo.

Não. Não era o beijo que tinha mudado tudo. Era a sua reação ao beijo. Por que simplesmente não ignorava o que tinham feito e seguia com sua vida? Por que não encarava a coisa toda como a brincadeira que era?

Porque era impossível fazê-lo.

Tudo bem. Admitia. Sentia-se sexualmente atraída por Ana. E mesmo antes do beijo quando a morena a abraçava, sentia-se consumir de... tesão. [Mas isso é porque Ana me abraça daquele jeito dela.]

Então porque não fazia nada para pôr um fim àquilo? Sempre tratara a amiga como amiga. Nunca a tocara de outro jeito. Verdade. [Você simplesmente provocava, Helena. Então esperava que ela reagisse e curtia o que ela fazia com o seu corpo.]

Não havia diferença alguma entre o modo como tratava algum pretendente masculino e o modo como vinha tratando a amiga. Podia sempre argumentar que estava sendo fiel a João. Mas na verdade estava fazendo a mesma coisa que costumava fazer com outros homens: provocava sua vítima sexualmente, seduzia-a, deixando-a quase louca de desejo, completamente em suas mãos. Então recuava. Tinha feito isso dezenas de vezes. Adorava a sensação de poder que isso lhe causava. Depois que João aparecera, a única coisa que tinha mudado era o que dizia para si mesma ao recuar “estou noiva, sou comprometida”.

Com Ana, as coisas tinham sido ainda mais intensas porque podia tocá-la, abraçá-la, ser carinhosa com ela, o que não podia fazer com um homem sem causar problemas com João.

Ainda estava caçando. Continuava a mesma velha Helena de sempre. E sua última vítima tinha sido a pessoa que lhe era mais preciosa.

Helena sentiu-se terrivelmente mal ao constatar isso.

Mas havia mais. Agora ela também era presa. Pela primeira vez na vida, não tinha controle absoluto sobre a caça. Estava com medo do que sua vítima lhe fazia sentir. Não estava mais no controle. Estava viciada nas sensações que Ana lhe causava. Não conseguia se afastar dela. Tinha que interagir com a morena onde quer que estivessem.

Lembrou-se do que tinha dito à Ana antes de beijá-la: “Não estou interessada em você. Não desse jeito. Meu negócio é homem”.
Era uma mentira deslavada. Sabia que estava mentindo mesmo quando estava dizendo as palavras.

“Há quanto tempo, Helena? Há quanto tempo está apaixonada por Ana?”
[Isso é loucura! Ana é minha amiga. Não posso estar apaixonada por ela.]

“Há quanto tempo está apaixonada por Ana, Helena?”
[Droga de Duda, droga de voz. Que inferno.]

Não conseguiu conter as lágrimas. Sua vida estava desmoronando.