22 dezembro 2006

Capítulo XLIX

Ana olhou-se no espelho naquela manhã. A cada novo dia, quando o fazia, podia observar uma pequena melhora na sua aparência. Tinha deixado o hospital há menos de uma semana e estava maravilhada com a capacidade de recuperação do seu corpo. Ninguém poderia deduzir – simplesmente olhando para seu rosto – que tinha sofrido tal espancamento há pouco mais de dez dias. Ainda sentia dores por causa das costelas fraturadas e andava devagar. Mas era realmente admirável a velocidade com que seu corpo vinha recuperando-se.
[Que pena que o meu coração não tenha essa mesma capacidade.]
Respirou fundo.
Quase não tinha visto Helena nesses últimos dois dias. Estavam se evitando. De fato, ver a loira era difícil.
Apesar da atitude fria da jornalista, Ana não conseguia deixar de reviver os momentos íntimos que tinham compartilhado. Se por um lado, sentia-se magoada com a rejeição da loira, por outro, ainda a desejava. Ainda sentia a mesma atração; queria tocá-la. Ver Helena ainda lhe tirava o fôlego.

O almoço com João tinha sido uma grata surpresa. A morena tinha se preparado para consolá-lo por causa do rompimento do noivado e, ao contrário, acabou se divertindo. Não falaram da loira. É verdade que Helena rondava o papo entre os dois como um fantasma, mas conseguiram evitar tocar no nome dela. A princípio, a conversa parecia não fluir, os dois preocupados em encontrar assuntos que não incluíssem Helena. Mas conseguiram relaxar e, ao final do almoço, estavam rindo juntos, genuinamente interessados no que o outro dizia. Na verdade, não precisavam se esforçar muito: gostavam sinceramente da companhia um do outro. Com aquele almoço, alguma coisa da velha e boa amizade pareceu ter sido recuperada.

*****

Helena evitava Ana porque achava que não conseguiria levar seu plano adiante se tivesse que conviver com a tristeza e mágoa que via estampadas no rosto da morena. O que queria mesmo era jogar tudo para o alto, tomá-la nos braços e dizer-lhe o quanto a amava.
A loira também não conseguia agüentar situações não-resolvidas. Ansiava por um desfecho para o impasse entre as duas.
Mas havia muito pouco que pudesse fazer, a não ser esperar que a morena decidisse tomar uma atitude, aceitasse a bolsa e deixasse o país.
[Que situação! Ainda tenho que esperar que ela me odeie.]

Helena continuava a aparecer na casa dos pais para jantar com eles. E tinha avisado Ana que estaria à disposição caso precisasse de alguma coisa. Mas começou a passar cada vez menos tempo na casa.
Também tinha tido outra decisão naquela manhã: iria conversar com Leonora e contar a ela sobre o fim do noivado.
Era uma mulher independente, habituada a tomar suas próprias decisões. Mas o fim do noivado era algo que dizia respeito a toda a família, tinha a ver com o modo como seus pais viam e tratavam João, por isso sentia que devia-lhes uma explicação.
Assim que ficou a sós com Leonora, tratou de colocá-la a par do rompimento. Ficou, no entanto, surpresa com a reação da mãe.
- Como, já desconfiava? – quis saber.
- Helena, você me subestima... – disse Leonora. – Deu pra notar que as coisas não estavam bem entre vocês.
- (...)
- Posso perguntar porque? – perguntou sua mãe.
Helena respirou fundo. Não queria conversar sobre isso com Leonora.
- Eu estava em dúvida, mãe.
- E...?
- E só – Helena tratou de encerrar o assunto.
- E ele como está? – Leonora perguntou.
- Não sei, mãe. – Helena fechou os olhos. Suspirou e encarou a mãe. – Eu gosto dele. Mas não quero me casar com ele. Só isso.
Leonora estava curiosa para saber mais, mas decidiu não insistir. Sabia que Helena não iria se abrir.
Beijou a cabeça da filha e disse:
- Eu te apóio no que decidir, Helena. Você sabe disso. [Estou, na verdade, aliviada.] Quero apenas que vá atrás do que te faz feliz, filha.
Helena ficou séria. [Quem vai me fazer feliz, não pode ficar comigo.]
- Vai me contar o que tem dentro dessa cabecinha? – perguntou-lhe Leonora.
Helena sabia que podia contar com o apoio da mãe, mas não queria se abrir. Abraçou-a e disse com um sorriso:
- Não, mãe. Mas obrigada.
- Só gostaria que se abrisse mais comigo... – pediu Leonora com um sorriso.
Helena riu e disse sarcástica:
- Aí também não, né, Dona Leonora?
Deu um beijo estalado no rosto da mãe e saiu.

*****

- Mel, sou eu – disse Ana ao telefone.
- Oi Ana! Ia te ligar. Como está? – perguntou Melissa.
- Tô bem melhor. E tenho boas notícias.
- Me diz...
- Estou conseguindo tocar. Acho que dá pra marcar os ensaios pro show.
Melissa vibrou do outro lado.
- Que notícia boa! Vou atrás disso já. E o bar? Vai voltar?
- Eu preciso voltar. [Vai ser um jeito de manter minha mente longe de Helena.] Mas acho que preciso de uns dias. Será que posso voltar semana que vem?
- É claro que pode. O Rubão está só esperando você ficar boa.
- Beleza então. Semana que vem eu volto.

*****

Helena olhava para o investigador sentado à sua frente no restaurante. Tinha acabado de lhe contar sobre os documentos. Ele tinha feito algumas perguntas e agora ponderava sobre o que Helena tinha dito. Fixou o olhar num ponto à sua frente e ficou em silêncio. Então disse no seu jeito calmo e comedido:
- Hmmm... a senhorita deveria ter me contado sobre isso antes...
- Eu sei... mas não tinha certeza sobre o que fazer exatamente. – Helena analisava o policial. Realmente tinha se enganado a respeito do homem. Ele era um excelente ouvinte e inspirava confiança. Parecia ser mesmo muito competente em sua profissão.
- A senhorita... – ele começou.
Helena interrompeu-o:
- Me chame de Helena.
- Hmmm... sim... Helena... Eu gostaria de ver esses documentos.
- Olha... eu não posso fazer uma denúncia ainda. Não posso arriscar a vida de Ana. Aliás nem deveria estar conversando com o senhor.
- Pode me chamar de Oliveira, Helena. – ele disse.
Ela continuou:
- Então... como eu disse... acho que as pessoas que estão por trás do ataque ficaram de olho na rotina de Ana e na minha também. E eu tenho receio de que ainda estejamos sendo seguidas.
- Notou alguma coisa?
- Não... mas tenho medo. Não sei exatamente o que fazer pra proteger Ana.
Oliveira ficou novamente em silêncio. Então disse:
- Hmmm... vamos ter que pensar em alguma coisa.

*****

O telefone de Ana tocou.
- Ana?
- Oi. – ela respondeu.
- Aqui é João. Tá fazendo o que hoje à noite?
- Hmmm... nada especial. Por que?
- Tem um trio de jazz que eu gosto muito tocando em São Paulo hoje. Consegui ingressos, quer ir?
Ana nem titubeou.
- Claro!
- Passo aí às sete, então.
- Ok, te espero.