22 dezembro 2006

Capítulo XLIII

- Não é física a dor que está sentindo, é? – Duda perguntou depois de acomodar Ana na cama.
Ana não olhou para Duda. Continuou cabisbaixa. Apenas balançou a cabeça negativamente.
- Quer me contar o que está acontecendo? – perguntou a psicóloga.
Ana balançou a cabeça outra vez. Não queria falar.
- É Helena, não é?
Ana começou a chorar.
Duda, então, moveu-se pra perto da morena e com cuidado, ajeitou a cabeça dela no seu colo. Ana soluçava baixinho.
As lágrimas continuaram rolando por alguns minutos. Duda não disse nada. Não tinha certeza do que estava acontecendo e não queria se adiantar. Apenas ficou ouvindo Ana chorar em seu colo. Alisava-lhe os cabelos e lhe dizia que tudo iria ficar bem.

A dor que Ana sentia era uma dor profunda, como nunca sentira antes. Nem a dor física que sentira como resultado da agressão há duas semanas parecia ter doído tanto. Até esse momento não tinha realmente dado um nome ao que Helena estava fazendo. Mas agora podia admitir: depois de toda a intimidade que tinham compartilhado e das palavras de amor que tinham trocado, Helena a rejeitara.
E naquele momento, não tinha certeza se podia sobreviver a isso.

Depois de algum tempo, Ana parou de chorar. Emocionalmente exausta, acabou dormindo no colo de Duda. A psicóloga então, precisando ir, cuidadosamente ajeitou-lhe a cabeça na cama e a deixou. Saiu do quarto.
Lá embaixo, na cozinha, encontrou Helena e João conversando. Avisou Helena que Ana adormecera, despediu-se rapidamente e foi para sua clínica.

*****

Ana acordou com Leonora no quarto.
- Me desculpe, Ana – disse ela. – Não pretendia te acordar.
Ana sorriu.
- Tudo bem. Não posso dormir o dia todo. Que horas são?
- Perto das onze.
- Puxa! Dormi tudo isso?!
Leonora sorriu.
- Acabei de chegar da universidade. Helena aproveitou minha chegada e saiu.
Leonora sentou-se na cama e colocou a mão no rosto de Ana.
- Você está bem, Ana Maria? – perguntou.
- Estou. – Estava tentando se convencer. – Não sinto quase dor nenhuma. [Física.]
- Estou me referindo ao seu estado de espírito – explicou Leonora com um sorriso.
[Será que estou parecendo tão mal assim?]
- Estou bem, Leonora. – ficou séria. – Por que não estaria?
- Não sei. Me diga você.
[Leonora deu pra ler meu pensamento agora?]
Ana tentou tranqüilizá-la. Sorriu e disse:
- Leonora, obrigada. Eu tô bem, não se preocupe. [Não vou dar bandeira.]
Uma idéia cruzou-lhe a mente. Resolveu perguntar.
- Por acaso Helena te falou que eu não estou bem?
- Hmmm, ah... Ela me pediu para cuidar de você – Leonora respondeu.
[Qual é a de Helena? Por que me trata assim e depois pede pra alguém ficar de olho em mim?]
- Entendi. – Ana respondeu. Tentou disfarçar a tristeza.
Não estava pronta para explicar a ninguém o que estava acontecendo. [Acho que nunca vou estar.]

*****

Helena almoçava com João, quando seu telefone tocou. Desculpou-se e atendeu.
- Alô?
- Hmmm... estou falando com Helena Chagas?
- Sim, sou eu.
- Aqui é o investigador Oliveira. A senhorita me ligou? Estou retornando a ligação.
- Sim, sim. Eu preciso mesmo conversar com o senhor. Será que poderia arrumar um tempinho pra mim?
- Hmmm, claro, claro. Será que poderia esperar até depois de amanhã? Tenho dois dias bem cheios pela frente. Mas se for urgente...
- Não... tudo bem. Posso esperar.
- Poderia passar na delegacia?
- Hmmm... que tal um almoço?
- Hmmm... Tudo bem... alguma preferência?
- Agora não posso falar muito. Vou pensar em algum lugar e lhe ligo mais tarde, tudo bem?
- Hmmm... sem problema. Aguardo, então. Até mais.
- Até. E obrigada.

Desligou o telefone. Diante do olhar curioso de João apenas disse:
- Trabalho.
Continuaram a conversa.