Helena abriu os olhos e olhou para o despertador. Duas horas da manhã. Podia ver pela luz que vinha por debaixo da porta que Ana ainda trabalhava. Levantou-se e foi até lá. Ana tinha os olhos num texto sobre a mesa e digitava algo no computador. Helena chegou de mansinho, colocou seu braço em volta da amiga e beijou-lhe o topo da cabeça.
- Acordei você? – perguntou Ana.
- Não. Vem dormir, Ana. Continue amanhã – sussurrou.
Ana parou o que estava fazendo. Esfregou os olhos e olhou pra amiga em pé ao seu lado. O cabelo de Helena estava todo desalinhado, a cara toda amassada. Usava uma camiseta enorme e desbotada e shorts ainda mais velhos. Ana ficou olhando aquela figura sonolenta e não conteve um sorriso.
- Que tá rindo? - Helena pergunta franzindo a testa.
- Tua cara de sono.
Helena fez uma careta.
Nesse momento, como numa revelação repentina, percebeu o quanto Helena era bonita. Não que não tivesse notado antes. Mas de repente achou incrível que alguém pudesse parecer tão bem imediatamente ao acordar.
Os olhos de Helena, de um verde tão escuro e intenso estavam tendo dificuldade em focar no que estava à sua frente. Mas Helena não estava muito preocupada em olhar para Ana.
- Vem dormir – disse bocejando.
Pegou na mão esquerda de Ana e ficou esperando que a amiga a seguisse. Apenas queria que Ana fosse se deitar e descansasse um pouco. E foi isso o que Ana fez. Salvou o texto, desligou o monitor, apagou a luz e seguiu Helena. Helena entrou no quarto imediato à sala.
- Boa noite, Ana.
- Boa noite, Helena.
Ana entrou em seu quarto, que ficava de frente para o de Helena. Deitou-se sem nem mesmo trocar de roupa e adormeceu rapidamente, vencida pelo cansaço.
*****
Ana levantou os olhos do livro que tinha em mãos e olhou para a loira sentada no sofá uns cinco metros à sua frente. Helena tinha se mudado para o seu apartamento há uma semana e as duas tinham entrado numa rotina que parecia estar funcionando bem para ambas. Helena tinha feito o que se propusera a fazer: cozinhava para Ana e cuidava que se alimentasse bem. As duas dividiam a tarefa de cuidar do apartamento. Era tão mais fácil em dupla. Helena sabia ser mandona e determinava pausa para refeições e tempo pra dormir. À morena só restava obedecer. Na cozinha, Helena era aquele tipo de pessoa que consegue inventar uma refeição com qualquer coisa que acha na geladeira. Uns ovos, um ramo de brócolis, cebolas, uns condimentos que Ana nem sabia que tinha no armário, e pronto. Servia uma omelete deliciosa. Não inventava coisas mirabolantes e nada que fosse sofisticado. E geralmente não conseguia repetir exatamente o mesmo prato que preparara nos dias anteriores. Era sempre uma variação de algum tipo de omelete, de frango com molho, de macarrão, de carne, etc. com algum tempero diferente. E sempre preparava alguma coisa saudável. É claro, a geladeira era outra nas mãos de Helena. Entupira-a de legumes e frutas. Quanta diferença das caixas de pizzas e refeições congeladas que Ana costumava manter em seu freezer. Sua dieta agora era outra, graças à loira.
Helena estava sendo uma ajuda valiosa. E Ana não se cansava de agradecer à amiga pelo que estava fazendo. Em apenas uma semana, sua vida tinha realmente melhorado e já comia e dormia melhor. Por conta disso, tinha dado uma boa adiantada nos capítulos centrais da tese. Nos dias de semana, Helena acordava bem cedo e corria no parque perto de casa. Ana nunca conseguira exercitar pela manhã, não entendia como alguém podia fazer isso. Depois da corrida, Helena tomava um banho e preparava o café. Não esperava por Ana. Quando esta acordava – geralmente bem mais tarde porque gostava de trabalhar até de madrugada – encontrava Helena mergulhada em seu trabalho.
Adoravam conversar. Helena era, claro, a mais tagarela das duas. Mas sabiam trabalhar juntas em silêncio. Helena controlava-se e mantinha-se calada quando Ana estava no computador. Geralmente passava uma boa parte do tempo com seu laptop, escrevendo, como estava fazendo agora.
Helena estava olhando para a tela do laptop no seu colo. Tinha uma caneta na mão esquerda e brincava com ela, trazendo-a à boca de vez em quando. Estava tão absorta no texto à sua frente que nem notou Ana, de frente pra ela, observando-a. Ana não se moveu na cadeira. Não queria interrompê-la. Manteve o livro aberto na sua frente e nem a cabeça moveu.
Sabe-se lá sobre o que estaria Helena escrevendo naquela semana. Escrevia sobre muita coisa, mas ultimamente tinha se dedicado a escrever mais sobre esportes e nutrição. Era jornalista free-lance e vendia seus artigos para várias publicações (algumas on-line). Também prestava serviços regularmente para uma companhia editora, fazendo traduções e revisões de traduções.
A loira fazia caretas e balançava a cabeça, avaliando o que tinha acabado de digitar. Não parecia muito feliz com o resultado. Ana segurou um sorriso. Helena franziu a testa, largou a caneta no sofá e deletou uma parte do texto. Digitou mais um trecho e pegou a caneta de novo. Batia com a ponta da caneta no queixo enquanto lia o texto na tela do computador. Parece ter gostado. Deu um sorriso, ficou séria de repente e escreveu mais um pouco. O pé não parava quieto, movia-o o tempo todo.
Helena era inquieta por natureza. Estava sempre tendo alguma idéia nova. Coisa raríssima era encontrá-la totalmente relaxada. Aquela figura alta, loira, que dificilmente passava despercebida onde quer que fosse, tinha na verdade um espírito moleque e brincalhão. Tinha também um grande senso de humor e adorava fazer pouco da própria beleza. No dia a dia, vestia-se com muita simplicidade. Não trocava sua calça jeans e camiseta por nada. Nos finais de semana, a coisa mudava de figura. Abusa de mini-saias e vestidos.
Uma das suas manias era contar piadas que faziam pouco da inteligência das loiras. Conhecia todas. E era mesmo muito engraçado ver aquela mulher loira que mais parecia uma modelo, numa seqüência interminável de piadas de loiras. Era risada na certa. Quando começava a posar para fotos imaginárias, fazendo caras e bocas, arrancava lágrimas de Ana, que ria até não mais poder.
- Aí você olha pra câmera e faz assim uma cara bem de burra. Assim. – e ela imitava a expressão de uma modelo. – Isso é o que eles acham sexy! – ria.
Mas acima de tudo, Helena era uma amiga preciosa. Era capaz de fazer qualquer coisa pela amiga Ana. Como essa última, de se mudar para a casa da amiga para ajudá-la a se concentrar na sua tese de mestrado. E Ana era muito grata por isso. Tentava retribuir amizade tão preciosa, mas sabia que Helena tinha uma coração bem maior que o seu. Simplesmente, era mais generosa. Generosidade que se estendia a tudo: dinheiro, tempo, família, bens materiais.
- Ana é minha irmã – costumava repetir. – Minha família.
Apenas um aspecto da personalidade da amiga incomodava Ana. Mas isso não a afetava diretamente. Helena sabia ser provocante, gostava da atenção masculina e se alimentava disso o tempo todo. Antes de conhecer João, quando saía nos fins de semana, em bares, restaurantes, clubes, ou qualquer outro evento social, era rápida em perceber os olhares que os homens lhe dirigiam. Vestia-se para isso. Produzia-se e saía “à caça”, como costumava dizer. Percebia os olhares masculinos sobre seu corpo, flertava com todos e invariavelmente acabava a noite beijando uma nova boca.
Não se prendia a ninguém. Era honesta. Deixava bem claro que não queria compromissos e recusava-se a ficar com uma mesma pessoa por mais de uma semana. Também jamais se envolvera com parceiros de amigas. Mas, infelizmente, isso não tinha evitado alguns mal-entendidos e já tinha conquistado algumas inimigas ferozes. Entre os conhecidos das duas, havia um grupo que formava um clube informalmente apelidado de “Eu odeio Helena”. Era composto de mulheres que a odiavam – por uma razão ou outra – e homens que tinham se apaixonado por ela e sido rejeitados. Apaixonar-se por Helena era uma grande roubada.
As coisas mudaram totalmente quando João apareceu. Com seu jeito quieto e calmo acabou conquistando a conquistadora e ela se acalmou. Começaram a namorar. Ele, apaixonado, acabou pedindo-a em casamento depois de alguns meses. Ninguém – nem mesmo Ana, que conhecia a amiga como ninguém – acreditou quando ela aceitou. Helena apenas disse que se cansara da vida de “galinha” e queria constituir família.
No entanto, velhos hábitos não se quebram facilmente e ela ainda flertava abertamente quando saíam juntos. Nunca fora infiel a João, mas adorava paquerar e alimentar o desejo de outros homens.
Nesse momento, Helena levantou os olhos e viu que Ana a observava.
- Que foi? – perguntou sorrindo.
Ana sorriu. Não disse nada e voltou ao texto que tinha em mãos. Tinha se acostumado a ter Helena no apartamento. Tinha que admitir, a idéia dela de se mudar para lá tinha sido mesmo muito boa. Era muito bom tê-la por perto.