Ana começou a passar mais e mais tempo com o violão. Queria voltar a praticar para encarar a rotina do bar e também preparar-se para o show. Na verdade, o repertório do bar era familiar e não requeria prática, mas já estava sentindo nos dedos a diferença causada pela pausa de quase duas semanas no contato com o instrumento.
Mas admitia que sua principal motivação para ocupar-se com o violão era a necessidade de ocupar a mente com alguma coisa que não fosse Helena. Pensar na loira mudava seu humor. Entrava numa tristeza enorme e imediatamente perdia a vontade de fazer qualquer coisa. Sentia tanta falta dela! De fato, em alguns momentos do dia, quando se lembrava do quão perfeito tudo tinha sido naquelas poucas semanas que tinham estado juntas, sentia uma dor aguda no peito que lhe tirava a vontade de viver.
Mas resignava-se. Percebia que seu sofrimento pela loira estava atingindo níveis suportáveis. [O tempo cura tudo mesmo. E eu vou esquecê-la.]
Tinham definido o primeiro ensaio para o show para segunda-feira. Como João iria fazer alguns dos violões, Ana ligou para ele e avisou-o. Acertaram que ele passaria na casa dos Chagas e poderiam ir juntos. Mas antes, dispôs-se a passar com ele a tarde de domingo, passando algumas músicas do repertório e discutindo detalhes dos arranjos. João estava feliz. Amava tocar e estava empolgadíssimo com a perspectiva de tocar no show.
Encontraram-se no apartamento dele. Ocuparam-se totalmente com as músicas e a hora passou rápido.
Ana pacientemente esclareceu as dúvidas dele, sugeriu arranjos e ouviu suas opiniões. João estava admirado com o jeito dela de explicar as coisas. Embora soubesse muito mais que ele, em nenhum momento foi condescendente. Pelo contrário, João sentia que suas sugestões eram aceitas e estava contribuindo. Ana também tinha um jeito todo especial de explicar o que fazia no violão e isso por causa dos vários anos ensinando no conservatório.
- E aí? – ele perguntou ao final – Vai aceitar o carro da empresa ou não? Já preparei pra você.
- Hmmm... tô em dúvida ainda... mas confesso que seria mesmo muito útil. – Ana respondeu.
- Ana, por favor aceite... me deixe ajudar...
- Você é um bom amigo, João. [Embora, eu não saiba como vai reagir se descobrir porque Helena terminou com você.]
- Você não é nenhuma barbeira, é?
Ana riu.
- Não... eu sou boa motorista. Eu era a motorista da família. Carregava meus pais pra todo lado.
Ficou séria de repente. Sentiu-se triste ao lembrar dos pais.
- Então tá combinado. – Ele disse levantando-se – Vem comigo. A gente passa na empresa e você já pega o carro.
*****
Helena estava sentada no sofá da casa dos pais. A televisão à sua frente estava ligada, mas a loira não estava prestando atenção. Leonora veio e sentou-se ao seu lado.
[Hmmm... vai querer conversar sobre a minha vida.]
- Helena... – Leonora começou.
- Hmmm... – a loira respondeu sem tirar os olhos da tela.
- O que está acontecendo entre você e Ana?
[Droga.]
- Hmmm... o que quer dizer?
- Vocês brigaram?
A loira pensou em negar, mas sabia que a mãe não acreditaria.
- A gente se desentendeu.
- Porque? – Leonora quis saber.
- Hmmm... duas teimosas. [Não posso assumir a culpa, mas também não posso culpá-la.]
- Nunca vi vocês brigarem...
- Não se preocupa, Dona Leonora. – disse Helena. – A gente se acerta. [É o que eu espero.]
- Helena... – Leonora balançou a cabeça. [Quando é que vai parar de me subestimar?]
- O que foi?
- Tudo bem... eu sei que não vai me dizer...
Helena sorriu.
- O que eu quero mesmo falar com você – Leonora explicou – é sobre o aniversário de Hugo.
- Ah... é sexta-feira.
- É... e pensei em fazermos alguma coisa aqui em casa.
- Surpresa?
- Não, não... Daria muito trabalho. Além disso, não conheço todos os amigos dele.
- E o que quer que eu faça?
- Então, filha... é sobre isso que quero falar... Vou precisar da sua ajuda com alguns detalhes...
*****
- Você tem falado com Helena? – João perguntou.
Ana respirou fundo.
- Não, João. – respondeu. – A gente se estranhou.
- Vocês brigaram?! – João estava surpreso.
- É... mas preferiria não falar sobre isso – Ana pediu.
- Tudo bem...
Ana percebeu que João precisava desabafar. Decidiu ouvi-lo.
- Como está o coração? – perguntou.
Ele fechou os olhos.
- Doendo. Tento não pensar muito nela, mas é quase impossível. Helena é meio viciante, não é? – ele sorriu.
[Totalmente, João.]
- Mas as pessoas se enganam com ela. – disse ele.
- Como? – Ana perguntou.
- Hmmm... acho que você não vai entender isso muito bem porque ela era sua amiga. Quero dizer, você não se apaixonou por ela.
[Ah João, se você soubesse!]
Ele continuou:
- Quando você a vê pela primeira vez, encanta-se com a beleza dela. É a primeira coisa que vê e é meio magnetizante. Difícil de resistir.
A esta altura, Ana estava se perguntando se tinha sido uma boa idéia deixar que ele lhe falasse sobre a loira.
- Mas então... – ele explicou. – você se acostuma. Depois de um tempo é como se você não visse mais quão linda ela é.
Ele sorriu:
- Tem que ser assim. Não dá pra viver naquele fascínio o tempo todo.
Então suspirou e continuou:
- Então, você conhece o lado mais fascinante e delicioso dela.
Sorriu para Ana.
- A mulher que te ama de volta, que se entrega e te faz sentir a pessoa mais especial do mundo.
Fez uma pausa e concluiu:
- E você passa a viver em função dos momentos em que ela te olha e te diz que te ama. E eu me dei conta de que não vou ter mais esses momentos. Você não faz idéia do buraco que ela deixou dentro de mim.
[É... essa conversa foi mesmo uma idéia idiota, Ana.]