No dia seguinte, Helena acordou bem cedo e com uma dor de cabeça horrível. Isso sempre acontecia quando chorava muito. E como tinha chorado! Seus olhos mostravam isso. Olhou-se no espelho e achou-se horrível. Não tinha condição nenhuma de correr hoje. Tomou uma aspirina e um banho quente, demorado, procurando relaxar. Preparou um café reforçado, mesmo não estando com fome. Estava tentando tratar bem seu corpo, já que por dentro sentia-se péssima. Sentiu-se um pouco melhor depois disso.
Também tinha chegado a algumas conclusões. Decidira afastar-se de Ana pelo menos por enquanto. Não conseguia pensar objetivamente quando estava perto da amiga. E mais do que qualquer coisa, nesse momento, precisava pensar com clareza.
Tinha um encontro na redação de uma revista às nove da manhã. Tinha lhes enviado uma série de artigos sobre globalização há algum tempo e eles estavam interessados em publicar. A reunião era para discutir os detalhes. Queria cancelar, mas não havia jeito. O encontro tinha sido agendado já há um bom tempo. Arrumou-se para o compromisso e saiu.
Felizmente, foi um encontro rápido. Apenas formalidade. Na verdade, já tinham discutido tudo por e-mail. [Graças a Deus, porque não tenho cabeça nada hoje.] Voltou pra casa logo.
Mas a resolução de ficar longe de Ana não durou muito. Resolveu ligar. Estava desesperada para falar com a amiga. Também acabou concluindo que se desaparecesse de vez e deixasse de falar com ela, estaria mostrando que não estava bem. Mas a principal razão para ligar mesmo era que sentia uma falta danada de Ana. Precisava ouvir-lhe a voz ou acabaria enlouquecendo. Ligaria, diria “oi” e voltaria ao trabalho. Esperou dar meio-dia, que é quando Ana acordaria, e discou.
Quando o telefone tocou, Ana já sabia que era Helena. Estava ansiosa. Não sabia como seriam as coisas depois daquele beijo. Estava com medo de a loira rejeitá-la. Não conseguia imaginar sua vida sem ela por perto e tinha um medo enorme de perder-lhe a amizade. O que a fazia sentir-se esperançosa de que Helena não a rejeitaria era o fato de Helena ter respondido ao beijo.
- Alô.
- Oi. Sou eu.
[Meu Deus, como é bom ouvir sua voz, Helena!]
- Oi Helena.
- Não pude ir ontem. Como foi?
- Normal. Nada especial. [Foi um porre. Não via a hora de vir pra casa.].
- O que está fazendo?
- Estou na net. E-mails, lendo jornais... Acordei há pouco. Você?
- Trabalhando numa tradução.
- Ah...
- Preciso de uma folga, Ana. Quer fazer alguma coisa? [Helena, sua fraca, sua idéia de ficar longe dela não durou nem trinta segundos.]
- Claro. [Graças a Deus, ainda quer me ver.]
- Já comeu?
- Já. Acabei de comer. Você?
- Eu também.
Silêncio.
- Estou indo pra aí, Ana.
- Ok. [Mal consigo esperar.] Se eu estiver no banho, entre. Você tem a chave.
- Tudo bem.
Ana terminou seus e-mails e foi tomar banho.
Quando saiu do banheiro indo para o quarto, viu que Helena estava na sala. Ficou nervosa: o coração acelerou e aquela sensação na altura do estômago voltou.
Pôs uma calça branca de linho e uma regata (a roupa solta e confortável talvez a fizesse sentir-se menos tensa) e foi para a sala.
Helena estava deitada no sofá. Tinha os olhos fechados e descansava um dos braços sobre a testa. Não viu Ana se aproximar. Pela expressão do rosto parecia perturbada. Mas Ana não pôde conter o sorriso ao vê-la. Não podia evitar. Ver Helena iluminava seu dia, mudava seu humor. Quando a encontrava, era tomada de uma alegria tão grande que o sorriso aparecia no seu rosto instantaneamente.
E como era linda essa mulher! Ana perguntara-se várias vezes nos últimos meses se a beleza de Helena sempre estivera lá antes de se apaixonar por ela. Concluiu que sim. Helena era uma das mulheres mais belas que já conhecera, sempre achara isso. Vários amigos – tanto homens quanto mulheres – já tinham lhe expressado a mesma opinião.
Mas havia tanto mais que o rosto lindo! Helena era ela toda cativante. Era uma combinação fascinante de doçura com força e determinação. [Meu Deus, estou tão apaixonada por ela, que acho que vou enlouquecer!] Não havia como ignorá-la. Podia-se invejá-la, admirá-la, odiá-la. Mas jamais passaria despercebida.
Helena abriu os olhos. Ana sentiu uma dor aguda no peito apenas em fitar o rosto da jornalista. Não conseguia acostumar-se ao burburinho de emoções que vinha de apenas olhar nos olhos dela. E nada disso tinha a ver com roupas ou poses. O jeans surrado que usava naquele momento, por exemplo, lhe dava um ar desleixado, que Ana achava extremamente atraente. [Ana, qualquer coisa que ela estiver usando vai te deixar sem ar.]
- Oi loira.
Quando viu Ana na sua frente, Helena levantou-se e a abraçou. Não disse nada. Queria apenas tocar a amiga.
Precisava tanto desse abraço! Não queria largar mais a morena. Sentiu um turbilhão de emoções lhe invadindo. Parecia que toda a tensão dos últimos meses tinha culminado naquele gesto. Começou a chorar abraçada à Ana.
Ana também não estava numa situação confortável. Sentiu alívio ao saber que a amiga voltava a tocá-la depois do que tinha acontecido. Tinha sua amiga de volta. Mas também sentia seu corpo queimar de desejo com o abraço demorado de Helena. Foi quando a ouviu soluçar. Queria olhá-la nos olhos e saber por que exatamente estava chorando, mas ela não largava o abraço.
Então sentiu Helena afrouxando o abraço. Mas não se afastou de todo. Ainda muito próximas, olharam-se nos olhos. [Eu te amo tanto, Helena!] Era a primeira vez que usava aquelas palavras para definir o que sentia pela loira. Os rostos estavam a centímetros um do outro. Ana fitou os olhos verdes, agora vermelhos e cheios de lágrimas e viu a mesma intensidade e o mesmo desejo.
Helena também não conseguia desviar o olhar da amiga. Mas seus olhos finalmente baixaram e pousaram nos lábios de Ana.
Não conseguiu ver mais nada.