22 dezembro 2006

Capítulo IV

Tarde seguinte. As duas novamente trabalhando na sala, cada uma em seu texto. Ana parou de escrever e espreguiçou-se.
- Vou fazer café pra gente - disse.
- Deixa que eu preparo – respondeu Helena, pondo-se de pé.
- Nada disso. Esse é meu. Você fica aí e termina o que está fazendo.
Helena ficou onde estava.

Ana se movia pela cozinha. Pôs a água pra ferver.
40 segundos... 50 segundos... 55 segundos... um minuto... estava encostada à pia, olhava para o relógio. Helena apareceu na porta da cozinha. A morena olhou pra ela e riu:
- Eu tava contando quanto tempo levaria pra você vir até aqui. Te espiei enquanto escrevia. Tá doidinha pra conversar, não é?
Helena puxou uma cadeira.
- Ah, é tão difícil não puxar papo com você – admitiu.
- Sobre o que tá escrevendo, loira?
- Nada de novo. Estou revisando um artigo antigo. Mas está dando mais trabalho do que se eu tivesse resolvido reescrever tudo. É sobre globalização. Depois do que aconteceu há um mês, o mundo ficou de pernas pro ar. Parece que qualquer noção de como funciona esse mundo nosso caiu por terra.
- Eu sei o que quer dizer – Ana encarou a amiga:
- Está feliz com seu trabalho, Helena?
Helena suspirou e parou pra pensar.
- Estou, Ana. Adoro poder fazer meu próprio horário. Não sou do tipo escritório, você sabe. É um pouco instável, você, melhor que ninguém, sabe disso. Mas vale a pena. Além disso, com o casamento... quando vierem os filhos... acho que fica tudo tão mais fácil poder ficar em casa.
- Você me surpreendeu ao decidir casar.
- É... surpreendi a mim mesma.
- Está feliz com a decisão?
Helena respondeu logo
- Estou. Era a hora certa.
Helena parou pra pensar. Engraçado não ter dito “era a pessoa certa”. Acrescentou:
- João é maravilhoso.
Ana não percebeu a inquietação na resposta da amiga. Sorriu e disse sinceramente:
- Vocês são muito compatíveis. João vai te fazer muito feliz.
Helena resolveu mudar de assunto:
- Você vai continuar a dar aulas na faculdade?
- Não sei. Era só uma disciplina. Eu parei este semestre por causa da tese. Pra eu voltar vai depender de como as coisas ficarem em termos de dinheiro. As aulas ajudavam, mas não muito. Você sabe... escola particular... não paga muito. O lance no bar é bem fixo e estável.
- Não está precisando de grana, está?
- Não, loira. – Ana sorriu.
- Sabe que pode contar comigo.
- Eu sei. E sou muito grata por isso, Helena. Eu controlo bem as coisas. E não precisar pagar aluguel já ajuda muito. Meus pais cuidaram de mim até depois que se foram.
- Você deve sentir tanto a falta deles...
Ana sentiu-se triste de repente – Eles eram toda a minha família, Helena.
A loira levantou-se e pôs seus braços em volta de Ana.
- Você é minha família, Ana.
Ana sorriu para a amiga. Sabia que era verdade.
- E se eu descobrir que precisou de ajuda e não me procurou, Ana Maria, vou ficar brava.
- Ih... – Ana fingiu uma cara de preocupada. – Já te vi rodando a baiana. Não quero ver de novo, não.
- Pois é... então não esconde se precisar de ajuda.
- Você é uma amiga maravilhosa, Helena.
- Faço qualquer coisa por você.
Helena não queria ouvir elogios. Decidiu mudar de assunto.
- Você não toca muito em casa. Achei que passasse mais tempo com o violão.
- Eu geralmente toco muito, mas por causa da tese, não tenho praticado. Já estou sentindo falta. Mas é só por um tempo.
- Acha que vai terminar dentro do prazo?
Ana decidiu separar duas fatias de bolo de cenoura.
- Não sei, Helena. Tenho até fevereiro. Quero tentar o doutorado e preciso do canudo do mestrado pra isso. E quando eu terminar, tenho outro abacaxi pra descascar: os processos de aplicações nas universidades americanas. É um sonho antigo.
Silêncio.
Helena parecia pensativa. Ana cortava o bolo junto à pia.
- Você vai conseguir, Ana. Mas não sei se vou conseguir ficar longe de você quando conseguir a bolsa. – Helena aproximou-se da amiga por trás e a abraçou, colocando seus braços ao longo dos braços de Ana e entrelaçando seus dedos nos da amiga. Seu rosto tocava as costas de Ana. Ana parou o que estava fazendo. Puxou os braços da amiga em volta da cintura. Nada havia de novo no toque de Helena. Aquele gesto fora repetido tantas vezes antes. Helena sempre tocava as pessoas e era ainda mais carinhosa com a amiga. Mas o abraço surpreendeu Ana. Não esperava aquela reação do próprio corpo ao toque de Helena. Não entendeu muito bem o calor repentino que sentiu. Não se moveu.

De repente, ouviu Helena soluçando baixinho nas suas costas. Virou-se e levantou o rosto da amiga. Os olhos estavam cheios de lágrimas.
- Ei... Porque tá chorando? – perguntou baixinho.
- Não quero que vá. Eu sei que é importante pra você, mas não imagino minha vida sem você. Você é minha melhor amiga, Ana. Nunca me senti tão próxima de alguém.
Ana colocou a mão no rosto da amiga.
- Eu nem sei se vou conseguir a bolsa ainda. E não pretendo ficar longe de você muito tempo. Vou ser sempre sua melhor amiga, não se preocupe. Distância nenhuma vai mudar isso.
Abraçou Helena e ficaram assim por algum tempo. O corpo de Helena tão próximo do seu trazia uma sensação tão boa à morena. [Hmmm... Talvez boa demais.] Não queria mais largar a amiga. Havia tanto amor e carinho naquele abraço, naquela cozinha, naquela amizade. Respirou fundo e sentiu o perfume da jornalista. Era, na verdade, um cheiro leve de sabonete. Tão gostoso. Sentiu mais uma onda de calor.