22 dezembro 2006

Capítulo XVI

As duas amigas acostumaram-se novamente a se encontrar apenas uma ou duas vezes por semana. Continuavam se falando diariamente por telefone, mas o trabalho de Helena –envolvida com seus artigos – e a inscrição para o doutorado de Ana as mantinha afastadas.
Mas o período que tinham passado juntas por pouco mais de um mês tinha mudado o relacionamento. Tinha sido uma experiência única. O bem-estar que tinham sentido morando juntas tinha surpreendido ambas. Descobriram-se mais compatíveis do que tinham imaginado. Tanto uma quanto a outra surpreendia-se revisitando momentos específicos daqueles dias. Situações da rotina diária nas quais tinham se sentido tão próximas uma da outra, com um nível de intimidade jamais experimentado.

Dezembro chegou e com ele as expectativas para as festas de natal e fim de ano. Ana decidira aceitar o convite de Leonora e passaria os feriados com eles. Estava triste porque Helena estaria indo para a praia com João pouco antes do natal. Voltariam na segunda semana de janeiro.

*****

A campainha tocou no apartamento de Helena. Ela sabia quem era e começou a sorrir mesmo antes de abrir a porta.
- Oi.
- Oi.
[Ela fica irresistível nessa calça. Está indo pro bar.]
- Tô atrapalhando?
- Que frescura é essa, Ana Maria? Você nunca atrapalha.
O abraço que recebeu de Ana envolveu-a num cheiro leve de lavanda, misturado com o aroma de xampu dos cabelos negros e encaracolados, soltos sobre os ombros. Encostou o rosto na pele macia de Ana e respirou fundo.

Ana tinha uma nova mania. Parte de sua estratégia de tirar uma casquinha da loira toda vez que se viam. Ao abraçar Helena, cruzava os braços nas costas dela e puxava-a para si. Fazia isso de modo a grudar seu corpo completamente no da loira, desde a região pélvica até a altura dos ombros. Num gesto mais ousado ainda, sempre se aproximava da loira com a perna direita levemente à frente, o que forçava Helena a abrir ligeiramente as pernas e encaixar a perna de Ana entre as suas para receber o abraço. Como sempre, Helena dançava conforme a música. Respondia ao abraço da morena com o mesmo entusiasmo. No fundo, bem no fundo, sabia que nada havia de natural naquele jeito de se tocarem, mas recusava-se a pensar sobre o assunto.
Afastaram-se. Levou a morena para a sala.
- O que tá fazendo, loira?
- Ainda estou enroscada com alguns artigos que preciso terminar antes da viagem.
- Você deve estar bem empolgada. Vai ser bom respirar outros ares.
- É, acho que sim. [Queria que fosse comigo, Ana.] Vem cá, senta aqui e me conta como está o lance do doutorado – disse sentando-se no sofá.
Ana obedeceu. Helena tinha esse hábito [delicioso] de chamá-la para sentar-se ao seu lado. Quando Ana se acomodava no sofá, Helena movia o corpo completamente para o lado, colocava os pés no sofá (estava sempre descalça), e chegava bem próxima da morena, fitando-a de perto. O único jeito que Ana tinha de conversar olhando para ela, era movendo o próprio corpo na direção dela. O que ela fazia sempre. Em outras palavras, quase que se amontoavam uma sobre a outra no sofá e conversavam com o rosto bem próximo. Helena lembrou-se do comentário de Duda sobre a linguagem corporal das duas. [Duda linguaruda! Coisa de amigas íntimas. Nada demais.]
- Já escolhi as escolas. E tenho os dois exames marcados pra fevereiro. Estou estudando feito louca.
- E a defesa?
- Fevereiro também. Mas é tranqüila.
- Você vai mesmo virar doutora?
- Só Deus sabe. Tem tanto chão pela frente, Helena.
- Engraçado. Quem te vê tocando violão no bar não faz idéia de que você seja antropóloga.
- Eu não sou exatamente antropóloga. Só vou ter um mestrado na área.
- Isso te faz antropóloga.
- Bom... Sempre me achei mais pesquisadora do que violeira.
- É. Eu me lembro que demorou um tempão pra eu descobrir que você tocava violão. Ou melhor, que ganhava a vida com isso.
- Na época, era só um bico mesmo.
- Mas te garantia a grana pra pagar os livros da escola e as baladas.
- Pensando melhor, não era tão bico assim. Comecei fazendo bar bem cedo e complementava com as aulas no conservatório.
- Porque antropologia, Ana?
- Eu sempre amei música. Mas estava cansada de explicar para as pessoas que aquilo também era trabalho. Meus pais também queriam que eu tivesse outro trampo além da música. Como eu sempre gostei de ler... Depois da graduação, optei pelo mestrado nessa área. Sempre achei que teria mais opções com antropologia.
- Lembra da gente estudando juntas pro vestibular?
Ana riu.
- Lembro. Quero dizer, lembro eu estudando e a senhorita coçando.
- Ei! Eu sempre fui boa aluna.
- Eu não disse que não era boa aluna. Disse que não estudava. Você se dava bem em português e enrolava no resto. Deu certo. Entrou no curso que queria no primeiro vestibular. Eu levei pau no primeiro vestibular. Fiquei tão desanimada.
- Eu lembro. Nem comemorei muito por que não queria que se sentisse mal. Mas universidade gratuita é mais difícil de entrar mesmo. Como meus pais bancariam meu curso, pude ir de PUC. Admiro muito você, Ana. Batalhou e ainda batalha muito pra conseguir o que quer.
- Obrigada, Helena. [Pena que por mais que eu batalhe, parece que não vou ter o que mais quero.] Você também foi atrás do que queria.
- É, mas foi mais fácil pra mim. Meus pais sempre me apoiaram financeiramente.
- Os meus me ajudaram no que podiam, mas pagar uma faculdade pra mim seria impossível.
- Eles teriam o maior orgulho se te vissem agora.
Ana ficou em silêncio.
- Espero que sim.
Mudou de assunto. Pegou uma sacola que tinha trazido. Pequena, com o nome de uma grife escrito do lado de fora. De dentro tirou um pacote pequeno, embrulhado num papel especial.
- Eu trouxe um presente. De natal e aniversário. É a primeira vez em anos que a gente não vai passar seu aniversário juntas.
- Ana, sabe que não precisava se preocupar. Não gosto quando gasta dinheiro comigo.
Ana balançou a cabeça negativamente.
- Que foi?
- Deixa eu te explicar uma coisa, loira.
Helena ficou séria.
Ana estava tentando esconder um sorriso.
- Porque você esquece de vez em quando. Não é mal-educada. Mas esquece algumas coisas.
Helena sorriu. Cruzou os braços e ficou ouvindo. Ana continuou:
- Quando alguém fizer alguma coisa pra você porque te acha especial, você só tem que aceitar e agradecer.
Helena ria.
- Desculpa, dona.
- Dona?
- Não tá querendo que eu te chame de mãe, tá?
A essa altura nenhuma das duas conseguia ficar séria.
- Então, como eu tava dizendo, Helena... Você só precisa dizer “obrigada”.
- Ok.
- Vamos tentar de novo. Isto é pra você. Porque você é minha melhor amiga. [E porque eu sou simplesmente louca por você.]
E Ana lhe ofereceu o pacote.
- Obrigada, Ana Maria.
Abraçou a morena. [Meu Deus, nunca enjôo de abraçá-la.]
Estava curiosa. Abriu o pacote bem feito. Era algum tipo de jóia. Abriu a caixinha. Um anel.
Era pequeno, de ouro branco e tinha um design bem moderno. Uma linda peça.
Levou a mão à boca.
- Ana! Que coisa mais linda!
A morena sorriu. [Não tenho grana pra arrumar meu carro, mas você vale o sacrifício.]
- Que bom que gostou. Deixa eu ver como fica no seu dedo.
Ana tirou o anel do estojo.
- Em qual mão vai usar?
Helena pensou um pouco. Tinha o anel de noivado na direita.
- Na esquerda – respondeu.
Ana pegou o anel com a mão direita. Pegou a mão esquerda de Helena. Olhou nos olhos da loira e sorriu. [Com este anel, Helena, eu te faço minha.]
Deslizou o anel no dedo médio da loira. Trouxe a mão dela até seus lábios e a beijou. [Pelo menos, na minha cabeça e no meu coração é assim que vai ser pra sempre.]
Helena abraçou-a. Sentiu que havia tanto naquele gesto. Não entendeu porque, mas se sentiu emocionada.
[E esse arrepio quando ela te abraça, Helena? É coisa de amiga também?]