A loira recobrou-se do susto e resolveu encarar o primo. [Ele não deve ter visto nada ou já teria falado alguma coisa...]
- Do que é que você está falando, Júnior? – perguntou.
- Daquela amiguinha do Hugo que não tirava os olhos de você... – ele respondeu.
Helena tentou não demonstrar o alívio que sentiu ao confirmar que Júnior não falava de Ana.
- Você está exagerando, Júnior – disse. – A gente mal conversou. Além disso ela tem namorado.
- Eu não disse que rolou alguma coisa – ele explicou. Então fez uma cara maldosa. – Embora ninguém possa realmente dizer...
Helena não tinha certeza sobre o que era mais irritante: se o tom de voz dele, cheio de insinuações; se ele mesmo e o súbito interesse que demonstrava por Ana; ou se o assunto em si.
- E você tem algum problema com isso? – perguntou Helena sorrindo.
- De jeito nenhum, de jeito nenhum... – Júnior respondeu rindo – Muito pelo contrário...
- E você, Helena? – perguntou Flávio – assumiria um relacionamento com uma mulher?
Helena ficou séria. Duda também ficou curiosa.
- Eu acho que nos apaixonamos por pessoas – disse a loira. – E essas pessoas podem muito bem ser pessoas do mesmo sexo.
- Hmmm... você ainda não respondeu à pergunta do Flávio... – observou Júnior todo sorrisos.
Helena encarou o primo e disse:
- Se eu descobrisse que uma mulher é a pessoa que vai me fazer feliz... não pensaria duas vezes, Júnior.
- Hmmm... – ele disse recostando-se na cadeira. – Desconfio que o namorado da garota já dançou nessa...
- E então, Duda? – Helena perguntou, ignorando o comentário do primo e tentando mudar de assunto – Está tudo pronto para o jantar de noivado na semana que vem?
*****
Na segunda-feira pela manhã, Ana ligou para Oliveira.
- Lembra que você me pediu para avisá-lo se alguma coisa acontecesse? – Ana perguntou. – Então... na madrugada de sábado eu fui seguida por um carro.
- Ah... por favor conte-me exatamente o que aconteceu – ele pediu.
Então Ana narrou o que tinha acontecido, contando com orgulho da sua estratégia para despistar os bandidos.
- Hmmm... – ele disse ao fim da história – e tem certeza de que eles não voltaram a segui-la?
- Sim, sim... eles me perderam de vista.
- Poderia identificá-los? – quis saber Oliveira.
- Ta brincando? – disse Ana – Não deu pra ver nada.
- Que pena...
Ana estava um pouco frustrada com a resposta do investigador. Esperava que ele dissesse algo a respeito de sua manobra para despistar os homens. [E tudo o que ele quer é um retrato falado?]
- Só sei que era mais de um. E o carro era uma caminhonete.
- Igual à do dia em que a atacaram?
- Não. Era outro carro. Mas não deu pra ver a cor.
O homem ficou em silêncio do outro lado da linha. Ana não sabia o que dizer.
- Seu Oliveira? [Porque ele não fala nada?]
- Ah... hmmm... sim... estou aqui. Estou pensando.
Então ele disse:
- Olhe, Ana Maria, quero que tome muito cuidado ao sair. Estou preocupado com sua segurança.
[Demorou tanto pra me dizer isso? Eu também estou preocupada, ora bolas! Por isso mesmo liguei!]
- E agora o que é que eu faço? – quis saber Ana.
- Hmmm... não há muito o que eu possa fazer – o tom era como se ele estivesse se desculpando – Infelizmente não temos como alocar pessoal para protegê-la. Só posso lhe pedir que comunique seus horários à sua família e avise sempre onde está indo.
[Só isso? E se me atacarem de novo? E não está interessado em discutir quem seriam essas pessoas?]
- Ah, e carregue sempre seu celular – ele disse.
- Mas... – Ana começou a dizer.
- Tenho certeza de que nada vai acontecer. Mas precisamos tomar cuidado, não é mesmo?
[Meu Deus do céu! O que aconteceu com o sujeito preocupado e cuidadoso com quem eu conversei da última vez? É só isso o que ele vai dizer? Me desejar boa sorte?]
- Por favor, me avise se alguma coisa acontecer – ele pediu.
[Depois que me quebrarem no meio?]
- Ah... hmmm... [Deixa pra lá, acho que vou ter que me cuidar sozinha.] Tudo bem.
- Obrigado por ligar, Ana Maria. Bom dia.
- Hmmm... ah... bom dia...
Oliveira desligou o telefone e Ana ficou sem entender direito a atitude do investigador.
*****
Na segunda, Ana combinou de ir para o ensaio à noite com João. Não tinham se encontrado durante a semana e a morena estava um pouco ansiosa com a perspectiva de vê-lo.
O ensaio correu muito bem, o som do grupo estava ficando mais coeso e os músicos estavam totalmente envolvidos com o projeto do show; Melissa até participou um pouco mais do ensaio, muito mais ativamente do que costumava fazê-lo.
Ao final, João foi levar Ana para casa.
- Vou sentir sua falta, Ana – disse ele quando estacionaram na frente da residência dos Chagas.
- Eu também, João. Mas você sempre pode me visitar.
- É... eu poderia ir mesmo...
João estava mais quieto do que de costume e Ana não conseguia saber exatamente o que estava se passando com ele.
- Tem alguma coisa errada, João?
- Hmmm... não... – ele respondeu.
Ana não quis insistir, pois desconfiava que o silêncio do amigo tinha algo a ver com ela mesma. Não sabia exatamente como agir com ele. Sabia que ele a estava vendo com outros olhos, mas para ela, ele continuava a ser o amigo.
- Boa noite, João – disse ela abrindo a porta do carro.
- Espera... eu te ajudo – Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do lado dela.
Ana saiu do carro. João, então, disse:
- Olha queria agradecer de novo você ter me chamado pra tocar no show. Eu estou gostando muito mesmo.
- Não tem porque agradecer, João. Você está fazendo um excelente trabalho.
- Então boa noite, Ana – ele puxou-a para si num abraço, como sempre fazia.
- Boa noite – ela disse, correspondendo ao abraço.
Ana afrouxou o abraço, mas foi surpreendida por mãos firmes que a puxaram.
Então João puxou-lhe a cabeça delicadamente, chegou os lábios nos seus e a beijou.
Ana surpreendeu-se com o movimento dele.
Mas ficou ainda mais surpresa com a sensação agradável que o beijo lhe causou.