22 dezembro 2006

Capítulo VIII

Dia seguinte. Fim da tarde.
- Você viu minhas chaves? – Ana perguntou, entrando na sala. Estava pronta pra sair para o bar.
O perfume de Ana invadiu a sala. Helena pôs o livro de lado e fixou os olhos na morena. Quando se arrumava para se apresentar no bar, Ana tornava-se realmente atraente. Hoje, vestia jeans preto colado ao corpo, uma camisa também preta, que também lhe acentuava o torso e os cabelos negros soltos a altura do ombro. Maquiagem leve, brincos grandes. Na verdade, estava vestida de um jeito simples, mas tinha um ar e um jeito de se portar que transmitiam confiança em si mesma. E isso, na opinião de Helena, a tornava extremamente sexy.
- Não vi, não, Ana. – Ficou a encarar a figura alta à sua frente. Sorriu admirada e suspirou.
- Que foi? – perguntou Ana.
- Você tem um corpo maravilhoso.
O elogio pegou Ana de surpresa. Ficou sem jeito. Helena gostava de deixá-la assim e a encarava com um sorriso provocante, querendo ver-lhe a reação. Ana era, na verdade, bem tímida e reservada. Abria-se com Helena, e só. Detestava ser o centro das atenções. Irônico isso, já que ganhava a vida no palco. Mas com o violão era diferente. Sentia que podia se esconder atrás do pinho.
Helena decidiu infernizá-la, o que era, definitivamente, seu passatempo favorito.
- Tá muito gata hoje. Tem certeza de que está indo só trabalhar?
Ana resolveu não entrar no jogo de Helena. Voltou a procurar as suas chaves. Nem parou pra responder:
- Helena, você está cansada de me ver no bar. Sabe que é assim que me visto. O que há de mais na minha roupa? - olhou para a amiga - Bem mais comportada que suas mini-saias.
- Adoro essa sua calça preta. E essa camisa... Você fica bem de preto, Ana.
- Todo mundo fica bem de preto, Helena.
Helena balançou a cabeça e fez uma careta pra Ana. Estava escondendo um sorriso.
- Que é que eu fiz agora? – perguntou Ana.
- Deixa eu te ensinar boas maneiras, Ana Maria – Helena continuava sorrindo. – Porque você certamente esquece de vez em quando. Não que seja mal-educada. Apenas se esquece de vez em quando.
Ana encarou-a, divertindo-se com o tom maternal da amiga. Não conseguia conter o sorriso. Cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas.
- Quando alguém disser alguma coisa boa a seu respeito, Ana Maria, você só tem que sorrir e agradecer, ok?
- Ok, mãe, não faço mais – resolveu entrar no jogo de gozação da loira.
- Vamos tentar outra vez. – Helena suspirou – Você está linda, Ana. Vai arrasar, hoje à noite.
- Obrigada, Helena. – ela sorriu.
- Bem melhor.

Por um breve instante, Ana sentiu que tinha certo poder sobre Helena. Raramente sentia-se assim. Geralmente era Helena quem a deixava desconcertada com sua presença física, o que tinha acontecido com mais freqüência ainda nos últimos dias.
Mas naquele momento, Ana percebeu o efeito que estava tendo sobre a loira. Ela estivera seguindo seus passos pela sala desde que entrara. De alguma forma, sentira que Helena estava impressionada com sua presença. Ana adorou a sensação. Não se iludiu imaginando que a loira estava sentindo a mesma atração que lhe tirava o fôlego. Mas por um instante mergulhou na sensação única de saber que uma mulher tão linda como Helena lhe apreciava o corpo e a achava atraente. De repente, não se sentiu tão tímida.

Se deu conta de que não precisava sentir-se totalmente sem ação pela presença de Helena. Sentiu-se no controle da situação. Aproximou-se da amiga que estava deitada no sofá. Debruçou-se sobre ela e olhou-a nos olhos. [Você é uma mulher incrivelmente bonita, Helena.] Ambas sorriram. A morena inclinou-se e beijou-lhe a testa.

O gesto de Ana dobrando o corpo sobre a loira deitada no sofá, foi de uma impressionante sutileza e graça de movimentos. Isto imprimiu à cena toda, um ar extremamente sensual. Um observador que não as conhecesse, não teria dúvidas de que se tratava de um casal de amantes.

- Hmmm, que perfume bom! – disse Helena aspirando o ar e fechando os olhos.
- Gosta? Não tá muito forte?
- Não. Tá perfeito. Não vai ter pra ninguém no bar hoje.
- Espero que esteja enganada. – Ana agachou-se próxima ao sofá, de frente para Helena. – Quem tem que brilhar é Melissa. Ela é a cantora. Eu apenas a acompanho.
O braço direito, pousou-o sobre o estômago da loira e descansou a mão no sofá. A sensação de tocá-la desse jeito, por cima da camiseta, era indescritível. Podia sentir o abdômen de Helena movendo seu braço pra cima e pra baixo com a respiração. Helena não parecia nem um pouco incomodada.
- Ana, acredite, Melissa é excelente no que faz. Mas muita gente vai ao bar só por causa de você. Você também é boa tocando guitarra.
- Violão.
- Faz diferença?
A morena resolveu não responder. Apenas sorriu e começou a deslizar a mão pelas costelas de Helena para cima, fazendo a loira arrepiar-se toda. Helena – que estava fazendo um esforço enorme para não demonstrar que estava morrendo de cócegas – sabia que havia uma enorme diferença para Ana. Na verdade, a morena recusava-se a dizer que podia tocar guitarra. Talvez no fundo até soubesse, mas perfeccionista do jeito que era... A loira gostava de provocá-la fingindo não saber a diferença.
- O que foi que você disse, loira? – Ana estava sorrindo de um jeito ameaçador. Continuava a mover a mão. A loira estava se segurando, a ponto de explodir de cócegas. [Cócegas, Helena?]
- O... o... violão. – Ana retirou a mão. Helena soltou um suspiro aliviado. – Acho que você é bem competente no que faz. Mas já te falei que grande parte dos seus fãs não dá a mínima pra sua música. Acho mesmo que alguns deles são completamente surdos. Eles gostam é da sua bunda. Vai por mim.
Ana deu-lhe um tapa de leve na coxa sobre a calça jeans. A loira continuou:
- Do grupo todo, você é de longe a mais gostosa. Pena que seja a mais tímida também.
Ana pôs a língua pra fora e fez-lhe uma careta. Helena respondeu com outra careta. E continuou:
- Agora some daqui, se não te deixo ainda mais sem jeito do que você já está.
- Cadê o raio da chave? – Ana perguntou levantando-se.
- Procurou no bolso da calça que você tava usando?
Ana foi ao quarto e revistou o bolso da calça jeans sobre a cama. Encontrou as chaves.
- O que eu faria sem você, loira? – perguntou ao voltar à sala.
- Seria miserável.
- Menos... – disse sorrindo, já em direção à porta. – Beijo.
- De língua – disse Helena, pegando o livro de volta.
Ana saiu e trancou a porta. Engraçado. Sempre diziam isso uma a outra em tom de brincadeira. E Ana nunca se vira num ardente beijo de língua com a jornalista. Mas a imagem cruzou-lhe a mente de repente e uma onda de calor invadiu seu corpo – como tantas outras que estava tendo naquela semana. Balançou a cabeça. Precisava mesmo ir pra cama com alguém.

Deitada no sofá, a única coisa que Helena conseguia pensar era na sensação da mão de Ana percorrendo seu corpo. [O que foi aquilo?]

*****

Luís tinha uma das mãos dentro da camisa de Ana e fazia círculos com o polegar sobre o mamilo esquerdo dela. Ele a beijava com sofreguidão, abafando-lhe os gemidos com a língua na boca de Ana. O corpo dele a pressionava contra a parede. Ela podia senti-lo duro entre as suas coxas. Estava excitada também. Ele cheirava a um misto de uísque e loção pós-barba. Era uma mistura agradável. Era um homem bonito. Tinha cabelos negros, pele bem clara e um porte atlético. E a tocava de um jeito tão quente e delicado ao mesmo tempo. Ela sentia-se desejada quando ele a olhava. Tinham trocado olhares a noite toda. Nos intervalos da música, quando Ana podia deixar o pequeno palco, conversavam. Ele logo mostrou o que queria. Tocava as pernas de Ana e falava bem próximo ao ouvido dela. E Ana nada fez para convencê-lo de que não estava interessada. Pelo contrário. Queria ir pra cama com ele. Sentia-se atraída por Luís. Estava convencida de que a falta de sexo era a razão daqueles arrepios todos na última semana. Queria sentir o peso dele sobre seu corpo e não queria pensar em Helena. Sabia que uma boa noite de sexo seria suficiente para trazer um pouco de perspectiva à sua mente confusa.

A apresentação de seu trio tinha terminado e todos os equipamentos e instrumentos já estavam guardados. Estava pronta pra encerrar a noite, quando Luís se aproximou e perguntou se poderia levá-la pra casa. A conversa no canto do bar continuou no estacionamento e acabou virando uma sessão de beijos molhados e mãos passeando por coxas, seios e bundas.
- Vamos sair daqui – sugeriu ela, quase sem fôlego.
- Tudo bem. Meu carro...
Conseguiram se separar a muito custo. Correram para o carro dele. A noite estava agradável. Havia uma brisa leve soprando.
Em poucos minutos estavam na casa dele. Mal esperaram que ele abrisse a porta da frente e começaram a se despir.

*****

Ele se moveu sobre ela e a penetrou de uma só vez. Ela estava molhada e ele deslizou pra dentro dela com facilidade. Ele se movia num ritmo rápido, estava muito excitado. Ela não resistiu e gozou pela segunda vez. E foi nesse instante, quando a sensação maravilhosa das contrações do seu sexo começou a se estender pelo corpo todo que uma figura bem familiar, alta e loira, veio-lhe à mente.

*****

No dia seguinte, por volta do meio-dia, quando Ana entrou na cozinha do seu apartamento, Helena preparava alguma coisa para o almoço.
- Senta aí que vou ter alguma coisa pra você logo, logo.
- Bom dia pra você também, loira.
Helena parou o que estava fazendo, virou-se e encarou a amiga. O sorriso nos lábios da loira podia iluminar a cidade toda:
- Tá com fome?
- Morrendo.
- Se puder agüentar uns dez minutos... Se não, belisque alguma coisa.
- Dá pra esperar.
Silêncio.
- Se deu bem ontem, não é? - voltou a atenção ao fogão. - Alguém que eu conheça?
Ana não estava muito a fim de falar da noite com Luís.
- Não. - Realmente não queria conversar sobre isso com Helena.
- Foi bom?
- Foi. [Pelo menos até você aparecer.]
- Fico feliz.
Helena não perguntou mais nada. Sabia que se a amiga quisesse contar detalhes, contaria. Ana também não disse nada.
- Posso ajudar com alguma coisa?
- Hmmm... - virou-se pra amiga - prepare a mesa, por favor, Ana. E se puder temperar a salada... Está aqui sobre a pia.
Ana aproximou-se da pia. Helena parou o que estava fazendo. Enxugou as mãos num pano de prato e aproximou-se de Ana. Puxou-a para si e a abraçou:
- Bom dia, dorminhoca.
Ana aninhou-se no abraço da amiga. [Ela tem um cheiro tão bom!]
- Quero detalhes depois – a frase foi dita numa voz sussurrada, bem próxima do ouvido de Ana.
[Primeiro arrepio do dia. Ninguém merece isso.]