22 dezembro 2006

Capítulo XV

Finalmente chegou o dia de Helena deixar o apartamento de Ana. Sabiam que não significava que não se veriam mais. Apenas não compartilhariam o mesmo teto. [Então porque tanta tristeza?] Juntou suas coisas – que não eram muitas – e preparou sua mala.
Na saída, um abraço forte e as duas tentando disfarçar a decepção.

Com a saída de Helena, o lugar ficou vazio. Não tinha a risada da loira e as provocações constantes. Ana também perdera a chance de seguir a beldade em trajes mínimos andando pelo apartamento. [Hmmm... Vou sentir tanta falta disso.]

No fim do dia, o telefone de Ana tocou.
- Alô.
- Oi – sorriso enorme dos dois lados da linha.
- Que tá fazendo?
- Nada especial. Surfando, lendo... Você?
- Tava terminando um artigo.
Silêncio.
- Sinto tanto tua falta, Ana.
- Eu também. [Você não imagina como, Helena.]
- Arruma outra tese, vai...
Ana riu.
- Agora é sua vez. Então eu me mudo pra aí. Que tal?
- Cozinha pra mim?
- E faço massagem.
- Você não sabe fazer massagem, Ana Maria.
- Hmmm... É verdade... Que tal um solo de violão?
- Serve.
Silêncio.
- Vai tocar hoje? [Helena, você sabe os dias que ela toca no bar...]
- Hmmm... Hoje não. Amanhã.
- Quer dar um pulo aqui? A gente podia ver um filme.
- Hmmm... tudo bem.

No outro dia, quem ligou foi Ana.
O celular mostrou o número familiar. [Que bom que ela ligou!]
- Oi.
- Oi, Helena.
- Está indo pro bar?
- Estou de saída.
- Passa aqui. [Adoro vê-la pronta pro bar.]
- Hmmm... Ok.

E assim foi a semana inteira. Acharam um jeito de se ver todos os dias. Quando o fim de semana chegou, Helena lembrou-se do noivo. E Ana decidiu aceitar o convite de alguns amigos para beber.

*****

Quando voltou ao bar na semana seguinte, Luis estava lá. Ana tinha evitado o rapaz a semana toda pra ficar com Helena. Já não estava tão empolgada com ele. [Quando foi que esteve empolgada com Luis, Ana?]
Decidiu terminar tudo. E naquela noite.

Estavam no carro dele ainda no estacionamento do bar. Ele beijava o pescoço de Ana e lhe tocava os seios por baixo da blusa.
- Luis... – ela disse num suspiro.
- Hmmm.... – ele continuou o que estava fazendo.
- A gente precisa conversar...
- Tudo bem – a mão ficou onde estava, fazendo círculos sobre o mamilo.
[Assim não dá. Esse cara só pensa com a outra cabeça.]
Tirou a mão dele do seu seio e segurou-lhe o rosto. [Odeio ter esse tipo de conversa.]
- Acho melhor a gente parar de se ver.
Ele não estava surpreso. Não era bobo. Sabia que Ana o vinha evitando há algum tempo.
- Por que Ana? A gente se dá tão bem.
- Eu sei... Mas não estamos apaixonados.
- Só precisamos de algum tempo.
- Acho que não.
Silêncio.
- Olha, você é um cara legal...
- Ah, corta essa, Ana. Não preciso ouvir isso.
Estava irritado.
Ela decidiu encurtar as coisas.
- Podemos continuar amigos. Só não quero me envolver com você.
Ele não disse nada.
Ela se preparou para sair do carro.
- A gente se vê, Luis.
Ele a segurou pelo braço.
- Amigos, pelo menos?
- Claro.
Ele puxou-a para si num abraço.
- Vou sentir sua falta.
Ela beijou-lhe o rosto.
- Eu também, Luis.
E saiu do carro. [Até que não foi tão difícil assim.]

*****

Ana acordou tarde no dia seguinte. Comeu alguma coisa e deitou-se no sofá da sala, seu lugar favorito quando queria pôr em ordem suas idéias. E como estava tendo idéias ultimamente! E confusas como nunca. Incrível como toda a sua vida parecia fora de eixo por causa de Helena. Tudo o que fazia girava em torno da jornalista. Estava planejando seus dias e semana de modo a poder vê-la com mais freqüência.

De repente sentiu-se frustrada. [Não posso continuar vivendo desse jeito. É maravilhoso flertar com ela, mas não há futuro nisso. Mais importante ainda: qual é a de Helena em tudo isso?]

Não conseguia saber exatamente o que se passava na cabeça da loira. Em alguns momentos, Helena dava a impressão de que estava no mesmo lugar que Ana. Também apaixonada, respondendo aos toques e olhares. Mas ela nunca ia além disso. Na verdade, quando tomava a iniciativa, seu jeito de tocar a morena continuava o mesmo. Fazia-o com mais freqüência que antes, é verdade. Mas tudo coisa de amigas.
[Porque ela não diz “não” ao que eu faço? Porque respondeu ao meu avanço na pia da cozinha? Parece que está sempre esperando que eu tome a iniciativa. Mas sempre responde favoravelmente.]
E seu relacionamento com João? Continuava firme como nunca.
Ana sentiu-se mal. [Estou fazendo papel de idiota.]

Com o fim da tese, havia algumas coisas que precisava decidir. Precisava mesmo dar um rumo à sua vida. E isto significava investir no doutorado. Já tinha uma idéia bem clara de como funcionava o processo todo. Queria sair do Brasil e estudar nos Estados Unidos. Sabia que as universidades americanas bancavam o estudo de alunos estrangeiros com potencial. E era atrás disso que iria.

*****

Naquela semana começou uma pesquisa intensa na net sobre o processo de inscrição para o doutorado em antropologia nos Estados Unidos. Encontrou todo tipo de informação na rede mesmo. Logo descobriu que havia exames de inglês e conhecimentos gerais que teria que encarar. Podia fazer os testes a qualquer dia. Era só marcar on-line com antecedência e ir até um dos locais de prova em São Paulo. Pesquisou universidades. Sentiu-se desanimada com a enormidade de opções. Teria um longo trabalho pela frente. Encontrou na burocracia do processo todo, um jeito de pensar menos em Helena. Aos poucos, deixaram de se ver todos os dias. Investir no doutorado não era apenas sua realização profissional. Era um jeito de escapar de Helena. Queria ir embora do Brasil para esquecer a loira. Esse motivo funcionou como o impulso extra que precisava para se dedicar à nova empreitada.

Ana tinha um inglês razoável. Mas a pontuação exigida era alta. Teria que estudar muito. A prova de conhecimentos gerais também não era fácil. Entre as outras coisas que tinha que fazer estavam incluir um bom trabalho seu na área de antropologia. Tinha um ou dois bons artigos que tinha escrito durante a faculdade. Trabalharia na tradução deles e pediria que alguém os revisasse.

Acabou se envolvendo totalmente com os planos para o doutorado. Mas evitava falar disso com Helena. Percebera que a jornalista tentava disfarçar, mas ficava triste com a perspectiva de Ana ir embora.

Seus sentimentos pela loira não diminuíam de intensidade. Pelo contrário. Cada vez que encontrava Helena, percebia a seriedade do que estava sentindo. Definitivamente, não era apenas uma paixão passageira. Nunca se sentira assim com ninguém. Quando estava longe dela, ansiava por vê-la, ouvir-lhe a voz e conversar com ela. Quando a encontrava, queria tocá-la. Quando se abraçavam amigavelmente, queria beijá-la na boca. Nunca era o suficiente. A frustração era enorme. E canalizou toda a sua decepção na vida amorosa para a perspectiva de uma nova fase em sua vida acadêmica.