De manhã, bem cedo, quando Ana acordou, Helena não estava mais no quarto. A loira tinha coberto seu corpo com um lençol. Ana ainda estava deitada, perguntando-se onde estariam suas roupas, quando alguém bateu na porta.
[Droga! Estou sem roupa nenhuma! Como é que eu vou explicar isso?]
- Só um minuto – respondeu, entrando em pânico.
- Sou eu – Helena respondeu baixinho.
[Ufa! Graças a Deus.]
- Entra – Ana pediu.
A loira entrou e fechou a porta atrás de si. Achou engraçado o pânico estampado no rosto de Ana. Mas parou de sorrir imediatamente quando viu o corpo nu da morena sob o lençol. Respirou fundo. O coração acelerou. Uma cena da noite anterior cruzou-lhe a mente. Viu-se fazendo amor com ela e ficou excitada. Queria tocá-la de novo. [Isso vai ser um inferno.]
- Meu Deus do céu, Helena! Achei que fosse sua mãe.
- Ela já saiu. Só estamos nós duas na casa. Luciana, a ajudante, vai chegar daqui a pouco.
A loira parecia melhor disposta. As olheiras tinham desaparecido. Mas o olhar triste da noite anterior ainda estava lá.
Helena entregou-lhe as roupas que estavam numa cadeira.
- Fiz café pra você – disse.
Ana, amparada pela loira, levantou-se da cama. E então, nua do jeito que estava, puxou Helena para si num abraço.
- Ontem foi maravilhoso – sussurrou no ouvido da loira.
Helena abraçou-a mais forte e apertou os olhos. [Eu não vou conseguir fazer isso.]
Se não se controlasse acabaria chorando. Recompôs-se. Foi soltando o abraço.
Ana procurou-lhe os olhos e encontrou-os por um momento apenas. Mas Helena logo desviou o olhar.
A morena não conseguia “ler” a expressão no rosto da loira. Havia alguma coisa errada com a jornalista. Quando ia perguntar o que estava acontecendo, Helena aproximou-se, beijou-a no rosto e disse:
- Precisa de ajuda pra se vestir?
- Hmmm... não... – Ana balbuciou, ainda tentando entender a atitude da loira.
- Eu volto daqui a pouco pra te ajudar a descer – disse Helena com um sorriso. Outro beijo no rosto. E a loira saiu do quarto.
Ana, confusa, não entendeu nada.
Helena fechou a porta e encostou-se à parede no corredor. Apertou os olhos de novo, com força para não chorar. O coração estava acelerado. [Estou fazendo isso porque te amo, Ana.]
Helena acomodou Ana à mesa e a serviu. Estava quieta.
Ana decidiu esperar para ver se a loira iria se explicar e enquanto comiam, decidiu falar sobre outro assunto.
- Helena, eu estive pensando sobre a noite do ataque... Principalmente depois que aquele investigador conversou com a gente...
Helena parou de mastigar.
Ana continuou:
- Se a teoria dele estiver certa...
- Que teoria? – perguntou Helena.
- A de que o que fizeram foi um tipo de aviso... então talvez a coisa toda tenha mesmo relação com os documentos que o César te entregou.
- Hmmm...
- Não consigo pensar em outra explicação, Helena.
- Ele ainda não descartou a possibilidade de roubo...
- Mas pelo que ele disse, roubo não faz o menor sentido.
Helena suspirou fundo. Sentiu-se mal. [Não tenho escolha, Ana.]
- Eu também tenho pensado sobre isso – levantou-se e serviu-se de mais café. – E também cheguei a achar que era por causa do dossiê... Mas isso também não faz sentido.
- Por que não?
Helena ainda estava de costas para Ana, ocupada com a cafeteira.
- Porque esperar todo esse tempo pra dar um aviso? – perguntou – Eu entreguei os documentos no final de outubro. Estamos em fim de março. O que mudou nesse tempo?
Ana ficou pensativa. Não tinha considerado isso.
- E o mais importante... – Helena ainda estava ocupada com alguma coisa na pia. Não queria encarar o olhar de Ana ao dizer o que disse a seguir:
- Ninguém entrou em contato comigo.