Ana não queria estar tendo aquela conversa. Não com ele.
A última pessoa com quem esperava passar tempo naquele churrasco era João. Mas ele a procurou. A conversa tomou vida própria e continuaram. O pior de tudo mesmo era saber que no fundo, ele era um cara tão jóia, um amigo querido do qual realmente gostava.
[Eu sou uma pessoa horrível.]
- Sinto tanta falta das nossas conversas, Ana. O ano passado começou tão diferente. A gente sempre saía juntos, eu, Helena, você e o cara da vez....
Ana riu.
- Depois, com sua tese, não nos vimos mais.
- É, João – disse Ana pensativa. – O ano terminou bem diferente.
- Olha Ana... Não quero que desapareça.
Ana não entendeu.
- Depois do casamento, quero dizer – ele explicou.
[Meu Deus! Seria tão mais fácil se você não fosse esse sujeito tão legal.]
Ele parou. Bebeu da cerveja.
- Sabe... Eu nunca entendi muito bem porque Helena aceitou se casar comigo.
- João... [Meu Deus! Eu não quero falar sobre isso. Não com você, João. Não hoje. Não nunca.]
- Não... É verdade. – ele disse. – Mas um dia eu descobri.
Ana ficou curiosa. Ele sorriu e olhou para a morena.
- Eu conquistei você primeiro – disse com um sorriso.
Isso chamou a atenção de Ana.
- Quer dizer, não do jeito que eu conquistei Helena, é claro. Mas... Não sei se me entende.
Ana ficou estática. Entendera perfeitamente.
“- Ana, o que você acha do João? – perguntou Helena.
- Como? – perguntou Ana.
- O que você acha dele? Acha que ele é um cara legal?
Ana parou pra pensar.
- Você sabe, Helena... Eu adoro João. Depois de você, acho que ele é o meu melhor amigo.
- É... Vocês se dão super bem.
- Acho que ele é o único dos seus namorados com quem eu realmente me dei bem.”
- Mas não fiz isso de propósito. – João continuou. – Gosto de você de verdade. Nossa amizade sempre foi genuína.
Ana não tinha dúvidas quanto a isso.
- Então... Acho que Helena viu isso – ele concluiu.
Outro gole de cerveja.
- Se existe alguém a quem eu tenho que agradecer por ter encontrado Helena...
[Não, João, pelo amor de Deus, não diga isso.]
- ... essa pessoa é você – ele concluiu.
Abraçou-a de leve e lhe beijou o rosto.
[Agora sim, estou me sentindo horrível.]
*****
À tarde, no apartamento de Helena...
- João, eu preciso conversar com você.
Pelo tom de voz de Helena, ele entendeu que o assunto era sério.
- Sou todo ouvidos, meu amor – e aproximou-se dela abraçando-a.
[João, você não está facilitando as coisas pra mim.]
Ela ficou tensa com o abraço. João percebeu.
- Alguma coisa errada, Helena?
[Deus, como isso é difícil.]
Helena ficou em silêncio. Não sabia como começar.
João ficou intrigado. Puxou-a para si.
- O que foi Helena?
A jornalista começou a chorar. Ele nada disse. Apenas a abraçou e esperou.
Ela finalmente conseguiu olhar nos olhos dele.
- Eu não tenho certeza. – disse entre lágrimas. [Não é isso o que eu queria dizer.]
Ele entendeu. Ficou sério.
- Há quanto tempo está em dúvida?
- Há algum tempo...
Afastou-se dela. Ficou bravo consigo mesmo por não ter notado antes que algo estava errado com a noiva.
- Olha... Eu tenho sido negligente.
- João...
- As lojas têm me ocupado e não tenho te dado atenção.
- João, não é isso...
- Mas posso mudar isso.
- João...
- As coisas podem voltar a ser como eram no começo...
Ele não estava ouvindo. Helena decidiu ser enfática.
- João! Me escute!
Ele parou de falar. Os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não é você. [Deus, que frase batida!]
- Helena, só quero te pedir uma coisa.
- (...)
- Não tome nenhuma decisão agora. Tire um tempo pra pensar.
- Acho que não...
- Por favor... Faz isso por mim.
- João...
Ele chorava.
- Por favor, Helena... Eu te amo tanto! Dê mais uma chance pra gente.
Ela também chorava.
- Eu me afasto por um tempo... Mas mantemos as coisas como estão.
- João...
- Por favor, Helena. Não decida agora.
Ela suspirou.
- Tudo bem.
Ele beijou-lhe o rosto e saiu.
Depois que ele deixou o apartamento, Helena sentiu-se péssima. Sabia, no entanto, que ele estava se sentindo muito pior. Sentia-se triste, perdida, desorientada. Tinha apenas uma certeza no mar de confusão em que se metera: Ana.