22 dezembro 2006

Capítulo XXXIII

O homem que entrou no quarto não tinha cara de policial. Pelo menos não os policiais da maioria dos filmes policiais. Devia ter uns quarenta anos, era baixinho e parecia ser um pouco tímido. Falou devagar, num tom de voz baixo, que não inspirava confiança nenhuma:
- Bom dia. Eu sou o investigador Gérson de Oliveira – mostrou um documento com um distintivo. – Eu... eu gostaria de fazer algumas perguntas à senhorita sobre a noite em que foi agredida.
Ele soava como se tivesse ensaiado a frase várias vezes.
- Tudo bem – disse Ana.
A timidez do policial a fez sentir-se um pouco mais à vontade.
- Poderia me contar o que aconteceu?
Ana descreveu o que tinha acontecido naquela noite. Falava devagar e procurou fornecer o máximo de detalhes. Lembrava-se de tudo, mas não foi tão fácil forçar-se a voltar para a cena naquela rua deserta. Sentiu-se mal principalmente quando descreveu o ataque em si. Helena segurou-lhe a mão o tempo todo e apertava-a mais forte quando sentia que a morena estava titubeando.
Ao final do relato, Ana sentiu-se aliviada. Percebeu que não fora tão difícil quanto tinha imaginado antes. A experiência de reviver aqueles fatos já não era tão traumática quanto quando o fez pela primeira vez ao acordar depois da operação.
- Hmmm... Poderia descrever esses três homens? – perguntou o investigador. – Um de cada vez? Eu sou meio lento – ele disse com um sorriso.
[Esse cara sabe mesmo deixar as pessoas à vontade.]
- Acho que o mais novo tinha uns 35 anos. Era mais alto que eu, todos eles eram. Todos eles eram bem fortes. Pareciam seguranças. É... me lembro que foi isso o que pensei quando os vi. – Parou e pensou um pouco mais. – Eram morenos. Um deles tinha cabelos grisalhos (o motorista). Eram tipos bem comuns.
- Como estavam vestidos?
- Jeans. E camisetas, eu acho, mas realmente não consigo me lembrar.
- E eles não disseram nada pra senhorita?
- Pode me chamar de Ana se quiser. Não, não disseram nada. Só gritaram se eu precisava de ajuda.
- Hmmm... Você viu algum tipo de arma? Faca ou revólver? Ou algum outro objeto? – ele falava devagar, o que estava deixando Helena impaciente.
- Não, nada. Eles me bateram usando só as mãos e os pés.
Dessa vez foi Helena quem sentiu-se mal.
- Você percebeu que estava sendo seguida pela caminhonete preta?
- Não, não vi nada. – respondeu Ana.
- Hmmm... Mas isso não quer dizer que não estava sendo seguida, quer? Talvez estivesse distraída...
- É. Pode ter acontecido. Eu acho que estava distraída. [É, eu tinha a cabeça em Helena.]
- Sua bolsa estava com você quando você foi encontrada e eu a trouxe comigo. Poderia me dizer o que está faltando? – ele lhe passou a bolsa – Não tenha pressa, por favor.
[É claro. Pressa não faz parte do seu vocabulário, não é investigador?] Helena estava se segurando.
Ana abriu a bolsa e começou a procurar. Abriu a carteira.
- Meus documentos estão aqui, mas não tem meu dinheiro.
- Quanto dinheiro? – ele perguntou.
- Hmmm... acho que uns cinqüenta reais. Também não estou vendo meu talão de cheques ou cartão de crédito. Acho que é só isso que está faltando.
- Bom, Ana, obrigado pelas informações. Nós já temos algumas idéias que estão sugerindo algumas linhas de investigação...
- Pode me dizer? – perguntou a morena.
Ele olhou para Helena e ficou hesitante por um momento.
- Hmmm... acho que posso adiantar alguma coisa. Eles levaram dinheiro, talão de cheque e cartão de crédito. Também levaram seu carro. Então a princípio poderíamos trabalhar com a hipótese de assalto. Mas...
- Mas? – Helena estava cada vez mais impaciente com a calma do investigador.
- Mas também há a possibilidade de alguém ter encontrado você caída na calçada e levado seu dinheiro e seu carro.
Ele continuou:
- Também, a hipótese de assalto é problemática por causa do modo como aconteceu. Você segue uma possível vítima pela cidade, esperando que o carro dela falhe para poder assaltá-la? Não faz sentido.
Pausa. Helena respirou fundo. Ele continuou:
- Talvez devêssemos considerar a possibilidade de que os agressores tentaram fazer com que tudo isso pareça assalto. E isso nos traz novas possibilidades, como vingança, por exemplo.
[Ele parece ser mesmo um sujeito inteligente. Mas eu juro que vou matá-lo se ele não andar com isso.] Helena apenas sorriu.
Ana estava gostando do jeito de pensar do investigador. Tinha realmente subestimado o homem.
- Poderia me dizer, Ana, se você tem algum inimigo? – ele perguntou. – Ou sabe de alguém que gostaria de machucá-la? Um ex-namorado talvez? Alguém que você rejeitou? Ou talvez tenha se envolvido com o namorado de alguma amiga?
As duas se olharam e caíram na risada. O investigador ficou sem entender.
Então Helena explicou:
- Foi assim que nós nos conhecemos. Ela roubou meu namorado. – Ana nem tentou corrigi-la. – Mas isso foi há mais de dez anos. Hoje, ela é minha melhor amiga. [E muito mais.]
- Hmmm... entendo. – ele disse. – Mais alguém? Algum tipo de ameaça?
Uma idéia cruzou rapidamente a mente de Ana, mas ela a descartou logo. [Não foi pra mim, foi pra Helena.] Ficou séria. [Quem quer me ver pelas costas?]
Não conseguiu pensar em ninguém.
Helena resolveu perguntar:
- Então você acha que teria sido vingança?
Ele olhou calmamente para ela. [Que mulher bonita!]
- Não temos como afirmar com certeza, mas há alguns indícios de que eles queriam apenas assustá-la e não matá-la. Por exemplo, embora a agressão tenha sido bastante violenta, eles tentaram ficar longe da sua cabeça e rosto. Ao invés disso, bateram nas suas costas e pernas.
Nova pausa. Helena nem respirou para não interromper a linha de raciocínio do policial.
- O que estou tentando dizer é que eles poderiam tê-la matado facilmente. Não o fizeram porque queriam que sobrevivesse. Alguém está interessado em machucá-la, mas de modo que você sobreviva.
- Quem faria isso? – perguntou Ana.
- Alguém que esteja interessado em dar um recado a você. Mostrando que da próxima vez, eles podem terminar o serviço. Existe também certo profissionalismo no modo como o ataque aconteceu. Eu conversei com o médico e não houve nenhum tipo de violência sexual enquanto você estava desacordada. Eles também escolheram levar apenas os valores; não levaram nem a carteira. Isso não é coisa de ladrão comum.
A esta altura a mente de Helena trabalhava como nunca. Estava tentando entender quem estaria por trás do ataque.
- De qualquer modo, não podemos descartar nenhuma possibilidade ainda. Estamos investigando tudo.
Nenhuma das duas disse nada. Então ele concluiu:
- Talvez eu precise contatá-la mais uma vez, poderia me fornecer um endereço?
Helena passou-lhe o endereço da casa dos pais.
- Se conseguirem lembrar de alguma coisa, por favor entrem em contato comigo. Este é o meu cartão. Obrigado e espero que se recupere logo. Bom dia.
Ele saiu. E deixou as duas com mais perguntas do que respostas. Helena, mais que Ana, tinha ficado inquieta e com a mente a mil por hora. As perguntas do policial tinham lhe deixado intrigada.