23 dezembro 2006

Capítulo LIV

Helena esperava o semáforo abrir. Tinha acabado de sair do bar e estava indecisa sobre o que fazer. Sabia o que queria: ir para a casa de seus pais e encontrar-se com Ana. Tinha seguido a morena a noite inteira pelo bar e não conseguia pensar em quase mais nada a não ser numa noite de amor com ela. E sabia que Ana queria o mesmo.
Mas isso complicaria seus planos.
[O que fazer?]
Lembrou-se do motivo pelo qual estava evitando a morena. [É para protegê-la.]
Pensou no risco que Ana corria se ficasse no Brasil.
[Não posso arriscar.]
Por outro lado, seu corpo estava gritando pelo toque da morena. Queria tanto beijá-la e fazer amor com ela. O beijo do dia anterior na cozinha tinha-lhe deixado em brasas.
[Eu a quero tanto!]

O sinal abriu e ela acelerou.
Relutando, foi para o seu apartamento.

*****

Ana saiu do banheiro com a cabeça enrolada numa toalha. Não conseguia ir para a cama sem um bom banho para livrar-se do cheiro de cigarro do bar. Vestia uma camiseta sem mangas e shorts: estava pronta para dormir.
Estava cansada, mas seu corpo estava em ebulição. Só conseguia pensar em Helena e no quanto queria que a loira aparecesse. Desconfiava que ela não viria, mas no fundo, esperava estar enganada.
Sentou-se na cama e pegou o celular. Procurou o número da loira nos contatos e quase apertou o botão pra discar. Mas, então, desistiu e fechou o aparelho.
[Vou dizer o que? Vem me ver porque eu não me agüento de vontade de fazer amor com você?]
Balançou a cabeça diante do ridículo da idéia.
Apagou a luz e ficou esperando o sono chegar.
Virou-se na cama várias vezes antes de conseguir adormecer.

*****

Ana acordou no fim da manhã com seu telefone tocando próximo à cabeceira da cama.
- Alô – tentou soar acordada.
- Ana Maria? – a voz masculina do outro lado perguntou.
- Sim, sou eu...
- Aqui é o investigador Oliveira. Acho que a acordei, não foi? Me desculpe...
- Não... tudo bem...
- Como está passando?
- Hmmm... bem – Ana respondeu.
- Hmmm... estou lhe telefonando porque gostaria de saber se já pode se movimentar... sair de casa, por exemplo.
- Hmmm... sim posso. Porque pergunta?
- Gostaria de saber se poderia dar um pulo até a delegacia e nos ajudar com um retrato falado dos homens que a agrediram.
- Ah... claro.
Ana queria mesmo era esquecer a história toda. Mas sabia que precisava ir.
- Amanhã é um bom dia? – ele perguntou.
- A que horas, seu Oliveira?
- Que tal na parte da manhã?
- Tudo bem.
- Ainda tem meu cartão?
- Sim, acho que sim...
- O endereço da delegacia está lá. É só perguntar por mim quando chegar. Obrigado.
- Obrigada. Até amanhã.
Ainda estava meio sonolenta ao desligar o telefone.
[Como será que ele conseguiu meu número?]
Concluiu que não seria tarefa difícil para um investigador de polícia.
Deu um bocejo, esfregou os olhos e resolveu começar seu dia.

*****

Leonora bateu na porta do quarto.
- Entre – Ana respondeu. Estava sentada ao computador.
- Olá, Ana Maria – Leonora disse aproximando-se e abraçando a morena. – Vim ver como você está.
- Estou bem, Leonora. Aos poucos voltando à minha rotina.
- Como estão os ferimentos?
Ana fechou o programa que estava usando no computador e voltou-se para Leonora.
- Eu ainda estou andando de um jeito esquisito e um pouco devagar. Mas não sinto mais dor nenhuma.
Parou e pensou melhor.
- Quer dizer, só quando faço certos movimentos que envolvem essa região – disse mostrando as costelas.
- Vi que está dirigindo... – observou Leonora.
- É... dirigir não é tão difícil – Ana respondeu.
Leonora então explicou o que queria:
- Eu vim mesmo lhe fazer um convite.
Ana ficou curiosa.
- Tenho alguns lugares para ir hoje e coisas para resolver por conta da festa de Hugo depois de amanhã... Gostaria de saber se não gostaria de me fazer companhia. Acho que vai me tomar quase a tarde toda. Depois poderíamos tomar um chá juntas. Que tal?
- Que idéia ótima, Leonora! Claro que topo! – respondeu.
- Mas me preocupo com sua condição física – disse Leonora.
- Acho que não há problema. Só não posso ajudá-la a carregar nada. E também ando bem devagar...
- Isso não é problema – Leonora tranqüilizou-a – Pode ficar pronta em meia hora?
- Sem problema.
- Então daqui a pouco nós saímos.

*****

Helena abriu a porta do seu apartamento para o investigador Oliveira. Ele temia que ela estivesse sendo seguida e tinha sugerido que não se encontrassem num lugar público. Ao invés, ele decidiu encontrá-la em seu apartamento. Helena não entendeu muito bem porque isso seria menos suspeito, mas concordou.

- Eu gostaria de pedir que apresente os documentos à polícia e faça uma denúncia – ele pediu.
Helena respirou fundo. Ficou em silêncio e fez que não com o cabeça.
Ele insistiu:
- Eu sei que tem seus motivos para ter medo, Helena, mas eu fico de mãos atadas se não tenho acesso aos documentos.
- Mas pelo menos pode me garantir que vai proteger a mim ou a Ana?
Ele ficou em silêncio. Helena levantou uma sobrancelha.
- Está me pedindo para arriscar a vida dela? – perguntou.
- Não mais do que já está em risco – ele disse.
- Não sei...
- Se fizer a denúncia, podemos pôr essa gente na cadeia, Helena.
- Mas eles disseram que vão matá-la!
Helena queria ajudar, mas estava com medo de arriscar a vida de Ana. Queria esperar até que ela deixasse o país.
Ele ficou em silêncio por um instante. Então disse baixinho:
- Helena, vou lhe pedir que confie em mim.
- (...)
- Façamos o seguinte... – ele continuou a explicar – você me mostra o que tem em mãos e eu começo uma investigação individual. Nada oficial. Mas eu preciso de alguns nomes e um alvo para começar a investigar. Esperamos sua amiga viajar e então você faz a denúncia.
- Me parece melhor... – disse Helena.
- Em quanto tempo acha que ela viaja?
- O prazo para que ela aceite a bolsa vence em dez dias. Depois disso, acho que ela só tem que esperar pelo visto. Uns dois meses, eu acho.
- Hmmm... isso é muito tempo...
Helena não disse nada.
- Não vou conseguir convencê-la a fazer a denúncia antes disso, vou? – ele perguntou.
Helena fez que não com a cabeça.
- Entendo... Então vamos ter que ficar de olho nela nesse tempo.

*****
- Mas por que está em dúvida se aceita ou não? – Leonora perguntou – Pensei que UCLA fosse uma boa escola.
Ela e Ana estavam encerrando a tarde numa casa de chá no centro da cidade. Tentavam dar conta da enorme quantidade de doces, pães e tortas que lhes eram servidos.
- E é Leonora... – respondeu Ana. [Como é que eu explico isso sem me enrolar?]
Continuou:
- Mas... a vida da gente não é só profissão... A gente tem que pesar outras coisas pra decidir isso.
Leonora abriu um sorriso enorme, o que fez Ana mexer-se desconfortavelmente na cadeira.
- Ah... existe alguém atrapalhando sua decisão... – disse levantando as sobrancelhas.
Ana sorriu e balançou a cabeça.
[Que coisa!] Esse era o problema com Leonora: ela não era sua mãe de verdade. [Porque mãe a gente consegue enganar.]
Mas nenhuma tática funcionava com ela. [Parece que ela lê as coisas na minha testa!]
- Hmmm... mais ou menos – Ana explicou – As coisas ainda são bem recentes, por isso não quero dizer quem é...
Leonora olhava-a com intensidade, como se de fato pudesse ler a verdade em seu rosto.
- Percebo uma certa indefinição...
- Sim as coisas estão indefinidas – Ana respondeu.
- Mas ao mesmo tempo não me parece ser algo passageiro, é? Se não você não ficaria em dúvida sobre o programa...
Ana não achava que poderia dizer a Leonora que estava falando de sua própria filha. Por outro lado, sentia-se aliviada por poder falar sobre seus conflitos com alguém.
- É tudo muito novo ainda... – respirou fundo – mas sabe quando você sabe que essa pessoa é aquela que você esperou a vida inteira?
- E ele sabe do que você sente?
Ana fixou o olhar na mesa. Então disse com um sorriso triste.
- Sabe...
- E como ele se sente a respeito? – Leonora perguntou.
- Sente o mesmo.
Leonora tinha uma expressão pensativa. Encostou-se na cadeira.
- Você tem certeza disso, Ana Maria?
- Tenho... – um suspiro – Mas...
- Mas...
- Ele não está disposto a pagar o preço para ficar comigo.
- Porque não?
- Não sei... – Ana estava séria – ele não me diz.
- Mas que sujeito idiota! – Leonora não se conteve.
Ana sorriu.
- As coisas não são tão simples, Leonora... há outros fatores...
- Ele é casado ou comprometido?
Ana fez que não com a cabeça.
Leonora balançou a cabeça.
- Então?! – Leonora não se conformava – Não, não, minha filha. Você é uma mulher encantadora. É talentosa, linda, e mais importante ainda, tem um coração excelente. Não consigo pensar em um motivo plausível que impeça esse rapaz de se decidir por você.
[Não sei se você vai continuar pensando tudo isso a meu respeito se descobrir que se trata de Helena.]
- Bom... ele não diz...
Leonora segurou as mãos de Ana sobre a mesa e disse olhando-a nos olhos.
- Me chame de romântica se quiser, mas... se esse rapaz é aquele que vai lhe fazer feliz, Ana Maria, você não pode substituí-lo por nada ou ninguém. E nem ele pode. E eu acho que ele vai cair em si e entender isso.
Então franziu a testa e disse pensativa.
- Ou ele vai continuar procurando você em outras pessoas – concluiu.