Domingo. Ana estacionou seu carro em frente à casa dos Chagas. Era uma casa grande. Dois andares, vários quartos. Nos fundos, churrasqueira e piscina. Apertou a campainha e dentro de alguns minutos, um rapaz loiro, nos seus vinte anos, abriu a porta. Era Hugo, irmão de Helena.
- Ana! – cumprimentou-a com um abraço caloroso. – você sumiu. Sentimos tanto sua falta. Entra.
- Oi Hugo. Que bom te ver! – gostava tanto desse rapaz.
- Dona Leonora está brava contigo porque não dá noticias. Que bom que veio armada. – disse ele rindo e apontando para o violão nas mãos de Ana. – Você vai ter que tocar muito violão hoje pra acalmar a fera.
Ele a conduziu até a cozinha.
- É, tô sabendo. Me avisaram que sem violão, não tem almoço. Será que consigo beliscar alguma coisa?
- Sei não, Ana. Você conhece o gênio das mulheres dessa família.
- Eu sei, Hugo. Você tem lugar garantido no céu por agüentar essas duas.
- Três! Duda tá por aí também.
- Vixi! Três é convenção! Será que ainda dá tempo de escapar?
- Olha só quem chegou... – a voz veio da cozinha. Era Duda, prima de Helena.
- Tarde demais, Ana. Agora você tá é frita. – Hugo deixou-a na cozinha e saiu.
- Duda! – Ana estava feliz em revê-la. – Quanto tempo, mulher!
- Nem me fale, Ana. – Duda abraçou-a. – Você tá super bem. Fiquei sabendo que contratou nova cozinheira.
- É. Tem uma moça lá em casa. Cozinha bem mesmo. Mas fala mais que...
- Ana Maria! Que saudade dessa menina. Venha cá e me dê já um abraço. – Uma mulher loira, alta e magra, em seus cinqüenta e poucos anos entrou na cozinha. Era Leonora. Fisicamente, a única semelhança com Helena eram os cabelos loiros. Mas a personalidade, era a mesma. Ana obedeceu. E que abraço tinha Leonora! Era a mãe da qual Ana sentia tanta falta. Sentia-se tão parte daquela família. Era tão bem acolhida e amada naquela casa. Sempre fora assim. Desde que Helena a levara para conhecer sua casa há dez anos.
“- Que casa grande a sua, Helena! – Ana estava impressionada.
- É. Vou me trocar e já volto. Não se preocupe, não tem ninguém em casa agora.
- Ah... tá bom.
E Helena desapareceu escada acima.
Ana estava sozinha na sala. Seus olhos pararam no piano. Adorava o instrumento e sempre que podia tocava no conservatório onde dava aulas de violão. Sentou-se no banquinho e levantou a tampa. Tirou o pedaço de feltro que cobria as teclas e começou a dedilhar os acordes e a melodia de “Speak Low”. Ana nunca tinha tido aulas, mas aplicava muito do que sabia do violão no piano. O resultado era um som com cara de jazz, umas harmonias sofisticadas, mas sem nenhuma técnica pianística. Era gostoso de ouvir. E swingava também.
Estava tão entretida com a música que não ouviu a mãe de Helena entrando na sala, vindo da cozinha. Leonora ficou ali ouvindo a música, imaginando que a morena alta sentada ao piano fosse a amiga de escola, da qual Helena tanto falava.
Helena também tinha parado no alto da escada pra ouvir. Quando terminou a música, Leonora aproximou-se de Ana e abraçou-a. Ana, a princípio, assustou-se. Leonora se apresentou.
- Você deve ser Ana. – disse sorrindo. – E que som gostoso você tira do piano, menina. Eu sou Leonora, mãe de Helena. Seja bem-vinda à nossa casa.
E Ana tornou-se visita freqüente à casa dos Chagas.”
Era o mesmo abraço que a envolvia agora.
- Agora vou te dar uns cascudos pra você não desaparecer assim! – disse Leonora brincando. – Ainda bem que Helena está de olho em você.
- Ai, ai. Não me espanque, por favor. Eu trouxe o violão, olha...
- Pensa que pode me comprar com música?
- É... costumava dar certo...
- Ainda dá. – Leonora estava tão feliz em vê-la que não largava do abraço. – Quero ouvir você tocar depois.
- E você vai cantar pra gente, não vai, Maria Eduarda? – perguntou Ana a Duda, com uma piscadela.
- Canto. Mas se você me chamar de Maria Eduarda de novo, não me responsabilizo. – Duda olhou-a com o canto dos olhos.
Ana gostava de acompanhar a voz de Duda ao violão. Ela tinha uma voz muito boa. Era psicóloga por profissão, mas adorava cantar.
- Mulherada nervosa tem essa família. – disse Ana rindo.
A conversa na cozinha ficou animada. Era muita coisa para pôr em dia para três mulheres que não se viam já há algum tempo. Entre cortar os legumes para a salada, preparar a mesa e os últimos detalhes para o almoço, as três falaram de coisas da clínica de Duda, o namoro dela com Flávio (que estava conversando com Artur, pai de Helena, à beira da piscina), a tese de Ana (que incluiu perguntas e comentários de Leonora, já que esta dava aula de pedagogia na universidade e queria saber detalhes), a nova rotina de Ana com Helena, o futuro profissional de Ana, a vida amorosa de Ana...
A esta altura – para alívio da morena – Artur e Flávio juntaram-se ao grupo e a conversa tomou outro rumo. Artur tinha lá seus sessenta e poucos anos. Os cabelos castanho-claros e o mesmo tom de verde-escuro dos olhos não deixavam dúvidas de que era o pai de Helena. A semelhança era impressionante.
Conversaram mais um pouco. Agora falavam dos planos para o fim do ano e as viagens.
- O que vai fazer Ana? – perguntou Duda abraçada à Flávio.
- Vou ficar por aqui mesmo, Duda. Estou tentando economizar esse ano.
- Então passe com a gente, Ana. – Leonora convidou. – Você sabe, sempre passamos o natal e ano novo aqui.
Nesse momento ouviram alguém chegando. Eram João e Helena. Hugo e Sara, a namorada, também juntaram-se ao grupo na cozinha.
A chegada dos dois casais deu início a uma nova série de abraços e beijos.
- Aproveite seus últimos momentos de folga, Ana. Hoje à noite eu volto – Ana foi a última a receber o abraço de Helena.
[Mal consigo esperar, loira.]
- Folga? Onde? Quando? – perguntou Ana rindo. – A gente se viu ontem na festa do Mauro e hoje aqui.
- Verdade. Já enjoou de mim? [Mania deliciosa que ela tem de conversar dependurada em mim. Dá um abraço e não larga.]
Mas Helena acabou deixando a amiga e foi dependurar-se no noivo.
O almoço foi servido. Os casais e Ana sentaram-se à mesa da sala de jantar e saborearam uma deliciosa lasanha e peixe assado. Comeram devagar, curtindo não apenas a comida, mas a companhia e conversa animada de amigos preciosos que há tempo não gastavam tempo assim juntos.
O grupo levou a conversa para a sala e os casais espalharam-se pelo cômodo grande. Alguém sugeriu que Ana pegasse o violão e a morena atendeu prontamente.
- Algum pedido especial?
Havia vários. E ela começou com uma versão para violão de “As Vitrines” de Chico Buarque. Era o pedido de Leonora.
Ana, na verdade, sabia a canção favorita de cada um. E assim foi tocando, solando ao violão uma canção de Lenine para Hugo, do Legião para Sara, dos Beatles para Artur. Mais Chico para Duda – que ela cantou para Flávio. A certa altura, João foi buscar seu violão e juntou-se a ela. E no final todos cantavam as canções. Helena foi a última a pedir.
- Você sabe a minha favorita.
E Ana tocou “Luísa” de Tom Jobim. Essa foi solo seu. Só o violão. De Ana para Helena. Ao final, Helena tinha os olhos cheios de água. Era sempre assim. Sempre que ouvia Ana tocar, se emocionava e chorava. Ninguém nem tirava mais sarro. A choradeira de Helena com o violão de Ana já tinha virado rotina.
O grupo se dispersou pela casa. Os três casais jovens foram namorar e Ana ficou só no sofá da sala, onde acabou adormecendo.
Algum tempo depois, Duda acordou de sua soneca à beira da piscina. João e Flávio conversavam e bebiam cerveja alguns metros longe dela. Decidiu procurar algo para beber na cozinha. Entrou na casa. Cruzou a cozinha e achou tudo quieto. Cadê todo mundo? Resolveu procurar por Ana e Helena. Foi em direção à sala.
Ana estava deitada no sofá e dormia profundamente. Helena estava sentada ao seu lado no chão, com os olhos fixos no rosto da morena. Uma música tocava bem baixinho no som. Duda parou onde estava e ficou observando a cena. De onde estava, Helena não podia vê-la. A jornalista ficou assim, olhando para o rosto de Ana por vários segundos. De repente, mexeu na franja longa da morena, movendo o cabelo da testa. Sem tocar no roso de Ana, desceu o dedo indicador pelo rosto dela, que dormia, indiferente ao carinho da loira. Helena sorriu. Com o dedo e ainda sem tocá-la, fez o contorno dos lábios de Ana, desceu a mão pelo pescoço, e na altura dos ombros tocou o tecido da camisa da morena. Ana continuava a dormir. Helena não tirava os olhos do rosto à sua frente.
Duda observava tudo atentamente. Não querendo ser notada, voltou alguns passos pelo corredor que ligava a cozinha à sala e refez o caminho. Desta vez, fazendo algum ruído de modo a ser notada. Helena, percebendo que alguém se aproximava, levantou-se de onde estava e agiu como se estivesse de saída da sala em direção à cozinha. Quando viu Duda, fez sinal de silêncio com o dedo indicador na frente dos lábios, apontando para Ana que ainda dormia. Voltaram para a cozinha onde se serviram de cerveja.
- E aí, Helena? Quando vão marcar a data?
- Ainda não sei, Duda. Estamos esperando a construção do apartamento. Mas ano que vem nos casamos, com certeza.
- Sabe que ainda é difícil acreditar que você finalmente resolveu se casar?
- É, eu sei. Mas chegou minha hora. Já não sou tão nova.
- Que isso, Helena! Você tem o que? Vinte e sete? Vinte e oito?
- Vinte e sete.
- Eu estou com vinte e nove. Você tá nova ainda – disse com um sorriso.
- É, mas sempre te achei muito mais madura que eu.
A psicóloga começou a conduzir a conversa para onde queria.
- E Ana? Quantos anos tem?
- Praticamente a minha idade. Três meses mais nova.
- E como estão se dando no apartamento dela?
- Super bem. Você sabe, Ana é tranqüila. Estresse nenhum.
- Na verdade, você é quem deve estressá-la.
- Talvez... – concordou Helena sorrindo.
- Porque gosta de provocá-la, Helena?
- Não sei, Duda. Gosto de ver a reação dela.
Helena sentia-se muito à vontade com a prima. E estava pensando se deveria se abrir sobre algumas coisas que estavam lhe incomodando ultimamente. Coisas que tinham vindo à tona depois que se mudara para o apartamento de Ana. Estava tão intrigada com algumas reações suas à morena e queria desesperadamente falar sobre isso com alguém.
- É como se eu precisasse interagir com ela o tempo todo.
Duda prosseguiu com cuidado.
- Interagir? Como, Helena?
- Não tenho certeza. – pensou um pouco. – Você sabe, Ana é meio na dela. Fechada, se abre pouco com as pessoas.
- É... – Duda não queria interromper a linha de pensamento de Helena.
- Então... Eu... Eu gosto de provocar uma resposta nela. – nova pausa. Helena estava hesitante. – Qualquer resposta, entende?
Nesse momento, Ana entrou na cozinha, com cara de sono.
- Nossa, quanto tempo eu dormi? Porque ninguém me acordou?
- Você parecia estar precisando do sono, Ana. Vem, toma uma cerveja com a gente.
- Vou de coca mesmo, Duda. – e abriu a geladeira atrás de uma latinha. – De quem estamos falando mal?
- De você, é claro – respondeu Helena.
- Que falta de assunto! Não tem ninguém com uma vida mais parada que a minha, não?
- Não tão parada assim, não é? – Helena referia-se ao rapaz de quinta.
- Ah, alguém que eu preciso conhecer, Ana? – Duda arqueou as sobrancelhas.
- O que quer saber? - perguntou Ana sorrindo.
- Que tal um nome? – Helena perguntou
- Luís. – e bebeu um gole de coca.
- Hmmm. – Helena continuou. – Como vocês se conheceram?
- No bar.
- Como ele é?
- Gostoso.
- Peraí. Assim não funciona. – reclamou Duda. – Você vai ficar dando informação a conta-gotas? Desembucha logo, Ana.
Ana riu.
- Ok, ok... Eu o conheci no bar. Só ficamos juntos aquela noite. Foi muito bom. E depois disso ele me ligou querendo sair de novo. Acho que vai passar aqui daqui a pouco. Talvez a gente faça alguma coisa mais tarde.
Helena ficou surpresa. Não sabia que ele a tinha procurado novamente. Por alguma razão que nem ela entendeu, não gostou. Mas imediatamente sentiu-se mal por agir tão egoisticamente. Ana estava saindo com um cara e parecia feliz com isso. [Não pode se sentir feliz por ela? Que tipo de amiga é você, Helena?] Mas não pode evitar o que estava sentindo. [E porque diabos estou sentindo ciúmes de Ana?]
Nesse momento, Sara entrou na cozinha.
- Ana tem um rapaz atrás de você. Luís...
Ana levantou-se:
- Ah, obrigada Sara. Ele não quis entrar?
- Não. Disse que te espera lá fora.
- Ok, já estou indo.
- Falando no diabo...
- Ok meninas... vou nessa.
Beijou e abraçou Duda.
- Foi tão bom te ver de novo.
- Foi sim, Ana. Devagar com sua tese, ok?
- Tá bom. Se cuida, Duda.
Beijo rápido em Helena.
- Te vejo mais tarde.
- Divirta-se, Ana.
Ana saiu.
Duda tinha os olhos fixos em Helena. Estava estudando bem de perto o modo como a loira reagia a Ana. [Será mesmo possível que ela não tenha se dado conta?]
Começaram a falar dos namorados.