Helena olhou no relógio: três horas da tarde. Ana não tinha voltado ainda. A jornalista ligara várias vezes para Guimarães e ele não tinha nenhuma notícia da morena. Helena também tinha ligado para os músicos que tocavam com ela e tinha até falado com João. Ninguém sabia da morena.
Tentou acalmar-se, mas a falta de notícias a fez reviver a noite em que Ana fora atacada. Foi ficando cada vez mais ansiosa por não saber do paradeiro dela. [Onde ela se meteu?]
Precisava fazer alguma coisa.
Pegou as chaves do carro e saiu à procura da amiga. Nem tinha certeza de onde a procuraria. [Mas não posso ficar aqui esperando!]
Passou por vários lugares onde Ana costumava ir, mas não havia nenhuma pista dela.
Estava quase desistindo da busca quando uma idéia lhe ocorreu.
*****
Ana sentou-se no chão em frente ao túmulo e ficou ali abraçada às próprias pernas, descansando o queixo nos joelhos. Perdeu a noção do tempo. Naquele fim de tarde, não havia quase ninguém ali e o único som era o do vento soprando nas árvores altas que cercavam o cemitério. Os sons da cidade muito ao longe não interferiam com a paz do lugar.
A quietude daquele ambiente contrastava enormemente com o que se passava no coração dela. Por isso, vir ali tinha um efeito apaziguante. Além disso, Ana adorava o silêncio. Isso era particularmente interessante, já que, por profissão, trabalhava produzindo sons.
Mas acima de tudo, vinha ali para visitá-los. Fazia-o com freqüência, mas especialmente quando não estava bem. E não estava nada bem.
Não sabia qual rumo tomaria dali pra frente. Não tinha certeza do que fazer ou para onde ir.
[Queria que estivessem aqui pra me dizer o que fazer.]
Olhou para os nomes escritos nas duas lápides: Francisco e Lúcia dos Santos.
[Sinto tanta falta de vocês!] Os olhos encheram-se de lágrimas.
Lembrou-se do acidente. A culpa que sentia tinha diminuído com o decorrer dos anos. Mas ainda estava lá. Perguntava-se se algum dia deixaria de sentir-se responsável pelo que tinha acontecido.
[Se pelo menos eu tivesse ido com vocês naquele fim de semana...] Novas lágrimas surgiram.
“- Ana, por que não quer vir conosco? É só um fim de semana... domingo à tarde nós voltamos – disse seu pai.
- Eu sei... – Ana disse.
Não queria ir. Gostava da companhia dos pais, mas queria ficar e curtir o fim de semana com Eduardo, o namorado.
- Olha, pai – ela tentou argumentar – porque não vai e aproveita o fim de semana com a mamãe? Eu fico por aqui. Não vou ser boa companhia...
Seu pai abriu um sorriso...
- E quem vai dirigir? – ele perguntou.
Ana era a motorista da família. Seu pai não gostava de dirigir e ela ficava encarregada de levá-los a todos os lugares.
- Deixe a menina, Chico – disse a mãe.
- Ah, pai... – Ana tentou convencê-lo. – Só essa vez...
Ele não parecia muito feliz com a decisão de Ana, mas acabou se rendendo. Puxou Ana num abraço e disse:
- Tudo bem, filha. – deu-lhe um beijo na cabeça.
Francisco e Lúcia voltavam para São Paulo no domingo à tarde, quando ocorreu o acidente. O carro que ele dirigia bateu de frente num outro que vinha em sentido contrário. Os dois morreram instantaneamente.”
Alguém aproximou-se por trás de Ana. Ela nem precisou virar-se para saber quem era. Enxugou as lágrimas e ficou em pé.
- Não foi sua culpa, Ana – Helena disse, colocando os braços em volta da morena.
Ana desvencilhou-se do abraço, virou-se para a loira e perguntou sem conseguir esconder a irritação:
- O que veio fazer atrás de mim, Helena?