22 dezembro 2006

Capítulo XIII

Quando Ana acordou perto do meio-dia naquela quarta-feira, Helena estava junto à pia da cozinha preparando alguma coisa para o almoço. Não viu Ana chegar. A morena tinha tomado um banho longo (se não, não acordaria jamais). Encostou a cabeça na ombreira da porta e ficou observando Helena, que tinha as costas pra ela. Era impressionante a ebulição que se formava dentro do seu corpo pelo simples fato de encontrar a jornalista pela primeira vez no dia. Começava com aquela sensação na altura do estômago. Não conseguia definir muito bem. Sentia como se estivesse caindo, sem chão sob os pés. Então, um calor inesperado tomava conta do corpo todo. Passava logo. A seguir o coração acelerava e a respiração ficava alterada. Às vezes, isso tudo acontecia de uma só vez. Isso se repetira todo dia nas últimas semanas.

Sua ânsia por tocar Helena estava saindo do controle. Não conseguia pensar em muito mais que isso. De repente, decidiu mandar às favas sua decisão de não tocar a amiga. É claro, isso não significava tomar a loira nos braços e beijar-lhe a boca. Mas não iria mais agir como uma estátua quando Helena lhe encostasse a mão. Estava cansada e frustrada.

Resolveu experimentar algo novo. [Vamos ver como a gata se sai, quando provocada.] Respirou fundo e aproximou-se da pia.

Helena, de frente para a pia, não tinha visto a morena. Sentiu o cheiro de sabonete ao mesmo tempo em que dois braços longos a enlaçavam pela cintura. O coração de Helena acelerou imediatamente. Ana chegou o rosto junto aos cabelos loiros e pousou o queixo nos ombros da loira. Ficou assim por alguns segundos.

De repente, encostou seu corpo no de Helena, tocando-lhe as costas com os seios. As duas vestiam regata, expondo ombros e pescoços. Nenhuma das duas usava sutiã. E a malha leve das camisetas tornou o contato ainda mais íntimo. Ao mesmo tempo, Ana moveu a região pélvica para frente e cobriu as nádegas de Helena com o próprio corpo. Os braços fecharam-se na cintura da loira. Seu corpo envolveu o de Helena totalmente. Helena prendeu a respiração. Então, Ana afastou o corpo, mantendo apenas os braços na cintura de Helena.

O movimento foi muito rápido, durou mesmo um segundo ou dois. Essa era a idéia de Ana. Queria ver como Helena reagia quando provocada por ela, mas não queria ir tão longe assim. Foi um movimento muito arriscado. Decididamente, não era coisa que amigos faziam um com o outro. Mas a rapidez com que tudo aconteceu, deu a impressão a ambas, de que a coisa toda não tinha realmente acontecido, de que tanto ela quanto Helena tinham imaginado o contato tão próximo.

A loira não gritou, nem protestou. Ana não esperava mesmo uma reação desse tipo. Mas achou que Helena iria enrijecer o corpo diante do seu toque e gentilmente se afastar. Nem uma coisa, nem outra: Helena, pelo contrário, sentindo que Ana afastava o corpo, segurou os braços da morena em volta de si e inclinou a cabeça para trás, buscando mais contato com a amiga. Ana sentiu os cabelos loiros tocando-lhe o rosto. Estava quase explodindo de tesão pela loira. Queria tanto beijá-la!
- Bom dia, loira – sussurrou bem próximo ao ouvido dela.
- Hmmm, bom dia, Ana – Helena tinha os olhos fechados, estava totalmente mergulhada na sensação do abraço de Ana. [Que cheiro maravilhoso.]
Nenhuma das duas queria deixar o abraço. Mas Ana sabia que estava em terreno perigoso. Tomou a iniciativa de se afastar.

Como sempre fazia, Helena calou qualquer pergunta que seu cérebro tentou fazer. Não queria ouvir, não queria explicar, não queria entender. Queria apenas sentir a presença de Ana e o bem que ela lhe fazia.

Em Ana, havia um turbilhão de emoções, como resultado desse novo nível de contato. A reação de Helena fora uma surpresa. Uma surpresa muito boa.

*****

Enquanto comiam...
- Helena...
- Hmmm...
- Terminei de escrever.
Helena parou. Abriu um enorme sorriso. Foi até Ana e abraçou-a.
- Tô tão orgulhosa de você!
- Ainda tem a defesa em fevereiro.
- Eu sei que você fez um bom trabalho, Ana. A defesa vai ser só formalidade – estava mesmo muito feliz por Ana.
Ainda sorrindo, disse:
- Hmmm, acho que agora tenho que voltar pra casa.
- Por que não fica mais um pouco, Helena? Não precisa voltar imediatamente.
- Eu sei. Mas eu me mudei pra cá pra te ajudar a escrever. Agora que você terminou, não tenho porque ficar.
- E desde quando precisa de uma desculpa? Fica mais um pouco... Não gosta daqui?
- Ana, eu mesma me surpreendi com o modo como a gente se deu bem morando juntas. É claro que eu gosto.
Helena também não queria ir. Mas com o fim da tese – motivo pelo qual se mudara para o apartamento de Ana – não tinha como justificar sua estada por um prazo ainda maior. O que diria a João? Ele não se oporia, tinha certeza. Mas ela não tinha uma boa explicação. [Simplesmente, porque adoro ficar perto dela.]
- Então...
- Fico mais uma semana, que tal?
Ana queria que ela ficasse muito mais. Mas não insistiu.
- Tudo bem...
- A gente vai ter que comemorar isso. Vamos convidar um pessoal pra um jantar... Depois disso, eu volto pra casa.
- Jantar?
- É. Vamos a algum lugar bem gostoso. O que quer comer?
- Sei lá. Quantas pessoas?
- Quantas você quiser...
- É uma boa idéia. Que tal uma boa pizzaria?
- Perfeito. Me avisa quem quer chamar que eu convido todo mundo e arranjo os detalhes. Semana que vem?
- Legal.

*****

A semana que se seguiu ao término da tese foi de folga para Ana e de desafio para Helena. A morena, tendo terminado seu trabalho, quis descansar de qualquer tipo de tarefa intelectual e achava muito difícil não interagir com Helena, estando ela estava sentada a poucos metros. Helena, por sua vez, tinha seus artigos pra escrever. Ana surfava na net, tocava violão (o que acabava com a concentração da loira, porque ficava emocionada) e andava pela casa.

Ana também não queria sair do apartamento. [Sair pra que? Não quero ficar longe dela.] Tinha alugado dvds para as noites que não tinha que tocar no bar. As duas sentavam-se no chão e curtiam uma comédia romântica ou alguma coisa leve. Nada de filme cabeça. Ana estava cansada de pensar.
Ao fim do filme, estavam geralmente amontoadas uma sobre a outra. Ana perdia completamente o interesse no filme e não tinha a mínima idéia do que estava ocorrendo na tela. Fixava os olhos na loira agarrada ao seu corpo e se concentrava em controlar a respiração e a vontade de beijá-la.

Não tinha repetido o gesto ousado de outro dia na pia da cozinha. Mas havia um novo nível de liberdade. Ana respondia aos toques de Helena. Os abraços eram demorados, falava ao ouvido da loira, puxava-lhe pelas mãos quando queria conduzi-la a algum lugar no apartamento, mexia-lhe nos cabelos, beijava-lhe o rosto, olhava-a intensamente.

A semana passou e as duas perceberam que tinham saído muito pouco do apartamento. Ana ia para o bar, tocava e voltava rapidinho pra casa. Naquela semana, dera uma folga a Luis. Queria aproveitar os últimos dias morando com a loira.

Helena fez o mesmo. Ficou em casa o tempo todo. Estava adorando gastar tanto tempo com Ana. Definitivamente, a semana não fora produtiva em termos de trabalho. Mas estava amando a atenção que a morena lhe dispensava. Ana tinha tomado para si a tarefa de cozinhar, já que estava de folga. Mas assim que deixava a sala, Helena ia atrás dela na cozinha. Acabavam cozinhando juntas.
Falavam sobre tudo. Riam juntas. Compartilhavam as mínimas coisas.