Quando entrou, Helena não conseguiu segurar as lágrimas. Ana estava inconsciente. Vestia aquela roupa de hospital: um vestidão folgado que ia até os joelhos. O rosto tinha vários hematomas, principalmente na região de um dos olhos e havia pequenos curativos no supercílio. Havia também um pequeno corte no lábio superior e o pescoço também tinha hematomas. A expressão no rosto de Ana era tranqüila. Provavelmente estava sedada.
Helena aproximou-se do leito e teve que controlar o impulso de abraçar a morena. Segurou-lhe uma das mãos, inclinou-se e beijou-lhe a testa – um dos poucos lugares no corpo de Ana que não parecia tão machucado. Passou-lhe a mão pelos cabelos.
- Pensei que tinha te perdido – disse baixinho soluçando.
Ficou olhando para o rosto de Ana.
Leonora chegou mais perto e abraçou Helena.
- Ana vai ficar bem. – disse com voz suave, beijando os cabelos da filha.
Helena fechou os olhos. E o punho.
- Estou com tanta raiva, mãe! – disse contendo a voz.
- Eu sei, Helena. Também estou revoltada.
- Se eu puser as mãos em quem fez isso...
- Olha, meu amor... – Leonora virou o rosto da filha para si. – O que nós temos que fazer agora é agradecer a Deus porque Ana vai ficar boa. Poderia ter sido pior.
- Ela não merece isso. Não fez nada pra ninguém!
- Ninguém merece isso, Helena.
- Eu tô tão triste, mãe. Queria que fosse eu no lugar dela.
- Eu sei, meu amor, eu sei.
*****
Ana abriu os olhos algumas horas mais tarde e a primeira pessoa que viu foi Helena. Sorriu. E ao fazê-lo entendeu que estava machucada: sentiu o ferimento no lábio superior. Deu-se conta de que sentia dor em outras partes do corpo também.
[Estou no hospital. O que aconteceu?]
Tentou lembrar-se do ocorrido e sua última memória foi a de três homens cercando-a. Lembrou-se do espancamento. O corpo tensionou-se involuntariamente. Sentiu um nó no estômago ao revisitar a sensação de medo daquela noite na rua. Na verdade, algo estranho aconteceu: ao lembrar-se do que tinha acontecido, sentiu medo. Sabia que estava no hospital e a salvo, mas o coração começou a bater mais rápido e a respiração foi se alterando. Lembrou-se dos golpes, da dor, da maldade nos olhos dos seus agressores quando lhe batiam.
Nesse momento, Helena levantou os olhos e viu que Ana estava acordada. Percebeu-lhe a inquietação.
- Ana! – disse chegando mais perto.
Helena envolveu-lhe a cabeça delicadamente com os braços e beijou-lhe o topo da cabeça.
- Shhhh... eu estou aqui. Não vou deixar ninguém te machucar.
Os olhos de Ana estavam cheios de lágrimas. Mas o abraço de Helena a acalmou.
A loira beijou-lhe a testa e olhou-a nos olhos.
- Você está a salvo agora – disse com um sorriso.
Mas Helena também estava segurando as lágrimas. Não suportava ver Ana sofrendo. Sentia uma mistura de alívio, tristeza e raiva. E acima de tudo, ainda não tinha se acostumado com os hematomas e ferimentos no rosto da morena.
- Você me deu um susto – Helena ainda tentava manter o sorriso. Estava tremendamente aliviada por ter Ana de volta.
Nesse momento uma enfermeira entrou no quarto para checar a temperatura de Ana e administrar uma nova dose de analgésicos.
- Como está se sentindo? – perguntou.
- Dor – respondeu Ana com voz cansada.
- O efeito dos analgésicos deve estar passando.
A enfermeira terminou o que tinha que fazer e aproximou-se de Helena:
- Não a force a falar muito. – disse baixinho. – Os ferimentos são doloridos.
Helena não conseguia tirar os olhos do rosto de Ana. Estava tão feliz em tê-la de volta que não conseguia conter as lágrimas. Estava emocionada e grata por saber que Ana estava acordada.
Leonora apareceu nesse instante e ao ver que Ana estava acordada, aproximou-se da morena e beijou-lhe a cabeça.
- Que bom que acordou, minha filha – disse com um sorriso. – Vai ficar tudo bem.
Ana apenas sorriu. Estava feliz por causa da companhia das duas. Mas sentia-se cansada. Adormeceu novamente.
*****
Ana acordou várias horas depois. Já era noite lá fora e o quarto também estava escuro. Correu os olhos e encontrou uma figura loira estirada sobre a poltrona do outro lado. Sentiu alívio; não queria estar sozinha.
Estava com muita sede, mas não quis acordar a loira. Ao seu lado, encontrou um tipo de controle remoto e deduziu que poderia chamar a enfermeira. E assim fez.
Dentro de alguns segundos, uma moça de branco entrou no quarto. Helena acordou.
- Sim, você chamou? – perguntou a enfermeira.
- Estou com tanta sede! – disse Ana baixinho.
A moça sorriu e disse:
- Eu já volto com água pra você. Só um minuto.
E saiu.
Helena aproximou-se da cama. As duas sorriram.
- Oi – Helena disse baixinho.
- Oi loira – Ana falava com dificuldade.
- Senti sua falta, Ana.
- Também.
- Como está se sentindo?
- Sinto dor. – respirou fundo. – Mas não muita.
- Ainda está sob efeito dos remédios.
- Vou viver? – perguntou com um sorriso.
Helena ficou feliz em ver o bom humor de Ana.
- Vai. – beijou-lhe o rosto com cuidado.
- Inteira ou amputaram alguma parte?
- Inteirinha.
Sob a penumbra do quarto, Ana ainda podia ver a intensidade do verde dos olhos de Helena.
A loira olhou-a bem nos olhos e disse num sussurro:
- Inteirinha só pra mim.
Ana não esperava aquela resposta. Sentiu o costumeiro arrepio tomar conta do seu corpo. Mesmo em meio à dor, seu corpo reagiu à proximidade de Helena do jeito que estava acostumado.
A enfermeira interrompeu o clima entre as duas ao entrar com a água.
Ana bebeu e a moça retirou-se.
- Você precisa descansar. E a enfermeira me disse que falar é dolorido pra você. Por isso, não quero que tente conversar. – Helena passava a mão nos cabelos de Ana. – Eu vou ficar por aqui se precisar de alguma coisa.
- Tá...
- Mas eu queria te dizer uma coisa...
- (...)
- Eu pensei que não fosse te ver de novo. – segurou uma das mãos de Ana. – E me desesperei. Eu não consigo mais imaginar minha vida sem você, Ana. Porque você é tudo pra mim. Sempre foi. E sempre vai ser.
Os olhos de Ana encheram-se de água.
Helena inclinou-se e encostou seus lábios nos lábios de Ana.
- E eu te amo mais do que tudo.
Ficaram assim no escuro por algum tempo sem falar nada. Não precisavam de palavras. Falavam uma linguagem silenciosa que dizia mais do que qualquer frase.
Ana, cansada, acabou dormindo logo.