23 dezembro 2006

Capítulo LXVII

Ana estava a caminho do bar. Embora a maioria dos motoristas detestasse dirigir no fim da tarde em São Paulo, ela não se importava. Não se incomodava com a pressa dos demais. É claro, sua rotina de trabalho estava começando e não encerrando-se, como era o caso da maioria. Estava descansada, sem pressa e pronta para a sessão no bar. Mas conseguia relaxar ao volante principalmente porque aproveitava para pensar em outras coisas que não fossem o trânsito. E havia muito o que pensar. Agora, por exemplo, tentava entender que diabos estava se passando na mente de Oliveira.

[Não faz sentido nenhum!] Primeiro ele a convence de que havia algo a mais na agressão daquela noite. Depois age como um idiota quando ela explica que ainda está sendo seguida. O que ele está escondendo? E porquê?
E porque diabos continuam a segui-la? O que querem esses caras?
Isso soa mesmo como uma coisa planejada. E a única coisa que serve como possível explicação é o dossiê que Helena tinha tido em mãos. Será que alguém a estaria usando para evitar que Helena tornasse os documentos públicos? Mas então porque não entraram em contato?

[Espera aí! Quem disse que não entraram em contato? Helena disse isso. Mas a loira não estava sendo exatamente honesta com Ana ultimamente. Poderia muito bem estar mentindo.
E porque mentiria? Talvez ela não saiba mesmo de todos os fatos.
Ou talvez esteja mentindo mesmo.]

Com a cabeça cheia de perguntas sem respostas, Ana estacionou o carro.
Desligou o motor e respirou fundo.
Olhou em volta e viu o carro de Luís.

*****

- Quando foi isso? – perguntou Oliveira enxugando o suor da testa.
Do outro lado da linha, Helena tentava explicar o que tinha encontrado ao chegar em casa naquele fim de tarde.
- A porta estava aberta, mas não arrombada. Não roubaram nada, nem fizeram bagunça. Acho que estavam mesmo é atrás de uma cópia dos documentos.
- Ou talvez quisessem apenas assustá-la – observou Oliveira – mostrando que podem entrar em seu apartamento.
- Sim, mas eles tentaram acessar meu computador.
- E...?
- Não há nada aqui. Tenho uma cópia eletrônica do material escaneado e também das gravações. Estão no laptop que estava comigo.
- Conversou com o porteiro?
- Sim, ele não se lembra de alguém tentando entrar. Na verdade, está mais assustado que eu. Tem medo de perder o emprego.

Oliveira estava preocupado. Ficou em silêncio por um momento. Embora Helena não tivesse apresentado denúncia alguma ou procurado a imprensa, os bandidos pareciam preocupados. E a única coisa que tinha mudado era o fato de Ana ter decidido viajar. Seus encontros com Helena tinham sido bem cuidadosos – não havia porque desconfiarem de que a loira tinha procurado a polícia.
Então como poderiam saber da viagem? Estaria alguém passando informações a respeito da vida de Ana para eles?

Oliveira desligou o telefone e chamou um dos policiais da sua equipe.
- Juarez, preciso que você fique de olho em alguém pra mim nos próximos dias.

Helena deitou-se no sofá. Fechou os olhos. Estava começando a se encher daquilo tudo.

*****

Ana preparou o violão. Ainda tinha alguns minutos antes de começarem, então foi atrás de uma bebida.
- Você está linda hoje – Luís disse, abraçando-a pela cintura, junto ao balcão do bar.
Era interessante como conseguia “ler” o olhar dele. Sabia o que ele queria.
- Obrigada – respondeu.
- Quer fazer alguma coisa depois? – ele perguntou.
- Hmmm... você sabe... fica bem tarde.
- Eu espero.
- Não sei, Luís...
- Fazemos assim... eu fico por aqui e a gente conversa. Se você não estiver tão cansada no final, podemos ir a algum lugar.
- Tudo bem... – ela disse.
Ele chegou mais perto e disse ao seu ouvido.
- Você sabe... – ele disse – senti tua falta, Ana.
Ana sorriu.
[Sutileza não é teu forte, Luís. Eu sei o que você quer.]

*****

[Eu sabia que ela viria, hoje. Meu Deus, como ela tá linda!]
- Oi Helena – Aline não conseguia esconder o sorriso.
- Oi Aline – Helena respondeu – virou freguesa do bar, hein?
- É... Aqui é bem legal. [Além disso, eu tava louca pra te ver.]
- Que bom te achar aqui, garota. [Preciso mesmo de uma companhia como você depois do dia que eu tive.]
Helena sentou-se com Aline e começaram a conversar. Helena, porém, não tirava os olhos do palco.

*****

Ana tentava disfarçar, mas não conseguia tirar os olhos de Helena e Aline. De vez em quando encontrava o olhar da loira. [Porque tanta risada? E porque Helena tem que vir me provocar logo aqui onde eu trabalho? Que inferno!]
A morena estava tentando esconder a irritação e no intervalo foi atrás de uma bebida.
- Oi... – Júnior era todo sorriso – Posso te pagar uma bebida?
- Oi, Júnior – Ana sorriu de volta. – Como estão as coisas?
- Agora que você está aqui falando comigo, estão melhores – Ele tinha os olhos fixos em Ana.
Ana pegou a cerveja e balançou a cabeça sorrindo.
- Você não desiste, não é? – disse.
- Você não me leva a sério...
- Júnior... – Ana começou.
- Ei... tudo bem... – ele interrompeu. Com o canto do olho viu Luís que os observava de uma das mesas.
Sorriu pra ela e disse:
- Você está ocupada hoje. Só te pago uma bebida.
Aproximou-se de Ana.
- Mas eu vou querer você só pra mim qualquer hora dessas.
Deu-lhe um beijo no rosto e saiu.
A morena ficou olhando-o ir.
[Pelo menos eles não insistem muito...]

Ana sentou-se num banquinho próximo ao balcão. Fechou os olhos e respirou fundo. Queria ir logo embora pra casa.
Seu coração deu um pulo quando ouviu a voz conhecida atrás de si, bem próxima do seu ouvido:
- Todo mundo quer um pedaço da violonista...
[Odeio esse efeito que ela tem sobre mim.]
Helena estava irresistível. Mostrando generosamente pernas, decote e pescoço.
- Helena... – a morena disse o nome apenas para senti-lo na boca.
Helena chegou bem perto, olhou-a nos olhos e disse:
- Senti sua falta, Ana.
[Eu também.]
- O que você quer? – Ana perguntou.
Helena não entendeu o mau-humor de Ana.
- Porque está tão irritada, Ana? – quis saber.
- Não tenho mesmo razão pra estar muito louca com você?
Helena não disse nada.
- O que você acha, Helena? Você e sua... sua... namorada...
- Ei! – Helena interrompeu. – De que diabos você está falando? Aline é minha amiga.
- Amiga? Você nem conhece a garota direito!
- Você está com ciúmes... – Helena disse. Parecia surpresa
- Não estou! – Ana protestou.
A loira falava baixo, mas tinha um tom firme.
- Se alguém deveria ter ciúmes aqui, – Helena chegou mais perto – essa pessoa sou eu. É você que tem dois caras querendo te levar pra cama.
Ana ainda estava irritada, mas tentou não sorrir. [Ainda bem que você não sabe do terceiro.]
- A diferença... – disse encarando a loira e falando igualmente baixo – é que eu, ao contrário de você, não faço nada. Agora com licença que eu tenho que voltar a tocar.
Helena ficou sem entender direito. [O que foi que eu fiz?]

*****

Enquanto os músicos tocavam, Luís aproximou-se de Júnior.
- Qual é a tua? – perguntou sem tirar os olhos do palco.
Júnior sorriu e disse:
- Ela – disse olhando para Ana.
Voltou-se para Luís e perguntou:
- E a tua, qual é?
- Não deu pra perceber ainda, não?
Júnior ficou intrigado.
- Mudou de lado agora?
Luís pensou e disse:
- Ela vale a pena.
- Não acredito em você.
Luís sorriu e retrucou:
- Não estou interessado no que você pensa.
- E no que ela pensa? – Júnior tinha aquele sorriso provocante. – Está interessado?
Luís levantou as sobrancelhas.
- Está me ameaçando?
- De modo algum. Mas não posso deixar você brincar com ela – disse Júnior.
- Não estou brincando. Isso é mais sério do que você pensa. – sorriu. – Porque você não tira seu time de campo?
- E porque faria isso? – quis saber Júnior.
- Porque não tem chance nenhuma.
- Isso... – Júnior ficou sério – não cabe a você decidir.
Saiu dali e foi conversar com um grupo de amigos numa outra mesa.

*****

No intervalo seguinte, Mel e Marcos sentaram-se com João.
- Ana te falou que marcamos a data do show? – Marcos perguntou.
- Não falou, não – respondeu João.
- Ana está com a cabeça na viagem – disse Mel sorrindo.
- Vai ser na terceira quinta-feira de abril – Marcos explicou.
- Sem problema – disse João. Pensou um pouco e perguntou:
- O que vocês vão fazer quando ela for embora? Volta o Rubão?
- Acho que não... – Marcos disse – o Rubão não dá tanto ibope.
- Entendi... – riu João. – vocês querem mais que um violão.
Desta vez foi Marcos quem riu:
- Aí que você se engana. Queremos é um violão mesmo.
- É claro... um violão que agradasse o público feminino seria ótimo também – disse Mel encarando João.
João não entendeu que Mel referia-se a ele. Então Marcos deu a dica:
- A Mel está falando de você, João!
- Aaaaaah! – ele riu meio sem-graça.
Nesse momento Ana juntou-se ao grupo. Depois de discutirem alguns detalhes do show, Marcos e Mel foram cumprimentar outros amigos no bar.
- Fazia tempo que não te via tão empolgada com alguém – Marcos disse baixinho à Melissa ao levantarem. – É sério isso?
- Não queria me envolver, Marcos, – ela disse – mas não consegui evitar.
- E qual é o problema? Ele me parece um cara super legal.
Melissa respirou fundo.
- Olhe como ele olha pra Ana.
Marcos olhou de volta para a mesa. João e Ana conversavam animadamente.
- Ele está totalmente apaixonado por ela – disse ela sem conseguir esconder a tristeza.

*****

Helena sabia que não estava sendo boa companhia naquela noite. Nem estava tentando ser. Não conseguia disfarçar o mal-estar que sentia cada vez que uma companhia masculina se aproximava de Ana.
[Que droga! Não largam do pé dela.]
Ana estava mesmo incrível naquela noite. Não era nem preciso mencionar como ela era sexy tocando violão. O jeito meio tímido combinado com aquele jeito atencioso de conversar... [Não há como não se apaixonar por ela.]
[Pelo menos agora está conversando com João agora.] São amigos.
Aline a observava com atenção. Bebeu da cerveja e disse:
- Eu também acho.
Helena saiu do seu transe:
- Acha o que?
- Acho que ele está a fim dela.
Helena balançou a cabeça.
- Imagina! [Que idéia!]
Quem chegou interrompendo a discussão nesse momento foi Júnior. Tinha um sorriso enorme nos lábios e sem dizer uma só palavra já estava irritando profundamente a loira.
- Fala, Júnior – Helena disse impaciente.
- Oi Helena – ele respondeu – como estão as coisas?
Voltou-se para Aline:
- É Aline, não é?
- Sim – ela respondeu. Também estava observando-o com atenção.
- Só vim falar um ‘oi’. Adoraria continuar a conversa – mesmo sabendo que atrapalho – mas tenho que pegar a estrada de manhã.
- Vai pra onde? – perguntou Helena.
- Você sabe... trabalho.
- E onde é que você trabalha? – perguntou Aline.
- Santo Inácio.

Capítulo LXVI

Ana ainda estava tentando entender porque tinha gostado do beijo, mas alguma coisa dentro da morena gritou dizendo-lhe que deveria parar.
[Isso não está certo!]
Então, ela afastou-se de João.
- João... – disse sem conseguir olhar nos olhos dele – A gente não devia fazer isso...
- Porque não, Ana? – ele quis saber – Você correspondeu ao beijo...
Ana não disse nada; ele estava falando a verdade.
- Eu não consegui resistir... – Ele disse – Tenho pensado tanto em você... – Ele suspirou. – Eu acho que...
Ana não deixou que ele terminasse. Delicadamente colocou a mão na frente dos lábios dele para que se calasse.
- João... você está confundindo as coisas... olha, nós dois estamos meio carentes... você terminou com a Helena há pouco e eu...
Ana parou no meio da frase. Percebeu que havia cometido um erro: não tinha como terminar o que estava dizendo.
- Você...? – ele ficou curioso – Existe outra pessoa?
[Melhor não mentir pra ele.]
- Sim, tem outra pessoa, João.
- Posso saber quem é?
Ana não respondeu. Apenas desviou o olhar e respirou fundo. Queria entrar logo em casa e encerrar a conversa.
- Eu conheço? – João quis saber.
- N-não – Ana não conseguiu parecer tão convincente.
- Então porque não quer dizer?
- Não posso, João – ela respondeu.
Ele encarou-a e disse com um suspiro.
- Então é porque eu conheço.
- João... – disse – deixa isso pra lá... Olha... você é meu amigo e é assim que eu quero que continue.
- Mas você gostou do beijo... – ele disse.
- Sim, gostei... – ela respirou fundo. – Mas e daí?
Com a reação de Ana ao seu beijo, João tinha se enchido de esperança e nem remotamente pensava em desistir da morena. Mas entendeu que ela estava confusa e preferiu não insistir.
- Tudo bem... – ele concordou. Olhou-a nos olhos, colocou uma das mãos no rosto dela – Conversamos outra hora.
Ela colocou a própria mão sobre a dele e olhou de volta. [Se você estivesse só a fim de curtir e eu não gostasse tanto de você, eu juro que encarava...]
Então disse:
- João... é melhor a gente esquecer o que aconteceu.
[Nem pensar, Ana]
Ele deu-lhe um beijo no rosto e disse:
- Boa noite, Ana.
- Boa noite, João – Ana respondeu e entrou.

*****

Helena ajeitou-se na cadeira. Olhou séria para Oliveira e perguntou:
- E o que foi que você descobriu?
- Antes de dizer, gostaria de ouvir de você o que descobriu com o seu exame dos papéis e da gravação.
- Hmmm... deixa eu ver... basicamente que há um esquema de corrupção acontecendo na prefeitura de Santo Inácio. Esse esquema envolve irregularidades nos processos de licitação. Preços em contratos que foram superfaturados. E a pessoa que reuniu aquilo tudo teve o cuidado de incluir comprovantes de depósitos e sempre parece haver um depósito alguns dias após um contrato. Outra coincidência: valores mais altos nos contratos equivalem a depósitos de valores mais altos.
- O que mais? – quis saber Oliveira.
- Bom... tudo parece indicar que a secretária do governo está envolvida. Ela parece estar por trás de cada contrato fechado pela prefeitura.
- Sim... Dra. Vera Queiroz.
- Eu dei uma investigada por cima nela.
- E...?
- Pessoa muito influente na região, muito próxima do prefeito e de outros políticos. Hmmm... que mais? – Helena tentou lembrar do que tinha pesquisado. – Fez carreira como médica e é dona de um patrimônio invejável. Ela já foi casada, mas separou-se e o marido mora no exterior. Tem um casal de filhos...
- Sim... bate com o que nós descobrimos.
Ele ficou em silêncio. Helena sorriu:
- Mas é claro que você já sabe muito mais que isso...
Oliveira sorriu de volta.
- Sim. Descobrimos que o esquema na prefeitura é apenas uma parte de uma estrutura maior... apenas a ponta do iceberg de uma organização.
Oliveira respirou fundo.
- Há muito dinheiro em jogo, dinheiro esse que movimenta outros negócios ilícitos. Acreditamos também que há até policiais da cidade envolvidos num esquema que já resultou em outras vítimas.
- Vítimas? Quer dizer... alguém morreu?
- Suspeitamos que sim. Depois que os documentos foram enviados para o seu amigo César, um funcionário da prefeitura desapareceu. Talvez essa pessoa tenha montado aquele dossiê.
Helena ficou muito séria. Estava pensativa.
- E essa tal de Vera é a cabeça de tudo isso?
- Parece que tudo nos conduz a ela. E um detalhe importante: esses documentos são a única coisa que liga algum tipo de irregularidade à pessoa dela.
- Por isso estão com medo de que haja uma denúncia. O que vai fazer? – perguntou a loira.
- Essa gente é muito perigosa, Helena, e parece disposta a fazer de tudo para proteger o esquema deles.
- Já percebi... Mas podemos fazer a denúncia, certo?
- Uma denúncia com certeza complicaria as coisas para o lado dessa Dra. Vera, mas é algo que o ministério público vai investigar tomando por base os documentos que você vai apresentar. Não tenho como provar que as irregularidades na prefeitura estão diretamente relacionadas ao ataque à Ana, que é do que trata a minha investigação. Ainda não conseguimos encontrar os homens que fizeram aquilo e não sei se vamos conseguir fazê-lo.
- Está me dizendo que não há nada que possamos fazer pra pôr aqueles desgraçados na cadeia?
Ele não respondeu. Ficou em silêncio por um momento e então disse:
- A menos que eles voltem a agir.
- E porque fariam isso agora?
- Ana Maria pretende deixar o país em dois meses...
- E...?
- Bem... ela é a única coisa que dá a eles algum controle sobre você.
- Não sei se entendi...
- Com Ana sob a proteção de Guimarães e os seus homens, os bandidos não podem tocá-la e com a perspectiva da viagem dela para os Estados Unidos... – Oliveira parecia preocupado – esses caras vão vir atrás de você, Helena.
Helena mexeu-se na cadeira outra vez.

*****

Ana deitou-se na cama com a cabeça a mil. Não conseguia parar de pensar no beijo de João. Sentia-se estranha. [Droga! Esse beijo mudou tudo entre a gente.] Teria sido mais fácil se não tivesse gostado. Porque tinha gostado? Não se comparava com o que experimentara com Helena, mas havia algo especial.
[A verdade é que eu gosto muito dele.]
Outra razão para que as coisas parassem onde estavam.
[Não posso ser leviana com ele.]
Seria tudo isso carência? Seria algo mais? Será que não havia um gosto de vingança nisso tudo? Afinal de contas, tinha sido rejeitada por Helena.
[Droga, quando é que Helena vai deixar de ser essa sombra onipresente na minha vida?]
Ana percebeu que não eram apenas as ações da loira metendo-se em sua vida que influenciavam o que lhe acontecia. Ela própria parecia tomar boa parte das decisões pensando na loira. Reagia à Helena. Por exemplo, envolvera-se com Luís porque queria esquecê-la. E estava decidindo sua carreira acadêmica pelo mesmo motivo. Tanto ao recusar a bolsa, quanto agora ao aceitá-la, fazia tudo em função de Helena.

Não queria mais pensar nela. Tentou lembrar de outra coisa. Pensou nos homens que a seguiram. [O que querem de mim?] Porque alguém está interessado em me prejudicar? Ou mesmo acabar com a minha vida?
Lembrou-se da conversa com Oliveira. [O que foi aquilo? Ele está agindo como um idiota. Mas não faz sentido porque eu sei que ele é mais esperto que isso.]
Lembrou-se da conversa que tivera com ele ainda no hospital. Ele tinha insistido tanto na idéia de que alguém estava lhe dando um aviso. [Aviso pra quem?] Parecia fazer sentido.
Será que não tinha se precipitado ao descartar uma relação com o dossiê que Helena investigava?

Queria mesmo era conversar com alguém sobre isso. Mas quem?

*****

Duda e Ana almoçavam juntas num restaurante perto da clínica da psicóloga.
- Vai me dizer que não está nem um pouquinho empolgada? – Duda perguntou.
- Hmmm... empolgação não é exatamente o que eu estou sentindo, Duda – Ana disse.
- Mas, Ana... essa é uma chance incrível!
- Eu sei... e é muito legal mesmo, mas eu trocaria essa oportunidade por uma chance com ela.
- Ana... acho que você está certa em aceitar essa bolsa.
- Eu amo Helena, Duda. É com ela que eu quero ficar.
- Eu sei, mas...
- Tudo bem... – Ana disse – Demorou pra cair a ficha, mas eu entendi o recado. Ela não está a fim de assumir nada comigo.
- Ana... dê uma chance à Helena... Ela vai cair em si. [Que vontade de contar tudo!]
- Eu dar uma chance, Duda? – Ana estava tentando conter a indignação. – Ela é que não me deu chance nenhuma!
Ana deu um suspiro.
- E eu desconfio que no fundo ela quer mesmo que eu vá embora.
- Porque diz isso? – Duda perguntou.
- Ela insiste em achar que sabe o que é melhor pra mim. Está pensando que eu não deveria desistir da bolsa.
Balançou a cabeça e completou:
- Ela e essa mania idiota dela de bancar minha mãe!
- Ana... a Helena ama você como nunca amou ninguém.
- Se ela me amasse mesmo, Duda, nada disso importaria.
Esboçou um sorriso triste e disse:
- Mas a verdade é que ela não me ama o suficiente.
As duas ficaram em silêncio. Duda resolveu falar de outra coisa.
- Você parece totalmente recuperada, Ana. Ainda sente dor?
- Quase nenhuma, Duda. Só quando faço certos movimentos. Mas estou bem. Pronta pra outra – disse com um sorriso.
- Outra? – Duda espantou-se. – Que é isso, Ana, tá maluca?
- Tô brincando, amiga... – Ana ficou séria. – Mas... se eu te contar que estavam me seguindo na sexta de madrugada...
- O quê??! – Duda não acreditou no que ouviu.
Ana, então, contou o episódio em que despistara o carro que a seguia.
- Contou pra alguém sobre isso? – quis saber a psicóloga. [Meu Deus! Helena sabe disso?]
- Contei pro policial que está investigando o caso do ataque. Mas sabe de uma coisa? Foi uma conversa bem estranha que tive com ele...
Ana contou da estranha falta de interesse do policial ao que tinha lhe acontecido.
Duda também ficou sem entender.
- Que coisa estranha, Ana. E pra Helena? Contou alguma coisa?
- Não – Ana fechou a cara.
- Ainda está muito magoada com ela, não é?
Ana lembrou-se do beijo de Helena em Aline.
- Não quero nem falar disso, Duda. Aliás – disse tomando do suco. – Que tal se a gente deixasse a loira fora desse nosso almoço?

*****

Na manhã de quarta-feira, dois homens aproximaram-se da portaria do prédio onde Helena morava, pedindo informações a Seu Andrade. Os dois homens, bem vestidos e educados, chegaram e posicionaram-se de modo a bloquear o espelho que mostrava ao porteiro a entrada da garagem. Um carro entrava na garagem neste momento. Desta vez, no entanto, o porteiro não percebeu quando um terceiro homem aproveitou o portão aberto e entrou logo atrás.
O homem rapidamente procurou as escadas e dirigiu-se ao apartamento de Helena.

Capítulo LXV

A loira recobrou-se do susto e resolveu encarar o primo. [Ele não deve ter visto nada ou já teria falado alguma coisa...]
- Do que é que você está falando, Júnior? – perguntou.
- Daquela amiguinha do Hugo que não tirava os olhos de você... – ele respondeu.
Helena tentou não demonstrar o alívio que sentiu ao confirmar que Júnior não falava de Ana.
- Você está exagerando, Júnior – disse. – A gente mal conversou. Além disso ela tem namorado.
- Eu não disse que rolou alguma coisa – ele explicou. Então fez uma cara maldosa. – Embora ninguém possa realmente dizer...
Helena não tinha certeza sobre o que era mais irritante: se o tom de voz dele, cheio de insinuações; se ele mesmo e o súbito interesse que demonstrava por Ana; ou se o assunto em si.
- E você tem algum problema com isso? – perguntou Helena sorrindo.
- De jeito nenhum, de jeito nenhum... – Júnior respondeu rindo – Muito pelo contrário...
- E você, Helena? – perguntou Flávio – assumiria um relacionamento com uma mulher?
Helena ficou séria. Duda também ficou curiosa.
- Eu acho que nos apaixonamos por pessoas – disse a loira. – E essas pessoas podem muito bem ser pessoas do mesmo sexo.
- Hmmm... você ainda não respondeu à pergunta do Flávio... – observou Júnior todo sorrisos.
Helena encarou o primo e disse:
- Se eu descobrisse que uma mulher é a pessoa que vai me fazer feliz... não pensaria duas vezes, Júnior.
- Hmmm... – ele disse recostando-se na cadeira. – Desconfio que o namorado da garota já dançou nessa...
- E então, Duda? – Helena perguntou, ignorando o comentário do primo e tentando mudar de assunto – Está tudo pronto para o jantar de noivado na semana que vem?

*****

Na segunda-feira pela manhã, Ana ligou para Oliveira.
- Lembra que você me pediu para avisá-lo se alguma coisa acontecesse? – Ana perguntou. – Então... na madrugada de sábado eu fui seguida por um carro.
- Ah... por favor conte-me exatamente o que aconteceu – ele pediu.
Então Ana narrou o que tinha acontecido, contando com orgulho da sua estratégia para despistar os bandidos.
- Hmmm... – ele disse ao fim da história – e tem certeza de que eles não voltaram a segui-la?
- Sim, sim... eles me perderam de vista.
- Poderia identificá-los? – quis saber Oliveira.
- Ta brincando? – disse Ana – Não deu pra ver nada.
- Que pena...
Ana estava um pouco frustrada com a resposta do investigador. Esperava que ele dissesse algo a respeito de sua manobra para despistar os homens. [E tudo o que ele quer é um retrato falado?]
- Só sei que era mais de um. E o carro era uma caminhonete.
- Igual à do dia em que a atacaram?
- Não. Era outro carro. Mas não deu pra ver a cor.
O homem ficou em silêncio do outro lado da linha. Ana não sabia o que dizer.
- Seu Oliveira? [Porque ele não fala nada?]
- Ah... hmmm... sim... estou aqui. Estou pensando.
Então ele disse:
- Olhe, Ana Maria, quero que tome muito cuidado ao sair. Estou preocupado com sua segurança.
[Demorou tanto pra me dizer isso? Eu também estou preocupada, ora bolas! Por isso mesmo liguei!]
- E agora o que é que eu faço? – quis saber Ana.
- Hmmm... não há muito o que eu possa fazer – o tom era como se ele estivesse se desculpando – Infelizmente não temos como alocar pessoal para protegê-la. Só posso lhe pedir que comunique seus horários à sua família e avise sempre onde está indo.
[Só isso? E se me atacarem de novo? E não está interessado em discutir quem seriam essas pessoas?]
- Ah, e carregue sempre seu celular – ele disse.
- Mas... – Ana começou a dizer.
- Tenho certeza de que nada vai acontecer. Mas precisamos tomar cuidado, não é mesmo?
[Meu Deus do céu! O que aconteceu com o sujeito preocupado e cuidadoso com quem eu conversei da última vez? É só isso o que ele vai dizer? Me desejar boa sorte?]
- Por favor, me avise se alguma coisa acontecer – ele pediu.
[Depois que me quebrarem no meio?]
- Ah... hmmm... [Deixa pra lá, acho que vou ter que me cuidar sozinha.] Tudo bem.
- Obrigado por ligar, Ana Maria. Bom dia.
- Hmmm... ah... bom dia...
Oliveira desligou o telefone e Ana ficou sem entender direito a atitude do investigador.

*****

Na segunda, Ana combinou de ir para o ensaio à noite com João. Não tinham se encontrado durante a semana e a morena estava um pouco ansiosa com a perspectiva de vê-lo.
O ensaio correu muito bem, o som do grupo estava ficando mais coeso e os músicos estavam totalmente envolvidos com o projeto do show; Melissa até participou um pouco mais do ensaio, muito mais ativamente do que costumava fazê-lo.

Ao final, João foi levar Ana para casa.
- Vou sentir sua falta, Ana – disse ele quando estacionaram na frente da residência dos Chagas.
- Eu também, João. Mas você sempre pode me visitar.
- É... eu poderia ir mesmo...
João estava mais quieto do que de costume e Ana não conseguia saber exatamente o que estava se passando com ele.
- Tem alguma coisa errada, João?
- Hmmm... não... – ele respondeu.
Ana não quis insistir, pois desconfiava que o silêncio do amigo tinha algo a ver com ela mesma. Não sabia exatamente como agir com ele. Sabia que ele a estava vendo com outros olhos, mas para ela, ele continuava a ser o amigo.
- Boa noite, João – disse ela abrindo a porta do carro.
- Espera... eu te ajudo – Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do lado dela.
Ana saiu do carro. João, então, disse:
- Olha queria agradecer de novo você ter me chamado pra tocar no show. Eu estou gostando muito mesmo.
- Não tem porque agradecer, João. Você está fazendo um excelente trabalho.
- Então boa noite, Ana – ele puxou-a para si num abraço, como sempre fazia.
- Boa noite – ela disse, correspondendo ao abraço.
Ana afrouxou o abraço, mas foi surpreendida por mãos firmes que a puxaram.
Então João puxou-lhe a cabeça delicadamente, chegou os lábios nos seus e a beijou.
Ana surpreendeu-se com o movimento dele.
Mas ficou ainda mais surpresa com a sensação agradável que o beijo lhe causou.

Capítulo LXIV

Flávio e Júnior conversavam na sala do apartamento de Duda.
- Você está bem interessado nela... – observou Flávio.
- Ah, isso não é novidade, Flávio. – respondeu Júnior rindo – Nunca escondi nada... Aliás porque ela não veio?
- Eu sei que Duda a convidou, mas acho que pintou alguma coisa... – disse Flávio.
Da sala mesmo, perguntou em voz alta para Duda, que conversava com Helena na cozinha:
- Por que Ana não veio, amor? – perguntou.
As duas, entretidas na conversa, estavam terminando os últimos preparativos para o almoço de domingo. Não tinham ouvido o papo dos dois.
Duda olhou para Helena e, da cozinha mesmo, respondeu para o noivo:
- Ela ia sair com o Luís. [Ela desistiu de vir quando eu disse que Helena viria também.]
Na sala, Júnior fez uma careta.
- Preciso dar um jeito nesse concorrente... – disse com um sorriso.
- E esse nem é o seu maior obstáculo – respondeu Flávio sorrindo.
- O que você quer dizer com isso? – quis saber Júnior.
- Hmmm... não te contaram a novidade ainda? – perguntou Flávio.

*****

- Então você vai mesmo para os Estados Unidos? – Luís perguntou antes de tomar um gole do vinho. Estavam num restaurante italiano do qual ele gostava muito e saboreavam um rondelli recheado com diferentes tipos de queijo, um prato que Ana não conhecia, mas estava achando delicioso.
Ele nem tentou esconder sua intenção de impressioná-la. Estava, na verdade, conseguindo.
Ana estava curtindo o almoço e a companhia dele. Luís parecia realmente interessado nela. Fazia perguntas e ouvia com atenção. [Pelo menos hoje ele quer saber algo mais do que a lingerie que eu estou usando.]
Ele tinha ligado no sábado e sugerido que almoçassem juntos. Ana recusara o convite de Duda para o almoço. Disse à psicóloga que não queria encontrar Helena. Duda não gostou muito, mas acabou entendendo.
- Se tudo der certo com o visto, sim... – a morena respondeu.
- E quando exatamente você viaja? – ele quis saber.
- Tão logo saia o visto... Coisa de dois meses.
- Puxa, tão rápido? – ele não escondeu a frustração.
- Eu poderia esperar mais... – Ana explicou. – Mas decidi que quero ir logo. [Não tenho mais razão pra ficar aqui.]

*****

- É verdade, Júnior... – disse Duda – Ana aceitou a bolsa da universidade na Califórnia. Deve viajar em uns dois meses. Achei que você soubesse...
- Não, não sabia – ele disse. Então abriu um sorriso. – Então tenho dois meses pra convencê-la a mudar de idéia?
Helena fingiu que não ouviu. Nunca levara a sério o interesse de Júnior por Ana, mas ele não parecia estar brincando. Decidiu mudar de assunto.
- Você está de carro novo, Júnior? – perguntou – Vi você chegando numa picape nova.
- Você viu só o brinquedo novo dele, Helena? – perguntou Duda. – Eu deveria ter sido advogada. Com o dinheiro da clínica nunca vou ter um carro daqueles.
Júnior apenas riu.
- É... mas não basta ser advogado... – Flávio explicou – tem que ser advogado de político.
- Não sabia que você tinha deixado a empresa de advocacia – Helena disse.
- Eu ainda presto serviço pra eles. – Júnior explicou. – Mas meu trabalho mesmo é como advogado principal de um pessoal de uma cidade do interior do estado.
- Tá feito, hein, Júnior? – brincou Flávio.
- Ainda não... – Júnior disse com um sorriso – Agora preciso da garota certa pra compartilhar tudo isso comigo.

*****

- Eu não entendo muito como funciona um doutorado por lá... é muito diferente daqui? – perguntou Luís.
- É basicamente como um emprego – explicou Ana. – Se você tem bolsa, a universidade te paga um salário pra você estudar. E à medida que você vai avançando no curso, você ajuda a custear os estudos ensinando na própria universidade, como assistente de um professor.
- E de repente você pode tocar por lá também, não? – ele perguntou.
- Hmmm. Ainda não sei, Luís... – Ana disse – Esses cursos de doutorado costumam ser bem puxados...
Então disse pensativa:
- Por outro lado, como eu não tenho dinheiro nenhum, talvez precise mesmo arrumar um trampo pra complementar a bolsa...
- E pra viajar, Ana? – quis saber Luís – Você está legal de grana?
- Vai ser bem apertado – Ana respondeu – Tenho umas economias, mas vou ter que encarar toda chance de trabalho que aparecer até a viagem.

*****

- E você, Helena? – perguntou Flávio – está solteira mesmo ou já partiu pra outra?
- Não estou com ninguém, Flávio – Helena não queria ter aquela conversa.
- Mas... – Júnior disse – Não é por falta de pretendente, não é, Helena?
- Não sei do que você está falando, Júnior. [Será que ele descobriu alguma coisa?]
Helena queria mudar de assunto outra vez. Olhou para Duda buscando ajuda. Duda nada disse.
- Ah é, Helena? Quem é o sortudo? – quis saber Flávio.
- Não é sortudo, Flávio – Júnior tinha um sorriso malicioso nos lábios.
Fez um suspense e então disse:
- Desta vez, a nossa pegadora aqui fisgou o coração de uma mulher.
Helena engasgou com o suco.

Capítulo LXIII

- Ei... calma, Ana! – disse Helena, surpresa com a reação – Só fiquei preocupada e vim ver onde você estava.
- Eu sei me cuidar. – disse Ana. – Por que essa obsessão em cuidar da minha vida?
Helena chateou-se com o jeito de falar da morena.
- O que você queria que eu pensasse? – respondeu – Quase te mataram há pouco mais de um mês e de repente você some! Imaginei o pior...
Ana sentiu-se mal com o que tinha dito. Tinha sido rude. E tudo porque estava chateada com a loira, porque não conseguia parar de rever a imagem do beijo dela em Aline.
Fechou os olhos e respirou fundo. Então encarou a loira.
- Por favor me diga o que quer de mim. [Não agüento mais esse seu jogo comigo.]
- Só fiquei preocupada porque você sumiu.
- Você sabe que eu não estou falando disso, Helena.
Helena deu um suspiro.
- Eu estou cansada... – disse Ana. – Você... você drena minhas energias.
Helena nada disse, então Ana continuou:
- Uma hora você me puxa pra perto e me faz pensar que me ama como eu te amo. – Ana conversava calmamente. – Outra hora você me trata como se eu fosse mais uma naquela lista de caras que você descartou.
Ainda tinha os olhos fixos na loira.
- Você me tratou do jeito que sempre tratou todos os homens com quem se envolveu, Helena.
Helena continuava calada.
- Sabe o que eu acho mais cruel? – Ana perguntou com um sorriso. – Você foi mais honesta com eles.
- Ana... – Helena tentou explicar.
- É verdade! – a morena tinha um sorriso amargo. – Pelo menos pra eles você nunca deu esperança nenhuma. Nunca falou de amor com nenhum deles.
Olhou Helena nos olhos e disse:
- Sabe de uma coisa? Parei com você, Helena. – o tom de voz ainda era calmo.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. Helena não tinha certeza do que tinha levado a morena a tomar uma decisão. Estava tentando entender. Por outro lado, não tinha argumentos contra o que ela lhe dizia.

Ana aproximou-se da loira. Helena podia sentir o calor do corpo dela. Ana, ainda olhando nos olhos dela, pegou-lhe uma das mãos. Abriu a palma, colocou alguma coisa dentro dela e fechou de novo. Então, ainda envolvendo a mão dela com a sua própria, disse:
- Não quero mais brincar disso.
Saiu deixando Helena ali em pé entre os túmulos.

Helena já sabia o que havia em sua mão. Abriu os dedos e olhou: era o anel que tinha dado à Ana.

*****

De volta à casa dos Chagas, Ana sentou-se ao computador e calmamente redigiu uma resposta ao e-mail da universidade americana. Depois de alguns minutos trabalhando no texto, enviou sua resposta.

Capítulo LXII

Helena olhou no relógio: três horas da tarde. Ana não tinha voltado ainda. A jornalista ligara várias vezes para Guimarães e ele não tinha nenhuma notícia da morena. Helena também tinha ligado para os músicos que tocavam com ela e tinha até falado com João. Ninguém sabia da morena.

Tentou acalmar-se, mas a falta de notícias a fez reviver a noite em que Ana fora atacada. Foi ficando cada vez mais ansiosa por não saber do paradeiro dela. [Onde ela se meteu?]
Precisava fazer alguma coisa.
Pegou as chaves do carro e saiu à procura da amiga. Nem tinha certeza de onde a procuraria. [Mas não posso ficar aqui esperando!]
Passou por vários lugares onde Ana costumava ir, mas não havia nenhuma pista dela.
Estava quase desistindo da busca quando uma idéia lhe ocorreu.

*****

Ana sentou-se no chão em frente ao túmulo e ficou ali abraçada às próprias pernas, descansando o queixo nos joelhos. Perdeu a noção do tempo. Naquele fim de tarde, não havia quase ninguém ali e o único som era o do vento soprando nas árvores altas que cercavam o cemitério. Os sons da cidade muito ao longe não interferiam com a paz do lugar.
A quietude daquele ambiente contrastava enormemente com o que se passava no coração dela. Por isso, vir ali tinha um efeito apaziguante. Além disso, Ana adorava o silêncio. Isso era particularmente interessante, já que, por profissão, trabalhava produzindo sons.

Mas acima de tudo, vinha ali para visitá-los. Fazia-o com freqüência, mas especialmente quando não estava bem. E não estava nada bem.
Não sabia qual rumo tomaria dali pra frente. Não tinha certeza do que fazer ou para onde ir.
[Queria que estivessem aqui pra me dizer o que fazer.]
Olhou para os nomes escritos nas duas lápides: Francisco e Lúcia dos Santos.
[Sinto tanta falta de vocês!] Os olhos encheram-se de lágrimas.
Lembrou-se do acidente. A culpa que sentia tinha diminuído com o decorrer dos anos. Mas ainda estava lá. Perguntava-se se algum dia deixaria de sentir-se responsável pelo que tinha acontecido.
[Se pelo menos eu tivesse ido com vocês naquele fim de semana...] Novas lágrimas surgiram.

“- Ana, por que não quer vir conosco? É só um fim de semana... domingo à tarde nós voltamos – disse seu pai.
- Eu sei... – Ana disse.
Não queria ir. Gostava da companhia dos pais, mas queria ficar e curtir o fim de semana com Eduardo, o namorado.
- Olha, pai – ela tentou argumentar – porque não vai e aproveita o fim de semana com a mamãe? Eu fico por aqui. Não vou ser boa companhia...
Seu pai abriu um sorriso...
- E quem vai dirigir? – ele perguntou.
Ana era a motorista da família. Seu pai não gostava de dirigir e ela ficava encarregada de levá-los a todos os lugares.
- Deixe a menina, Chico – disse a mãe.
- Ah, pai... – Ana tentou convencê-lo. – Só essa vez...
Ele não parecia muito feliz com a decisão de Ana, mas acabou se rendendo. Puxou Ana num abraço e disse:
- Tudo bem, filha. – deu-lhe um beijo na cabeça.

Francisco e Lúcia voltavam para São Paulo no domingo à tarde, quando ocorreu o acidente. O carro que ele dirigia bateu de frente num outro que vinha em sentido contrário. Os dois morreram instantaneamente.”

Alguém aproximou-se por trás de Ana. Ela nem precisou virar-se para saber quem era. Enxugou as lágrimas e ficou em pé.
- Não foi sua culpa, Ana – Helena disse, colocando os braços em volta da morena.
Ana desvencilhou-se do abraço, virou-se para a loira e perguntou sem conseguir esconder a irritação:
- O que veio fazer atrás de mim, Helena?

Capítulo LXI

Ana não sabia para onde estava indo. A cabeça estava a mil e pensou que, dirigindo, poderia acalmar-se. É claro, seu motivo para sair de carro àquela hora da madrugada era a necessidade que tinha de distanciar-se de Helena. Queria mesmo era que a distância física que agora tentava colocar entre ela e a loira, se traduzisse numa distância real entre a sua vida e a dela.
- Eu juro que vou te esquecer, Helena! – disse em voz alta.
Estava com raiva da loira. Mas não era apenas da loira que tinha raiva: tinha também raiva de todo o amor que tinha por ela.
Queria tirar aquele sentimento do seu peito. Queria odiar Helena. [Que patético! Nem isso eu consigo!]
Dirigia pelas ruas de São Paulo sem ter um lugar definido para ir.
Estava fugindo.

Então, olhando pelo espelho retrovisor, observou que um carro lhe seguia. Percebeu que, por mais voltas que desse, o carro continuava atrás do seu.
Ao invés de medo, sentiu raiva. [O que mais pode dar errado na minha vida? Traída pela pessoa que eu mais amo e com alguém na minha cola tentando acabar comigo!]
Pensou no que poderia fazer para livrar-se do carro que vinha atrás. Então teve uma idéia.

Primeiro, tratou de abrir certa distância entre os dois veículos. Não foi muito fácil, pois o motorista estava determinado e parecia saber o que fazia. O carro que a seguia manteve-se na sua cola por alguns minutos. Ana começou a ficar preocupada. No entanto, numa via rápida, Ana conseguiu o que queria e foi ajudada por alguns veículos que acabaram interpondo-se entre eles. Como conhecia bem aquela parte da cidade, procurou por uma rua residencial menos movimentada. Fez uma manobra rápida e entrou numa das ruas onde havia vários carros estacionados. Rapidamente estacionou seu carro próximo a dois outros veículos, desligou o motor, apagou as luzes e abaixou-se no banco do carro.
Ficou ali em silêncio, abaixada por alguns segundos, torcendo para que não a vissem.
Como previra, o carro que a seguia também entrou na rua em que estava e veio na sua direção. Ana prendeu a respiração.
Mas o carro passou direto pelo seu.

A morena ficou mais alguns minutos ali deitada no escuro. Seu plano tinha funcionado: nem sinal do outro carro.
Depois de alguns minutos, Ana deu partida no carro e saiu dali.

*****

No carro que seguia Ana, os três homens discutiam o que fazer.
- Não acredito que você deixou ela escapar! – disse o homem sentado no banco de trás.
- Eu estava na cola dela! – respondeu o motorista. – Não sei como ela pôde desaparecer!
Ele parou o carro e olhou para os outros dois.
- Quem vai ligar e avisar que ela escapou? – perguntou.
Ninguém queria dar o telefonema.

*****

Helena abriu os olhos. A ferroada veio violenta, antes mesmo de levantar-se da cama: uma dor de cabeça terrível. [Maldita hora em que eu decidi beber!] Os pequenos ruídos que vinham de fora do quarto àquela hora da manhã eram amplificados milhões de vezes dentro de sua cabeça. A luz que entrava pelo quarto também incomodava.
Estava deitada num dos quartos da casa e não fazia a menor idéia de como tinha vindo parar ali. Procurou por um relógio: onze horas da manhã.
Colocou-se de pé e descobriu que, além da cabeça, seu estômago também reclamava do excesso da noite anterior. Uma sensação mais forte de náusea a fez correr para o banheiro e despejar no vaso o que ainda havia no seu estômago.
Ficou ali sentada no chão do banheiro, esperando outra onda de náusea.
[Juro que nunca mais bebo tanto assim.]

*****

Quando Helena terminou seu banho e se trocou, já passava de uma da tarde. Depois de algum medicamento para aliviar os sintomas da ressaca e de um café que tinha se forçado a tomar, a loira sentiu-se um pouco melhor. Agora conseguia pensar em começar o dia. A cabeça, no entanto, ainda latejava. [Ainda bem que hoje é sábado.]

Procurou por Ana e não conseguiu encontrá-la em lugar nenhum da casa. O carro de João também não estava na garagem. No quarto da morena, encontrou o celular dela. [Talvez tenha saído bem cedo.]

Encontrou seu próprio celular e verificou que havia várias mensagens não respondidas e todas do mesmo número. Ficou preocupadíssima. Ligou imediatamente de volta e um homem atendeu.
- Guimarães! – a voz que respondeu era firme.
- Guimarães, sou eu, Helena. – disse a loira. – Você me ligou várias vezes... Me diga que está tudo bem com ela.
- Ah... então... dona Helena... – a voz já não era tão firme – Nós a perdemos de vista ontem.
- Como isso? – Helena tentou controlar sua ansiedade.
- Ela viu que estava sendo seguida e despistou a gente.
- Que horas foi isso?
- Por volta de duas da manhã... – ele disse.
[Meu Deus!!]
Helena respirou fundo.
- E não tem a menor idéia de onde ela esteja agora? – perguntou.
- Infelizmente, não – ele respondeu.
- Verificou em outros lugares? – Helena quis saber.
- Sim, fomos até o apartamento dela e também no bar. Ela não foi lá.
Silêncio. Helena estava nervosíssima.
Guimarães, então, explicou:
- Olha... nós a perdemos depois de algum tempo... e... não havia mais ninguém seguindo ela.
- Tem certeza disso?
- Positivo. Se nós não sabemos onde ela está, é bem provável que ninguém mais saiba.
[Menos mal.] Mas Helena ainda estava ansiosa e irritada com o homem.
- Guimarães, eu te contratei porque me disseram que vocês eram os melhores... Se alguma coisa acontecer a ela...
- Não paramos de procurá-la ainda, dona Helena – ele interrompeu. – Não vamos sossegar enquanto não acharmos a moça. Tente não se preocupar, assim que tivermos notícia, eu lhe aviso.
- Tudo bem... – ela respondeu. – vou ficar esperando.
Desligou o telefone.
Helena não tinha gostado nada da notícia. Mas também não queria arrumar confusão com Guimarães e os seus homens. Afinal, eles eram mesmo bons no que faziam. Mas estava preocupada com Ana. Era a primeira vez que a morena estava sem a proteção deles. E a loira sabia que quem tinha agredido Ana não hesitaria em tentar outra vez.

Capítulo LX

Aline não esperava por aquilo. Quando se deu conta do que Helena estava fazendo, quis afastar-se. Sabia que era a coisa certa a fazer. [Não sou eu quem ela está beijando!]
Mas seu corpo não obedeceu. Tinha se imaginado beijando a loira tantas vezes nos últimos dias. Simplesmente não conseguia tirar Helena da cabeça. Estava obcecada pela loira e não conseguia resistir ao contato com os lábios dela.
[Que se dane que ela está pensando em outra! Talvez nunca mais tenha outra chance como essa.]
Entregou-se ao beijo.
E foi um beijo muito sensual: quente, intenso, a loira colocando os braços em volta da nuca de Aline, buscando-lhe a boca com vontade. Teria sido perfeito se Helena não tivesse feito o que fez no final: ainda de olhos fechados, sussurrou o nome de Ana. Então, virou a cabeça de lado e caiu no sono.

*****

Ana não acreditava no que seus olhos viam. Ficou tão transtornada que não sabia o que pensar da cena.
Mas o choque inicial foi sendo substituído por dor e, então, por raiva. Muita raiva.
Nem esperou que o beijo terminasse. Saiu dali do mesmo jeito que entrara: sem ser notada. Pegou as chaves do carro de João e saiu portão a fora.
A única coisa que conseguia pensar era que tinha que afastar-se dali o mais rápido possível. Tinha que sair daquele ambiente impregnado por Helena, por tudo o que lembrava a loira.
[Fiz papel de idiota! Ela está brincando comigo.]
Entrou no carro e deu partida. Não sabia para onde estava indo. Só queria dirigir e sair dali. Queria tirar Helena da sua mente, do seu coração, da sua rotina, da sua vida.

Ana manobrou o carro e foi seguida de perto por um outro automóvel. Dentro deste, três homens observavam-lhe os movimentos.
- Se a perdermos de vista, vamos nos enrolar... – disse o homem sentado no banco do carona.
- Não se preocupe – disse o motorista – hoje ela não escapa.
O terceiro homem, sentado no banco de trás não disse nada. Acostumado com esse tipo de ação, tirou um objeto metálico de uma mochila.
Era um revólver carregado.

Capítulo LVIX

Helena nem mesmo tentou se levantar. Quando viu que alguém entrava na sala apenas levantou a cabeça para ver quem era.

- Oi Duda bicuda – disse, achando muita graça do próprio comentário.
Ana respirou aliviada.

A psicóloga entrou na sala e, ao ver as duas deitadas no sofá, balançou a cabeça negativamente.
- Interrompi alguma coisa? – perguntou rindo.
- Que susto você me deu, Duda! – Ana disse com o coração ainda acelerado.
Duda parecia achar muita graça da situação, não parava de rir. Na verdade, ria da cara de pânico de Ana.
- Sorte sua que eu tive um pressentimento e vim antes. – disse – Leonora está te procurando, Ana.
Helena também ria. Só Ana não achava muita graça. Conseguiu sair de debaixo da loira e ajeitou-a no sofá.
Helena de olhos fechados, puxou a morena para si mais uma vez e começou a beijá-la.
- Eu te amo, Ana – dizia com a língua enrolada.
A morena conseguiu desvencilhar-se dela e foi atrás de Duda para ver o que queria Leonora.

*****
- Ana! Preciso que me ajude – Leonora estava aliviada ao vê-la – Lembra-se daquele lugar em fomos juntas outro dia?
Vamos precisar de mais bebida e você é uma das poucas que sabe o endereço. Além disso quase ninguém está sóbrio o suficiente para dirigir. Por favor, pedi a Flávio e Júnior para irem com você, pode ir pra mim? Use meu carro.
- Claro, Leonora – Ana disse.
Pegou as chaves do carro de Leonora e saiu com os dois rapazes.

*****

Helena tinha caído no sono e acordou depois de algum tempo. Olhou à sua volta e nada da morena. Voltou à beira da piscina. Havia menos pessoas por ali, mas a festa parecia estar bem longe do fim.
A loira não queria ficar sóbria. [Vou me sentir um lixo depois, mas dane-se.] Sentou-se por ali e ficou sozinha, observando as pessoas à sua volta e bebendo cerveja. Procurou mais bebida e só encontrou uísque. Pegou um copo e voltou para dentro da casa. Na entrada da cozinha, deu um encontrão em Aline que saía da cozinha.

*****

Ana, Flávio e Júnior voltaram depois de quase duas horas. Os rapazes carregaram a bebida para a cozinha, enquanto Ana estacionava o carro.
Ana, então, foi atrás de Helena.

*****

- Ei garota! – Helena riu ao ver Aline. Tudo era engraçado. – A gente tem que parar de se encontrar desse jeito.
A garota achou divertido ver Helena totalmente bêbada. A loira falava enrolado e mal conseguia ficar em pé. [Ainda assim ela é adorável.]
Helena pegou numa das mãos de Aline. A garota sentiu uma onda de calor invadir seu corpo. Também tinha tido sua dose extra de álcool e sentia-se leve e alegre.
- Vem cá... conversa comigo – Helena disse puxando-a de volta para dentro da casa – Me faz rir um pouco que eu tô precisando.
Algo dizia a Aline que o melhor a fazer era deixá-la só. Mas simplesmente não conseguia afastar-se dela.

No caminho em direção à sala, Helena foi tropeçando e errando portas. Colocou o braço em volta de Aline e apoiou-se nela para andar. As duas atravessaram o corredor rindo o tempo todo.

Aline não estava tão bêbada quanto a loira e ajudou-a a deitar-se no sofá, onde Helena ficou de olhos fechados.
A garota ficou ali em pé olhando-a dormir.
A loira tinha um semblante carregado, parecia inquieta. [Mas acho que agora ela vai dormir.] Aline resolveu sair de fininho.
Helena então, de olhos fechados, disse:
- Ana...
Aline ficou surpresa. [Acho que nem sabe quem está aqui.]
Helena ficou em silêncio. Parecia ter voltado a dormir.
Aline chegou o rosto mais perto dela e perguntou baixinho:
- Helena?

A porta que dava para o corredor estava entreaberta. Foi nesse momento que Ana chegou de mansinho procurando pela loira.
E foi assim que viu Helena, ainda deitada no sofá, puxar Aline para si e beijá-la apaixonadamente.

Capítulo LVIII

Ana acordou e imediatamente sentiu falta do corpo da loira ao seu lado. Estava sozinha. Nem tinha idéia de quanto tempo tinha dormido. Procurou pelo relógio. Dez da noite! [Droga! Dormi demais.] Rapidamente tomou outro banho, trocou-se e desceu para a festa.

A área em volta da piscina estava cheia de gente. Muita gente jovem. A noite estava agradável e havia música, boa comida, e conversa animada. Algumas pessoas dançavam.
De longe, Ana avistou Helena. Sorriu para ela. Sentiu um arrepio ao lembrar-se dos momentos de prazer que tinham acabado de compartilhar. [Nunca vou ter o suficiente dela.]

Helena conversava animadamente; estava numa roda que incluía Duda, Flávio, Júnior, Aline e Sara. Estava contando uma anedota quando avistou Ana de longe. Perdeu-se na seqüência da historia, mas conseguiu se achar e terminou a piada.
Sentiu aquecer-se por dentro quando Ana sorriu-lhe do outro lado da piscina. Aquele era um olhar repleto de significados. Compartilhavam um segredo e isso tornava tudo tão mais excitante e especial. Helena fechou os olhos por um momento e sentiu novamente o toque da morena na sua pele, fazendo amor com ela, beijando-lhe a boca. Arrepiou-se toda. [Ela me deixa louca de tesão.] Respirou fundo e abriu os olhos.
- Tá tudo bem? – Aline perguntou ao seu lado.
Helena sorriu.
Encarou a jovem por um instante. Ela era boa companhia e Helena achava-a divertidíssima. Tinham o mesmo senso de humor: rápido e ácido. Aline também gostava de fazer piada com tudo e com todos, inclusive consigo mesma, exatamente como Helena.
Mas a loira percebeu que a garota não estava conseguindo – ou querendo – disfarçar o seu interesse por ela. Perguntou-se se Aline o fazia intencionalmente. Concluiu que não.
Aline era mesmo muito discreta e Helena realmente gostava dela, mas os olhares eram intensos. Helena não estava exatamente desconfortável com a atitude da garota, mas também não sabia o que fazer a respeito. Quando noiva de João, tudo o que tinha que fazer para desencorajar uma paquera insistente, era “grudar” nele. Mas agora não tinha essa opção. Além disso gostava da companhia de Aline. Apenas não queria encorajar nada.
- Sim, estou bem, Aline – Helena respondeu. [Eu realmente gosto de conversar com ela. Mas é só isso mesmo.]
É claro que havia algo de muito excitante em ser cortejada por uma mulher. Era algo novo para Helena. Os olhares que Aline lhe lançava eram diferentes. A garota fixava-se em seus olhos. E sorria muito. Tinha realmente um sorriso bonito.

Mas o coração de Helena pertencia a outra pessoa. E não havia lugar para mais ninguém. Bastava observar suas reações quando Ana apareceu do outro lado da piscina: tudo à sua volta tornara-se irrelevante e seu corpo respondera imediatamente à presença da morena.

Ana também usava uma saia e Helena começou a imaginar sua mão sob aquele tecido. [Meu Deus! Preciso me controlar!]
A noite fresca de fim de março pedia roupas leves e frescas e a blusinha que Ana usava era exatamente assim. O tecido fino insinuava as formas delicadas do corpo.
[Que mulher linda ela é! E acabei de fazer amor com ela!] Outro arrepio percorreu-lhe a espinha, seguido por uma onda de calor. Estava totalmente tomada pela visão de Ana e queria beijá-la de novo.

Aline, ao seu lado, tinha os olhos fixos na interação entre ela e a morena.

*****

Ana e Helena não se falaram. A morena encontrou vários conhecidos e foi parando para conversar. Mas não deixava de procurar o olhar da loira. E sempre o encontrava, acompanhado de um sorriso.
Helena, por sua vez, estava entretida na conversa com seus amigos.
Nenhuma das duas parecia tão ansiosa por conversar com a outra. [Pensando melhor... conversar só complicaria as coisas... vai dizer o que a ela, Helena?] Queriam mesmo era voltar para o quarto. Mas na impossibilidade de estarem juntas, curtiam imensamente a intensa troca de olhares e a paquera sem palavras.

Helena decidiu banir qualquer pensamento que envolvesse sua decisão de se afastar de Ana. [Hoje não vou pensar nisso.]
Relaxou um pouco e decidiu que iria tentar se divertir.
Havia uma porção de rostos desconhecidos na festa, mas, extrovertida que era, acabou conhecendo várias pessoas.
As conversas eram sempre regadas a muita cerveja.

*****

Já passava de uma da manhã e a festa estava animadíssima. Na verdade, o número de pessoas à beira da piscina tinha aumentado. Sob um céu estrelado, numa noite de temperatura amena, alguns dançavam, outros namoravam e a maioria conversava em pequenos grupos. E bebiam muito.

Ana não quis beber. Na verdade, não tinha certeza se podia exagerar na bebida por causa dos medicamentos que ainda tomava; resolver ir devagar. Conversava com Júnior e Duda e, à distância, observou que Helena estava realmente se divertindo. Com um copo na mão, dançava e ria muito.

*****

A certa altura, um pouco cansada da música alta, Ana resolveu dar um tempo no sofá da sala. Entrou na casa, deitou-se e fechou os olhos. Embora a casa estivesse aberta, não havia ninguém ali. Ficou em silêncio por alguns minutos.
De repente ouviu que alguém se aproximava, mas não se mexeu. Novo silêncio.

Um outro barulho; desta vez bem próximo de si. Ana abriu os olhos e deu de cara com o rosto de Helena a centímetros do seu. A loira tentava não rir, mas estava fazendo um esforço enorme para ficar séria. Estava completamente embriagada. Nem esperou que Ana respondesse: foi chegando a boca mais perto da morena e a beijou.
Foi um beijo bêbado: espontâneo, intenso, molhado, sem técnica nenhuma, a língua invadindo a boca de Ana; tinha gosto de cerveja e uísque; e Helena murmurava palavras incompreensíveis. E como Ana imaginou que fosse acontecer, a loira não conseguiu segurar o peso do corpo por muito tempo e soltou-se sobre Ana. A morena sentiu uma dor aguda na região do abdômen. Mas não ligou tanto; estava simplesmente adorando o beijo. Ajeitou-se melhor no sofá e encaixou as pernas da loira entre as suas.
Helena resmungava alguma coisa parecida com “eu te amo” e continuava a beijar Ana. E passava as mãos pelos cabelos de dela, bagunçando-os completamente. Ana tinha as mãos nas costas da loira. Estava adorando o contato das suas pernas com as da loira. [Hmmm... Adoro saia.]
Ouviram um barulho: era alguém que se aproximava. Ana entrou em pânico. Helena estava bêbada demais para reagir e ela não conseguiria tirar a loira de sobre si a tempo.

Capítulo LVII

O beijo ficou mais intenso e Helena inclinou o corpo, aproximando-se mais de Ana. A loira podia até sentir o coração da morena batendo acelerado no peito. Ana desceu os braços e descansou as mãos nos quadris de Helena; ao fazê-lo, derrubou a toalha. As duas interromperam o beijo. A morena abriu os olhos e encontrou o olhar apaixonado de Helena: agora, via apenas desejo naquele par de olhos verdes.

A loira levou uma das mãos até a nuca de Ana e puxou-a para si, trazendo-lhe a boca de volta à sua. Sentiu, então, as mãos da morena nas suas costas. A língua de Helena passeava pelos lábios de Ana e as mãos desciam pelo seu corpo nu.

Naquele instante, Helena esqueceu-se do seu plano. Não lembrou-se da sua decisão, nem tampouco da ameaça à vida de Ana. A única coisa que conseguia pensar era no quanto precisava estar com Ana, em como precisava fazer amor com ela. Sentia que morreria se não o fizesse.

Ana abriu um pouco mais os lábios, convidando a língua de Helena para explorar mais de sua boca. Percebeu que Helena a conduzia para a cama e começou a desabotoar os botões da camisa da loira. A loira livrou-se logo da peça de roupa e junto com ela o sutiã. Então, rapidamente abriu o zíper da saia e tirou o resto.

As duas caíram na cama. Helena – com o corpo por cima de Ana – cuidava para não machucá-la. No entanto, percebeu que, comparado à ultima vez em que tinham estado juntas, Ana tinha muito mais liberdade de movimentos e lhe respondia o toque com a mesma intensidade.

Ana encarou Helena por um instante. A loira tocou-lhe o rosto com a ponta dos dedos. [Ela é tão linda que chega a doer.] Abriu a boca e ia dizer algo, mas a loira calou-a com um beijo.
As mãos de Helena buscaram os seios de Ana e dedos ágeis encontraram os mamilos rijos. Ana arqueou o corpo sob ela. Helena continuava a beijá-la, a língua cada vez mais ousada na exploração da boca da outra.

Helena, então, afastou-lhe as pernas e colocou-se entre elas. Ana sentia seu corpo pegando fogo. A perna da loira roçava-lhe o centro, exatamente a parte do corpo que clamava por alívio. Respondeu agarrando o traseiro da loira com ambas as mãos.

O beijo já não era terno; refletia a intensidade do desejo e da paixão que, agora, consumia as duas. As línguas tocavam-se, exploravam-se, sentiam o gosto uma da outra. Ana gemeu na boca de Helena ao sentir os seios da loira roçando os seus.

Os beijos de Helena desceram para o queixo e pescoço da morena, a língua dela roçando a pele macia. A loira explorava a textura da pele, sentindo o gosto e o cheiro de Ana. Estava enlouquecendo com o contato da pele dela. Foi descendo o rosto até os seios. Sua língua agora desenhava um círculo em volta de um dos mamilos, levando Ana a quase explodir de tesão e antecipação. Seus lábios finalmente capturaram o bico rijo, encheu a boca com o seio dela, provocando-lhe uma nova onda de calor e arrepios. Ana, de olhos fechados, segurava-lhe a cabeça com as duas mãos e movia o corpo sob ela, estava desesperada por mais de Helena. A loira dispensou a mesma atenção e cuidado ao outro seio e, então, voltou a beijar a boca de Ana.

No meio do beijo, Helena penetrou-lhe com os dedos e Ana quase perdeu o fôlego. A loira movia os dedos pela entrada da área úmida e a cada movimento, roçava-lhe o clitóris. A morena respirava com dificuldade.
- Helena... – Ana sussurrou na boca da loira, pressionando ainda mais o seu centro contra a mão dela.
O gemido transformou-se num grito que foi abafado pela boca de Helena.
A loira então desceu a boca novamente até os seios de Ana e sugou um dos mamilos. Os dedos, dentro de Ana, agora mexiam-se num ritmo sincronizado com o polegar em seu clitóris.

Ana tentou segurar o clímax mais um pouco, mas foi inútil. Seu corpo entregou-se ao gozo e ela sentiu a paixão explodindo dentro de si. Helena, então, abraçou-a forte, os lábios tocando-lhe o pescoço, sentindo o pulso acelerado.
Descansou a cabeça no peito de Ana e ficou ali sentindo o coração da morena voltar a um ritmo mais calmo.

Assim ficaram por alguns minutos. Sentindo o calor do corpo e ouvindo a respiração uma da outra. Amando-se em silêncio.

Então Ana moveu o corpo e alcançou a boca de Helena com a sua. Ao mesmo tempo em que roçava os lábios nos dela, sua mão desceu para entre as pernas da loira e começou a deslizá-la sobre os pêlos loiros.
O corpo de Helena, que tinha se acalmado por um instante, ficou em brasas novamente e a loira fechou os olhos. A respiração foi se alterando e o coração acelerou.
Ana, então, virou o corpo e encaixou-se entre as pernas de Helena. Chegou os lábios junto ao ouvido da loira e disse num sussurro:
- Olha pra mim...
Helena obedeceu. Abriu os olhos e fixou-os no par de olhos castanho-escuros à sua frente. [Linda!]
Ana abriu um sorriso e penetrou a loira com dois dedos. Helena arqueou o corpo na cama e Ana capturou-lhe os lábios num beijo molhado.

O movimento dos dedos foi se intensificando, a mão entrava e saía do centro encharcado de Helena, enquanto a língua de Ana entrava e saía de sua boca.
A loira gemia sob a mão da morena. Não resistiu por muito tempo. O gozo veio forte, as sensações estendendo-se por todo o corpo.

Helena, então, deixou-se envolver pelo abraço da morena e assim ficou até adormecer.

Capítulo LVI

Helena só voltou a ver Ana na sexta-feira. A loira apareceu por volta das cinco da tarde para ajudar Leonora com os últimos detalhes da festa. Tinham planejado um churrasco à beira da piscina. Alguns amigos de Hugo cuidariam de assar a carne e um bolo seria servido no final.
Estavam prevendo que umas cem pessoas apareceriam – em sua maioria, amigos de Hugo da faculdade. Leonora tinha planejado as coisas de modo a deixar a festa por conta dos próprios jovens. Tinha cuidado de providenciar a carne, bebidas e o bolo. Tinham instalado um aparelho de som lá fora para quem quisesse dançar.

Helena encontrou Ana ajudando na cozinha. A morena estava concentrada preparando a carne e não viu a loira chegar. Helena ficou a observá-la.
Ana estava séria, olhava para a carne à sua frente, mas parecia ter o pensamento bem longe daquela cozinha. Trabalhava com agilidade e de vez em quando afastava a franja do rosto com braço. O cabelo no rosto estava lhe incomodando.
Helena sorriu. [Ela é adorável.] Cada gesto de Ana lhe provocava uma vontade enorme de tocá-la.
Helena fixou os olhos nas mãos de Ana. Adorava as suas mãos. Gostava de vê-la movendo-as ao falar, ao tocar violão, ao dirigir, ao digitar no computador, fazendo qualquer coisa. As mãos de Ana eram fortes e delicadas ao mesmo tempo, os dedos eram longos e bem proporcionais ao tamanho da mão. Lembrou-se daquelas mãos tocando seu corpo com destreza e delicadeza. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Ficou excitada.
Então como se pressentisse a presença da loira, Ana levantou os olhos e a viu. Sorriu e Helena sorriu de volta.
- Oi Ana.
- Oi.
- Seu cabelo tá te atrapalhando... – a loira disse. – Vou prender pra você.
Helena aproximou-se por trás da morena. Agora podia sentir o calor do corpo de Ana. A loira puxou o cabelo e a franja de Ana do rosto e tentou arranjá-los atrás da orelha dela. Então, não resistindo, chegou seu corpo junto ao dela. Respirou fundo e sentiu o perfume de Ana. Com o movimento da jornalista atrás de si, o coração da morena acelerou.
Helena resolveu ignorar os avisos do seu cérebro e abraçou Ana pela cintura, chegando a boca bem próxima ao seu ouvido. Não disse nada, mas Ana podia sentir-lhe o hálito quente.
- Helena... – Ana sussurrou quase sem fôlego.
- Hmmm... – a loira respondeu e continuou a mover a boca e o nariz pela pele da morena.
- O que está fazendo? – Ana perguntou quase sem voz.
Helena não respondeu. Começou a beijar a nuca de Ana.
A morena fechou os olhos e gemeu. Manteve as mãos na tigela à sua frente e virou o rosto a fim de encarar a loira. As duas fixaram os olhos nos lábios uma da outra e começaram a mover-se em direção ao beijo.
Os lábios estavam quase se tocando quando ouviram alguém se aproximando.
Helena, então, afastou-se imediatamente.

Leonora entrou na cozinha.
- Ah, oi Helena. – disse – Que bom que chegou. Pode me ajudar com as bebidas?
- Claro. – tentou parecer tranqüila – O que quer que eu faça?

*****

Tudo pronto para a festa, Ana subiu para o seu quarto – que era na verdade, uma suíte – para um banho. Helena ficou conversando com o pai perto da piscina.
A morena entrou no chuveiro. Pensava em Helena e no quanto a queria. [Ela está me deixando louca de tesão.]

Ana tomou um banho demorado e saiu do banheiro enrolada na toalha. Dirigiu-se à porta para trancá-la.

Foi nesse exato momento que a loira entrou em seu quarto.
- Eu quero você, Ana. – disse Helena trancando a porta atrás de si.
- Agora. – disse aproximando-se dela.
Antes que a morena pudesse esboçar qualquer reação, colocou os braços em volta do seu pescoço e puxou-a para um beijo molhado.

Capítulo LV

- Estou bem sim, investigador – disse Ana.
Já tinha terminado o retrato falado e agora conversava com Oliveira numa das salas da delegacia.
- Acho até que já posso voltar para o meu apartamento na semana que vem – ela completou.
- Hmmm...
- Que foi? – Ana perguntou.
- Posso sugerir que fique na casa dos Chagas por mais um tempo?
- Por que?
- Ana Maria... nós ainda não esclarecemos este caso. Até sabermos exatamente quem a atacou e porque, seria melhor se tomássemos cuidado. E infelizmente a polícia não pode lhe oferecer a proteção necessária.
- Está dizendo que acha que eu estou em perigo?
- Não posso afirmar nada com certeza a essa altura – ele disse. – Mas entre ficar só em seu apartamento e ficar acompanhada numa casa segura como aquela, eu recomendo que fique na casa.
- Hmmm... – agora era Ana quem estava pensativa.
- Você disse que está dirigindo. Percebeu se há alguém lhe seguindo?
- Não. Não vi ninguém.
Ana estava séria. Achava que o que tinha acontecido já estava superado, mas as palavras do investigador a deixaram apreensiva. Ele percebeu a inquietação dela.
- Ana Maria, não se preocupe. Nós estamos investigando. Eu sou um pouco preocupado demais; isso faz parte do meu trabalho. Mas quero que tome cuidado ao sair sozinha, ok?
Ana fez que sim com a cabeça. Tentou relaxar, mas no fundo, estava com medo.

*****

Seu Andrade ficou pensando se deveria ou não ligar para o policial. Como era mesmo o nome dele? Oliveira... Será que ainda tinha o cartão?
Homenzinho engraçado aquele; nem parecia policial. Mas um bom papo. Ficou uma meia hora conversando antes de subir para o apartamento da Dona Helena. E conversa vai, conversa vem, ficou sabendo de tudo o que acontecia no prédio. Homem inteligente. Sabe que porteiro ouve e vê muita coisa.
Perguntou sobre a segurança e se alguém tinha perguntado sobre a rotina de algum morador, especialmente a rotina de Dona Helena.
Dona Helena é uma moça muito simpática, mas ultimamente tem andado tão ansiosa e tão preocupada com a vida. Coitada... tão moça!
Depois da conversa com o policial, seu Andrade começou a prestar mais atenção no que acontecia à sua volta. E tinha mesmo notado umas coisas que não via antes. Por exemplo, um homem tinha aparecido e perguntado sobre Dona Helena umas duas vezes. Nas duas ocasiões, tinha aparecido quando ela não estava em casa. Um sujeito bem vestido, boa pinta até. Mas – engraçado isso – não parecia muito interessado na resposta do Seu Andrade. Ficou olhando à sua volta o tempo todo, como se quisesse conhecer o lugar. E nem quis dizer o nome. Seu Andrade não gostou.

Mas hoje de manhã alguém tinha tentado entrar no prédio. Tentaram usar a porta da garagem. Seu Andrade estava distraído dando informação para um rapaz na portaria e um outro homem tentou aproveitar que um carro saía. Foi tudo muito rápido. Talvez fosse só um desses ladrões pés-de-chinelo. Mas Seu Andrade viu a tempo e gritou. O homem saiu correndo pela calçada. Mas Seu Andrade não conseguiu ver quem era o sujeito.

Seu Andrade passou as mãos pelos cabelos grisalhos. Precisava ser mais cuidadoso. Se alguém entrasse no prédio poderia perder o emprego.
Resolveu ligar para o policial.

Capítulo LIV

Helena esperava o semáforo abrir. Tinha acabado de sair do bar e estava indecisa sobre o que fazer. Sabia o que queria: ir para a casa de seus pais e encontrar-se com Ana. Tinha seguido a morena a noite inteira pelo bar e não conseguia pensar em quase mais nada a não ser numa noite de amor com ela. E sabia que Ana queria o mesmo.
Mas isso complicaria seus planos.
[O que fazer?]
Lembrou-se do motivo pelo qual estava evitando a morena. [É para protegê-la.]
Pensou no risco que Ana corria se ficasse no Brasil.
[Não posso arriscar.]
Por outro lado, seu corpo estava gritando pelo toque da morena. Queria tanto beijá-la e fazer amor com ela. O beijo do dia anterior na cozinha tinha-lhe deixado em brasas.
[Eu a quero tanto!]

O sinal abriu e ela acelerou.
Relutando, foi para o seu apartamento.

*****

Ana saiu do banheiro com a cabeça enrolada numa toalha. Não conseguia ir para a cama sem um bom banho para livrar-se do cheiro de cigarro do bar. Vestia uma camiseta sem mangas e shorts: estava pronta para dormir.
Estava cansada, mas seu corpo estava em ebulição. Só conseguia pensar em Helena e no quanto queria que a loira aparecesse. Desconfiava que ela não viria, mas no fundo, esperava estar enganada.
Sentou-se na cama e pegou o celular. Procurou o número da loira nos contatos e quase apertou o botão pra discar. Mas, então, desistiu e fechou o aparelho.
[Vou dizer o que? Vem me ver porque eu não me agüento de vontade de fazer amor com você?]
Balançou a cabeça diante do ridículo da idéia.
Apagou a luz e ficou esperando o sono chegar.
Virou-se na cama várias vezes antes de conseguir adormecer.

*****

Ana acordou no fim da manhã com seu telefone tocando próximo à cabeceira da cama.
- Alô – tentou soar acordada.
- Ana Maria? – a voz masculina do outro lado perguntou.
- Sim, sou eu...
- Aqui é o investigador Oliveira. Acho que a acordei, não foi? Me desculpe...
- Não... tudo bem...
- Como está passando?
- Hmmm... bem – Ana respondeu.
- Hmmm... estou lhe telefonando porque gostaria de saber se já pode se movimentar... sair de casa, por exemplo.
- Hmmm... sim posso. Porque pergunta?
- Gostaria de saber se poderia dar um pulo até a delegacia e nos ajudar com um retrato falado dos homens que a agrediram.
- Ah... claro.
Ana queria mesmo era esquecer a história toda. Mas sabia que precisava ir.
- Amanhã é um bom dia? – ele perguntou.
- A que horas, seu Oliveira?
- Que tal na parte da manhã?
- Tudo bem.
- Ainda tem meu cartão?
- Sim, acho que sim...
- O endereço da delegacia está lá. É só perguntar por mim quando chegar. Obrigado.
- Obrigada. Até amanhã.
Ainda estava meio sonolenta ao desligar o telefone.
[Como será que ele conseguiu meu número?]
Concluiu que não seria tarefa difícil para um investigador de polícia.
Deu um bocejo, esfregou os olhos e resolveu começar seu dia.

*****

Leonora bateu na porta do quarto.
- Entre – Ana respondeu. Estava sentada ao computador.
- Olá, Ana Maria – Leonora disse aproximando-se e abraçando a morena. – Vim ver como você está.
- Estou bem, Leonora. Aos poucos voltando à minha rotina.
- Como estão os ferimentos?
Ana fechou o programa que estava usando no computador e voltou-se para Leonora.
- Eu ainda estou andando de um jeito esquisito e um pouco devagar. Mas não sinto mais dor nenhuma.
Parou e pensou melhor.
- Quer dizer, só quando faço certos movimentos que envolvem essa região – disse mostrando as costelas.
- Vi que está dirigindo... – observou Leonora.
- É... dirigir não é tão difícil – Ana respondeu.
Leonora então explicou o que queria:
- Eu vim mesmo lhe fazer um convite.
Ana ficou curiosa.
- Tenho alguns lugares para ir hoje e coisas para resolver por conta da festa de Hugo depois de amanhã... Gostaria de saber se não gostaria de me fazer companhia. Acho que vai me tomar quase a tarde toda. Depois poderíamos tomar um chá juntas. Que tal?
- Que idéia ótima, Leonora! Claro que topo! – respondeu.
- Mas me preocupo com sua condição física – disse Leonora.
- Acho que não há problema. Só não posso ajudá-la a carregar nada. E também ando bem devagar...
- Isso não é problema – Leonora tranqüilizou-a – Pode ficar pronta em meia hora?
- Sem problema.
- Então daqui a pouco nós saímos.

*****

Helena abriu a porta do seu apartamento para o investigador Oliveira. Ele temia que ela estivesse sendo seguida e tinha sugerido que não se encontrassem num lugar público. Ao invés, ele decidiu encontrá-la em seu apartamento. Helena não entendeu muito bem porque isso seria menos suspeito, mas concordou.

- Eu gostaria de pedir que apresente os documentos à polícia e faça uma denúncia – ele pediu.
Helena respirou fundo. Ficou em silêncio e fez que não com o cabeça.
Ele insistiu:
- Eu sei que tem seus motivos para ter medo, Helena, mas eu fico de mãos atadas se não tenho acesso aos documentos.
- Mas pelo menos pode me garantir que vai proteger a mim ou a Ana?
Ele ficou em silêncio. Helena levantou uma sobrancelha.
- Está me pedindo para arriscar a vida dela? – perguntou.
- Não mais do que já está em risco – ele disse.
- Não sei...
- Se fizer a denúncia, podemos pôr essa gente na cadeia, Helena.
- Mas eles disseram que vão matá-la!
Helena queria ajudar, mas estava com medo de arriscar a vida de Ana. Queria esperar até que ela deixasse o país.
Ele ficou em silêncio por um instante. Então disse baixinho:
- Helena, vou lhe pedir que confie em mim.
- (...)
- Façamos o seguinte... – ele continuou a explicar – você me mostra o que tem em mãos e eu começo uma investigação individual. Nada oficial. Mas eu preciso de alguns nomes e um alvo para começar a investigar. Esperamos sua amiga viajar e então você faz a denúncia.
- Me parece melhor... – disse Helena.
- Em quanto tempo acha que ela viaja?
- O prazo para que ela aceite a bolsa vence em dez dias. Depois disso, acho que ela só tem que esperar pelo visto. Uns dois meses, eu acho.
- Hmmm... isso é muito tempo...
Helena não disse nada.
- Não vou conseguir convencê-la a fazer a denúncia antes disso, vou? – ele perguntou.
Helena fez que não com a cabeça.
- Entendo... Então vamos ter que ficar de olho nela nesse tempo.

*****
- Mas por que está em dúvida se aceita ou não? – Leonora perguntou – Pensei que UCLA fosse uma boa escola.
Ela e Ana estavam encerrando a tarde numa casa de chá no centro da cidade. Tentavam dar conta da enorme quantidade de doces, pães e tortas que lhes eram servidos.
- E é Leonora... – respondeu Ana. [Como é que eu explico isso sem me enrolar?]
Continuou:
- Mas... a vida da gente não é só profissão... A gente tem que pesar outras coisas pra decidir isso.
Leonora abriu um sorriso enorme, o que fez Ana mexer-se desconfortavelmente na cadeira.
- Ah... existe alguém atrapalhando sua decisão... – disse levantando as sobrancelhas.
Ana sorriu e balançou a cabeça.
[Que coisa!] Esse era o problema com Leonora: ela não era sua mãe de verdade. [Porque mãe a gente consegue enganar.]
Mas nenhuma tática funcionava com ela. [Parece que ela lê as coisas na minha testa!]
- Hmmm... mais ou menos – Ana explicou – As coisas ainda são bem recentes, por isso não quero dizer quem é...
Leonora olhava-a com intensidade, como se de fato pudesse ler a verdade em seu rosto.
- Percebo uma certa indefinição...
- Sim as coisas estão indefinidas – Ana respondeu.
- Mas ao mesmo tempo não me parece ser algo passageiro, é? Se não você não ficaria em dúvida sobre o programa...
Ana não achava que poderia dizer a Leonora que estava falando de sua própria filha. Por outro lado, sentia-se aliviada por poder falar sobre seus conflitos com alguém.
- É tudo muito novo ainda... – respirou fundo – mas sabe quando você sabe que essa pessoa é aquela que você esperou a vida inteira?
- E ele sabe do que você sente?
Ana fixou o olhar na mesa. Então disse com um sorriso triste.
- Sabe...
- E como ele se sente a respeito? – Leonora perguntou.
- Sente o mesmo.
Leonora tinha uma expressão pensativa. Encostou-se na cadeira.
- Você tem certeza disso, Ana Maria?
- Tenho... – um suspiro – Mas...
- Mas...
- Ele não está disposto a pagar o preço para ficar comigo.
- Porque não?
- Não sei... – Ana estava séria – ele não me diz.
- Mas que sujeito idiota! – Leonora não se conteve.
Ana sorriu.
- As coisas não são tão simples, Leonora... há outros fatores...
- Ele é casado ou comprometido?
Ana fez que não com a cabeça.
Leonora balançou a cabeça.
- Então?! – Leonora não se conformava – Não, não, minha filha. Você é uma mulher encantadora. É talentosa, linda, e mais importante ainda, tem um coração excelente. Não consigo pensar em um motivo plausível que impeça esse rapaz de se decidir por você.
[Não sei se você vai continuar pensando tudo isso a meu respeito se descobrir que se trata de Helena.]
- Bom... ele não diz...
Leonora segurou as mãos de Ana sobre a mesa e disse olhando-a nos olhos.
- Me chame de romântica se quiser, mas... se esse rapaz é aquele que vai lhe fazer feliz, Ana Maria, você não pode substituí-lo por nada ou ninguém. E nem ele pode. E eu acho que ele vai cair em si e entender isso.
Então franziu a testa e disse pensativa.
- Ou ele vai continuar procurando você em outras pessoas – concluiu.

Capítulo LIII

No dia seguinte Ana voltaria a tocar no bar. Já podia tocar por um período maior de tempo sem sentir dor e estava pronta para voltar à sua rotina.
Por volta das sete da noite chegou ao estacionamento do bar com o carro que João lhe emprestara. Achou curioso que houvesse tantos carros por lá.

Mas surpresa mesmo teve ao entrar no bar. A casa estava cheia. As mesas estavam todas ocupadas e havia muita gente em pé. Desde que começara a tocar ali, não conseguia se lembrar de ter visto o lugar tão lotado.
Ana, então, viu que no alto do pequeno palco, havia uma faixa enorme com os dizeres “Bem-vinda de volta, Ana. Amamos você.”.
Antonio, o dono do bar, tinha preparado uma enorme recepção para a sua volta. E foi ele quem veio recebê-la.
- Ana! – disse ele abraçando-a todo feliz ao vê-la.
- Antonio! – Ana não conseguia esconder a surpresa. – O que aconteceu aqui?
- Nossa estrela principal voltou. – Ele ria. – Achou que eu ia deixar passar batido?
- Não acredito! – disse Ana.
- É, mas não vai ficar se achando não. – ele disse em tom de brincadeira – Eu te adoro, mas fiz isso pra ter casa cheia.
- Claro, claro – ela disse.
Ele puxou-a para si e disse:
- Estou tão feliz de ter você de volta. E está vendo como você é querida? Todos vieram pra te ver.
Ana não acreditava. Estava todo mundo lá: os freqüentadores habituais, Melissa, Marcos e ainda Hugo, Sara, Duda, Flávio, João, Luís...

Seus olhos, é claro, procuraram por ela. E Ana a viu, sentada à uma das mesas. Deslumbrante, vestida para a noite numa mini-saia e blusinha. [Linda!]
No bar lotado, os olhos se encontraram.
Ao vê-la, a loira abriu um largo sorriso. E Ana não conseguiu negar-lhe o sorriso de volta. Sentiu aquele costumeiro calor por dentro. [Ela sempre vai ser capaz de me tirar o fôlego.]

Mas havia tanta gente ali para recebê-la. Passou pelas mesas, recebendo cumprimentos e abraços de fregueses e amigos e dirigiu-se ao palco. Melissa e Marcos já estavam lá e começavam a preparar-se para tocar.
Recebeu um abraço caloroso dos dois.
- Ana, estou tão feliz que voltou – disse Melissa.
- Você não faz idéia do quanto sentimos sua falta aqui – Marcos completou.
Ana estava emocionada.
- Obrigada, gente. Vocês são demais – disse.

Melissa abriu a noite com um pequeno discurso celebrando a volta de Ana ao bar:
- Boa noite pessoal. Hoje é uma noite muito especial. Especial porque uma pessoa que amamos muito voltou pra tocar com a gente.
Lançou um olhar para a morena ao seu lado e continuou:
- Eu queria que vocês recebessem comigo a Ana, nossa violonista.
O bar inteiro juntou-se a Melissa em aplausos. A morena sorriu timidamente. Ficou de pé onde estava e curvou-se agradecendo. Então sentou-se novamente no seu lugar um pouco atrás de Melissa.
Helena, na mesma mesa de Duda, Flávio e Hugo, bateu palmas com entusiasmo. [Ela é tão linda e talentosa e eu a amo tanto!]

Os músicos deram início à primeira seqüência de canções. As músicas eram conhecidas das pessoas que freqüentavam o bar.
Mas havia um clima diferente no ar. Talvez pela casa cheia, talvez pela alegria geral com a volta de Ana, talvez pela noite de clima agradável lá fora... Aquela noite no bar era especial.

*****

Helena não conseguia tirar os olhos do palco. Acompanhava cada gesto da violonista. Estava tão apaixonada que teve que controlar-se para não chorar ao ouvir as canções. Cada letra falava do que estava vivendo com Ana, do seu amor, do que significavam uma para a outra. [A gente vai sobreviver a isso tudo, Ana. E eu vou te reconquistar.]
A certa altura, Duda, que observava a euforia da loira, não agüentou mais. Puxou a loira de lado e lhe disse ao ouvido:
- Você precisa disfarçar! Está dando a maior bandeira. – então riu – Sabia que você está quase literalmente babando?
Helena fez uma careta e com muito custo decidiu prestar atenção ao que ocorria à sua volta. Resolveu ir até o balcão do bar, pegar uma bebida. Talvez ajudasse a pensar em outra coisa que não fosse Ana.

No balcão do bar, encontrou João, que tinha os olhos fixos no palco; parecia completamente envolvido pela música.
Helena pediu sua bebida e decidiu cumprimentá-lo:
- Oi.
- Ah, oi Helena. – ele disse.
- Tudo bem, João?
Ele bebeu do uísque que tinha na mão. Olhou para o copo e respondeu sem olhar para loira.
- Levando... Você?
Sabia que superaria o que tinha acontecido, mas ainda era difícil olhar para ela.
- Tô bem – Helena também estava achando interessante o copo em sua mão.
Nenhum dos dois sabia muito bem o que dizer ao outro. [Que situação!]
João olhou para o palco mais uma vez. E depois voltou-se e encarou a loira ao seu lado. Tinha uma expressão pensativa.
- Que foi? – perguntou Helena.
Ele balançou a cabeça e disse:
- Nada.
Ambos voltaram a atenção para o palco. Os dois – sem saber do que se passava na mente um do outro – pensavam na morena que tocava violão.

*****

Voltando para sua mesa, Helena viu Ana deixando o palco para o intervalo e sendo abordada por Luís. [Que sujeito insistente!]
Com a atenção fixa no que se passava entre os dois, acabou esbarrando numa garota alta de cabelos castanhos. Não viu quem era. Desculpou-se e já ia continuando seu caminho para a sua mesa quando a moça virou-se. Era Aline.
- Oi – disse a moça com um sorriso capaz de iluminar a cidade inteira.
- Oi Aline. Que surpresa te ver aqui! – Helena respondeu.
- É a minha primeira vez. Você vem sempre, Helena?
- Sim. Venho pra ver Ana tocar – e olhou para o palco.
- Ah sim... sua amiga, não é? – Aline perguntou, mas não tirou os olhos de Helena.
- É.
- Ela é muito boa.
- É ela é demais mesmo.
- E parece ser muito querida também.
- É sim.
Helena ficou ligeiramente incomodada com Aline lhe encarando.
- E o seu namorado? – perguntou.
- Wil não pôde vir.
- Já viu Hugo e Sara? Estamos ali naquela mesa.
- Ah, legal... será que cabe mais um? – perguntou Aline.
- Claro – Helena respondeu – Venha.
Aline acabou juntando-se ao grupo.

*****

Ana encerrou a breve conversa com Luís e veio cumprimentar a mesa em que estava Helena. Queria dizer oi aos seus amigos mais próximos. Mas principalmente, queria ver a loira de perto. Em vários momentos, tinha flagrado o olhar intenso dela seguindo-lhe e procurando-lhe os olhos. E Ana não tinha conseguido resistir. Estavam quase se devorando com os olhares que lançavam uma à outra.
Ana, é claro, não tinha esquecido a rejeição de Helena. Mas naquela noite, era como se as duas fossem pessoas diferentes. Imaginou que fossem duas desconhecidas que tinham se encontrado pela primeira vez e descoberto um desejo incontrolável uma pela outra.

*****

João também tinha se juntado ao grupo na mesa e a conversa estava animadíssima. As bebidas contribuíam para tornar todo e qualquer comentário ainda mais engraçado. É claro, o próprio assunto ajudava.
- Não, não... – Duda discordou de Hugo. – Pra mim, o melhor do Monty Python é “O Sentido da Vida”.
- É verdade... – concordou Aline – Aquela cena da origem da música logo no início me arrancou lágrimas. [Não consigo tirar os olhos dessa mulher!]
Aline fez uma imitação do homem da caverna batendo nos outros, o que provocou uma gargalhada geral.
- Eu me lembro dessa... – Ana disse – é mesmo hilária. O cara vai distribuindo pancadas a torto e a direito. [Se eu não me controlar aqui, vou agarrá-la no meio de todo mundo.]
- E a cena da aula de educação sexual? – perguntou Helena [Acho que nunca a vi tão linda assim.]
- Que o professor tem que pedir pra todo mundo prestar atenção? – Hugo respondeu.
- Acho que essa ninguém vai imitar aqui – disse Helena olhando para Aline.
Nova gargalhada.
- Hmmm... Eu ainda acho que “A Vida de Brian” é o melhor – disse João. [Como é que eu nunca percebi como Ana é fascinante?]
- Concordo, João – Flávio disse. – Eles tiram uma com qualquer assunto.
- A gente tem que se juntar pra assistir isso juntos – sugeriu Duda. [Será que vou ter que dar uns tapas na Helena pra ela sair desse transe?]
- É verdade – Ana concordou. – É outra coisa assistir isso em grupo.
A morena percebeu que Melissa e Marcos já estavam de volta ao palco.
- Hmmm... Tenho que voltar a tocar. – disse – Daqui a pouco eu volto.
Lançou um olhar e um sorriso para a loira. Helena disfarçou o calor que sentiu.

*****

Quando os músicos encerraram a noite por volta da meia-noite ainda havia muita gente no bar. Ana ficou ali mais um pouco conversando com alguns amigos, mas finalmente decidiu ir para casa. Helena tinha acabado de deixar o bar.

A morena entrou no carro, deu partida e foi embora.
Distraída, pensava na noite agradável que tinha tido.
Nem percebeu que estava sendo seguida por um carro. Um carro com três homens fortes e carrancudos.

Capítulo LII

Na segunda de manhã, Ana estava sozinha tomando café quando Helena apareceu.
- Oi – disse a loira.
- Oi – Ana respondeu. [Ainda não há motivo para não ser civilizada com ela.] E continuou a tomar café.
Ana usava jeans e sapatos, ao invés dos shorts e chinelos que costumava usar pela casa. Helena entendeu que estava de saída.
- Vai sair? – perguntou.
- Vou.
- Quer que eu te leve?
- Não precisa, obrigada. – Ana respondeu.
- Vai como?
- De carro.
- Que carro?
- João me emprestou.
- Ah.... – Helena respondeu. – E consegue dirigir?
- Sim.
Silêncio.
- Onde vai? – quis saber Helena.
- Não que seja da sua conta... – Ana disse sem tirar os olhos da caneca à sua frente. – Mas tenho que pegar umas coisas em casa.
- Hmmm... entendo.
- Respondeu à oferta da bolsa? – perguntou com cuidado.
- Outro assunto que não te diz respeito – Ana respondeu.
- Que é isso, Ana... – Helena queria saber. – Me conta...
Ana lançou-lhe um olhar frio.
- Porque quer saber sobre a minha vida, Helena?
- Porque me preocupo com você.
Ana nada disse. Fechou os olhos. Pensou no tanto de desaforo que queria dizer. Decidiu deixá-la só. Levantou-se para sair da cozinha.
Helena parou-a.
- Ana... por favor, não me odeie. Eu... eu... ainda...
- Ainda o que, Helena?
- Você sabe que eu te amo... você é minha melhor amiga...
A morena respirou fundo. Encarou a loira. [Não me olha assim, Ana.] Então disse:
- Amiga?! – Ana moveu-se para perto da loira.
Helena tentou recuar, mas deu com a parede atrás de si. Ana gostou da sensação de impotência estampada no rosto da loira.
- Não quero ser sua amiga, Helena – disse.
[Não deixe ela chegar mais perto, Helena.]
- Ana...
- Você pode dizer o que quiser – Ana continuou a chegar seu corpo junto ao dela.
Agora tinha seu rosto a centímetros do de Helena.
Helena ficou sem ação. [Esse perfume dela me deixa louca.]
- Eu sei que você ainda me quer. – a morena disse num sussurro – Não tem nada de amizade nisso.
Num gesto rápido demais para que a loira pudesse reagir, Ana chegou o rosto junto ao pescoço de Helena. A jornalista nem tentou reagir; apenas fechou os olhos. [Meu Deus!]
Ana colocou as mãos na cintura da loira, puxou-a para si e continuou a mover os lábios pela pele macia provocando arrepios em Helena.
- Ana... – foi tudo o que a loira conseguiu dizer.
Os lábios de Ana agora estavam próximos dos lábios de Helena. Ana olhou-a nos olhos. A intenção da morena era apenas provocar Helena, mas também não conseguiu resistir à proximidade da boca da loira. Chegou os lábios nos dela e beijou-a.
Começou devagar, delicadamente, apenas roçando sua boca de leve na dela, o que deixou Helena sem fôlego. Mas aos poucos, o beijo foi ficando mais intenso e apaixonado. E logo as duas estavam tomadas uma pela outra. Respiravam com dificuldade, o coração pulando no peito.
Helena colocou as mãos nos cabelos de Ana e trouxe-a mais perto. [Senti tanta falta da sua boca, Ana!]

As bocas ficaram unidas por alguns segundos.
Então, Ana conseguiu algum controle e afastou o corpo. Helena ainda tinha os olhos fechados.
A morena esperou que ela abrisse os olhos.
- Volta pra mim, Helena – pediu.
A loira não resistiu ao olhar de Ana: os olhos encheram-se de lágrimas. Tocou-lhe o rosto com uma das mãos.
- Eu não posso, Ana – disse baixinho.
Então Ana saiu da cozinha.
Helena não conseguiu segurar o choro.

No seu quarto, sentou-se na cama. Lembrou-se do que João tinha dito: “Você não faz idéia do buraco que ela deixou dentro de mim”.
[Não quero apenas um momento com você, Helena. Quero dividir minha vida com você.]
Começou a chorar também.

*****

O ensaio à noite foi produtivo. João foi se soltando e foi ficando mais confiante com sua performance. Estava se realizando. Adorava tocar e essa era uma oportunidade única. Além disso, sentia que tocar com o grupo estava lhe ajudando.
Estava também encantado com a Ana musicista. Um lado que ele não conhecia muito bem. Claro, tinha-a visto tocar diversas vezes, mas tocar com ela num evento assim era novo para ele. Ela era realmente boa no que fazia. Tinha um talento excepcional. Não era muito de dizer aos outros o que fazer, mas seus comentários eram de uma ajuda incrível na realização das partes do violão.
Além da musicalidade, Ana era muito boa em maximizar o tempo do ensaio. Acabaram estruturando mais canções do que tinham previsto inicialmente. João estava admirado.
[Sou fã dela.]

Terminado o ensaio, João levou Ana até a casa dos Chagas. Pararam em frente à casa. Ele desligou o motor do carro, olhou para a morena e perguntou:
- E aí? Vai me dizer por que está jururu?
- Não. – disse Ana com um sorriso. [Você não vai receber a notícia muito bem.]
Ele suspirou. Virou o corpo meio de lado, apoiando-se na porta de modo a encará-la melhor e disse:
- Gostaria que soubesse que pode confiar em mim, Ana.
- Eu sei, João. Obrigada.
Ele sorriu e disse:
- Obrigada no sentido de “não, obrigada”, não é?
Ana riu.
- Ei... tem limite pra o que eu vou te dizer. – disse – Afinal você é homem...
- Ah é assim, é?
Ana resolveu provocar:
- É... – disse – Se você ainda fosse gay...
- Qual é o lance de vocês mulheres e homens gays? Porque não rola o mesmo tipo de amizade com caras que gostam de mulheres?
A morena balançou a cabeça.
- Resposta mais que óbvia, não, João?
- Então não acredita em amizade entre homens héteros e mulheres?
- Claro que acredito. Mas se os dois não são gays, a coisa pode desandar.
- Que desandar que nada! – ele disse encarando-a. – Ficar muito melhor.
[Será que é coisa da minha cabeça ou... não, não pode ser!]
Ana decidiu encerrar a conversa.
- João, obrigada pela carona.
- Não tem de que, Ana.
- Estou adorando tocar com você... – ele disse. Olhou-a nos olhos – Você é incrível!
Ana quis sair logo dali.
[Droga! Não é coisa da minha cabeça! Ele está flertando comigo mesmo.]
Abriu a porta.
- Peraí que eu te ajudo – João disse. Saiu do carro, deu a volta e ajudou-a a levantar-se.
Então deu-lhe um beijo no rosto e disse:
- Boa noite, Ana.
- Boa noite, João. [Droga, droga, droga!]
Ele ficou olhando-a entrar na casa.
[Definitivamente, Helena foi a mulher errada pra eu me apaixonar.]

Capítulo LI

Ana começou a passar mais e mais tempo com o violão. Queria voltar a praticar para encarar a rotina do bar e também preparar-se para o show. Na verdade, o repertório do bar era familiar e não requeria prática, mas já estava sentindo nos dedos a diferença causada pela pausa de quase duas semanas no contato com o instrumento.
Mas admitia que sua principal motivação para ocupar-se com o violão era a necessidade de ocupar a mente com alguma coisa que não fosse Helena. Pensar na loira mudava seu humor. Entrava numa tristeza enorme e imediatamente perdia a vontade de fazer qualquer coisa. Sentia tanta falta dela! De fato, em alguns momentos do dia, quando se lembrava do quão perfeito tudo tinha sido naquelas poucas semanas que tinham estado juntas, sentia uma dor aguda no peito que lhe tirava a vontade de viver.
Mas resignava-se. Percebia que seu sofrimento pela loira estava atingindo níveis suportáveis. [O tempo cura tudo mesmo. E eu vou esquecê-la.]

Tinham definido o primeiro ensaio para o show para segunda-feira. Como João iria fazer alguns dos violões, Ana ligou para ele e avisou-o. Acertaram que ele passaria na casa dos Chagas e poderiam ir juntos. Mas antes, dispôs-se a passar com ele a tarde de domingo, passando algumas músicas do repertório e discutindo detalhes dos arranjos. João estava feliz. Amava tocar e estava empolgadíssimo com a perspectiva de tocar no show.
Encontraram-se no apartamento dele. Ocuparam-se totalmente com as músicas e a hora passou rápido.
Ana pacientemente esclareceu as dúvidas dele, sugeriu arranjos e ouviu suas opiniões. João estava admirado com o jeito dela de explicar as coisas. Embora soubesse muito mais que ele, em nenhum momento foi condescendente. Pelo contrário, João sentia que suas sugestões eram aceitas e estava contribuindo. Ana também tinha um jeito todo especial de explicar o que fazia no violão e isso por causa dos vários anos ensinando no conservatório.
- E aí? – ele perguntou ao final – Vai aceitar o carro da empresa ou não? Já preparei pra você.
- Hmmm... tô em dúvida ainda... mas confesso que seria mesmo muito útil. – Ana respondeu.
- Ana, por favor aceite... me deixe ajudar...
- Você é um bom amigo, João. [Embora, eu não saiba como vai reagir se descobrir porque Helena terminou com você.]
- Você não é nenhuma barbeira, é?
Ana riu.
- Não... eu sou boa motorista. Eu era a motorista da família. Carregava meus pais pra todo lado.
Ficou séria de repente. Sentiu-se triste ao lembrar dos pais.
- Então tá combinado. – Ele disse levantando-se – Vem comigo. A gente passa na empresa e você já pega o carro.

*****

Helena estava sentada no sofá da casa dos pais. A televisão à sua frente estava ligada, mas a loira não estava prestando atenção. Leonora veio e sentou-se ao seu lado.
[Hmmm... vai querer conversar sobre a minha vida.]
- Helena... – Leonora começou.
- Hmmm... – a loira respondeu sem tirar os olhos da tela.
- O que está acontecendo entre você e Ana?
[Droga.]
- Hmmm... o que quer dizer?
- Vocês brigaram?
A loira pensou em negar, mas sabia que a mãe não acreditaria.
- A gente se desentendeu.
- Porque? – Leonora quis saber.
- Hmmm... duas teimosas. [Não posso assumir a culpa, mas também não posso culpá-la.]
- Nunca vi vocês brigarem...
- Não se preocupa, Dona Leonora. – disse Helena. – A gente se acerta. [É o que eu espero.]
- Helena... – Leonora balançou a cabeça. [Quando é que vai parar de me subestimar?]
- O que foi?
- Tudo bem... eu sei que não vai me dizer...
Helena sorriu.
- O que eu quero mesmo falar com você – Leonora explicou – é sobre o aniversário de Hugo.
- Ah... é sexta-feira.
- É... e pensei em fazermos alguma coisa aqui em casa.
- Surpresa?
- Não, não... Daria muito trabalho. Além disso, não conheço todos os amigos dele.
- E o que quer que eu faça?
- Então, filha... é sobre isso que quero falar... Vou precisar da sua ajuda com alguns detalhes...

*****

- Você tem falado com Helena? – João perguntou.
Ana respirou fundo.
- Não, João. – respondeu. – A gente se estranhou.
- Vocês brigaram?! – João estava surpreso.
- É... mas preferiria não falar sobre isso – Ana pediu.
- Tudo bem...
Ana percebeu que João precisava desabafar. Decidiu ouvi-lo.
- Como está o coração? – perguntou.
Ele fechou os olhos.
- Doendo. Tento não pensar muito nela, mas é quase impossível. Helena é meio viciante, não é? – ele sorriu.
[Totalmente, João.]
- Mas as pessoas se enganam com ela. – disse ele.
- Como? – Ana perguntou.
- Hmmm... acho que você não vai entender isso muito bem porque ela era sua amiga. Quero dizer, você não se apaixonou por ela.
[Ah João, se você soubesse!]
Ele continuou:
- Quando você a vê pela primeira vez, encanta-se com a beleza dela. É a primeira coisa que vê e é meio magnetizante. Difícil de resistir.
A esta altura, Ana estava se perguntando se tinha sido uma boa idéia deixar que ele lhe falasse sobre a loira.
- Mas então... – ele explicou. – você se acostuma. Depois de um tempo é como se você não visse mais quão linda ela é.
Ele sorriu:
- Tem que ser assim. Não dá pra viver naquele fascínio o tempo todo.
Então suspirou e continuou:
- Então, você conhece o lado mais fascinante e delicioso dela.
Sorriu para Ana.
- A mulher que te ama de volta, que se entrega e te faz sentir a pessoa mais especial do mundo.
Fez uma pausa e concluiu:
- E você passa a viver em função dos momentos em que ela te olha e te diz que te ama. E eu me dei conta de que não vou ter mais esses momentos. Você não faz idéia do buraco que ela deixou dentro de mim.
[É... essa conversa foi mesmo uma idéia idiota, Ana.]