Quando Helena chegou na casa da mãe para o almoço de sábado, ficou surpresa ao descobrir que Ana tinha saído. Queria muito vê-la e não conseguiu esconder a frustração ao saber que a morena não estava.
- Onde ela foi? – perguntou.
- Saiu com João.
[João?!]
A princípio, Helena ficou encucada. Mas lembrou-se de que os dois sempre tinham sido grandes amigos. No fundo, sentiu-se mesmo aliviada por saber que Ana estava encontrando em João uma companhia agradável. [Isso vai fazer com que se sinta melhor.]
Além da família, estavam por lá Júnior (irmão de Duda) e Sara. Havia também um outro casal bem jovem, que Helena não conhecia. Deduziu que eram amigos de Hugo da faculdade.
O almoço foi servido logo em seguida.
Helena descobriu que os dois amigos de Hugo freqüentavam a casa. O rapaz tinha a mesma idade de seu irmão e era seu colega na faculdade de direito. Chamava-se William. Tinha os cabelos escuros, era bem magro e os óculos davam-lhe um ar inteligente. Era um pouco tímido e não desgrudava da namorada. A garota chamava-se Aline e aparentava ter a mesma idade. Tinha os cabelos castanhos e compridos e uma franja enorme que ela tentava o tempo todo tirar da frente dos olhos. Era um pouco mais falante que os rapazes e extremamente rápida em suas tiradas.
Durante o almoço, Helena surpreendeu-se com a conversa agradável à mesa. Seu irmão e os três jovens eram companhias agradáveis. Júnior também estava com excelente humor. Mas Helena divertia-se mesmo era com os comentários de Aline. A menina era mesmo divertidíssima. O grupo conversou sobre música e a programação na TV. Terminaram numa discussão acirrada sobre lugares interessantes pra se visitar em São Paulo.
Terminaram o almoço e, com exceção de Artur e Leonora, reuniram-se na sala pra continuar a conversa.
Helena estava tendo uma tarde agradável. Mas não conseguia deixar de pensar na morena. [Se Ana estivesse aqui, tocaria violão pra gente.]
Na verdade, neste último mês, sentia-se como se habitasse um mundo onde existia apenas Ana. Era ela quem lhe ocupava o pensamento. Em alguns momentos, era-lhe permitido dar uma olhada no que acontecia fora daquele universo. Mas fazia-o por um breve momento apenas. Voltava imediatamente a pensar na morena. [Que será que ela está fazendo agora?]
- E você, Helena?
A loira estava distraída. Não entendeu a pergunta que Aline lhe dirigira.
- Hmmm, eu o quê?
- O que gosta de fazer? – Aline quis saber.
Helena sorriu. Sua mente divagava pelo universo habitado somente por Ana e ausentara-se completamente da conversa por um momento. Sobre o que falavam mesmo? [Ah sim... baladas.]
- Hmmm... Eu sou muito caseira, Aline. Saio apenas com alguns poucos amigos, muito de vez em quando. Adoro ficar em casa.
- Aí Aline – William disse abraçando a namorada – igualzinho você. Tenho que te arrastar pra balada.
- Também não é assim, Wil...
O rapaz apertou o abraço, puxou a garota para si e deu-lhe um beijo rápido nos lábios. Aline ficou sem jeito.
Helena estava achando tudo muito interessante. Não tinha o hábito de passar tanto tempo na companhia de pessoas tão jovens. Na verdade, não conseguia lembrar-se da última vez que o fizera. De um modo geral, achava que tinha muito pouco em comum com eles. Mas estava se divertindo. Eles eram inteligentes, articulados e muito engraçados. Descobriu – para sua surpresa – que tinham muitas preferências em comum. Eles tinham, é claro, uma perspectiva diferente das coisas, mas eram bons ouvintes e interessavam-se pelo que Helena tinha a dizer. [Engraçado... Estressam com coisas que não me incomodam e não dão a mínima para assuntos que me tiram o sono.]
Então Júnior e Helena envolveram-se numa conversa sobre trabalho e os dois jovens casais continuaram a falar de outras coisas.
Foi então que Helena percebeu que Aline estava fazendo um esforço enorme para desviar os olhos dela e prestar atenção no que dizia o namorado. A garota era bem discreta, mas Helena estava acostumada a receber aquele tipo de atenção. Reconheceu imediatamente o olhar.
*****
Ana chegou mais tarde. Entrou na sala e encontrou o grupo numa conversa animada.
Quando viu a loira, o coração acelerou. Helena estava radiante. Engajada na conversa, sorria simpática.
A morena sentiu uma pontada no peito. [Sinto tanto sua falta, Helena!]
Mas ao vê-la tão sorridente, sua raiva pela loira voltou. Tinha lhe causado tanta dor e agora agia como se nada tivesse acontecido. [A fila anda mesmo. Pelo menos a sua fila, Helena.]
Helena, ao ver a morena, sentiu um nó no estômago. Achou-a linda. A boca secou, a respiração ficou alterada e o coração passou a bater mais rápido. Ana vestia uma camiseta justa e uma de suas calças jeans, daquelas que realçavam a forma perfeita do seu corpo. Corpo que Helena tinha tocado e queria tocar de novo. [Helena, nem deixe sua mente ir lá. Controle-se.]
O primeiro contato com os olhos uma da outra era sempre de tirar o fôlego. Helena sempre achara o olhar de Ana tão expressivo. Lembrou-se da expressão da morena, na cama com ela, olhando-a nos olhos e dizendo sem palavras o que estava sentindo. [Helena!!]
Ana queria evitar a loira, mas viu Júnior e os outros e foi cumprimentá-los.
- Ana!! – disse ele entusiasmando. – Que bom que apareceu!
Abraçou-a, beijou-lhe o rosto e perguntou fingindo-se de bravo:
- Como é que você sai exatamente quando eu venho te ver?
Ana riu.
- Corta essa Júnior – disse – você veio é pela comida da Leonora.
- Vim te ver. – ele era todo sorrisos. – Quero saber como você está. Senta aqui e me conta.
Ana obedeceu e explicou-lhe como estava fisicamente.
Helena observava os dois. Sabia que Júnior era interessado na morena. Até agora nada tinha acontecido entre os dois porque Ana não queria. Interessantemente, não sentiu ciúmes. Conseguia ver exatamente o que Júnior via em Ana: o sorriso encantador, o jeito atencioso de ouvir o que lhe diziam, o olhar intenso daqueles olhos castanhos, os cabelos longos soltos sobre os ombros, as mãos... [Adoro as mãos dela.]
Ana era fascinante. Cativava as pessoas porque mostrava genuíno interesse no que lhe diziam.
Helena não conseguia desviar o olhar dela. [Meu Deus, estou tão apaixonada por ela!]
O grupo continuou o bate-papo e Ana e Helena – obrigadas a interagir – tentaram disfarçar e procuraram agir com naturalidade.