22 dezembro 2006

Capítulo XIV

Uns dez dias depois de Ana terminar de escrever, reuniu-se numa pizzaria com Leonora e Artur, Duda e Flávio, Helena e João, Hugo (Sara não pôde vir), Melissa e Luis. Estavam sentados numa mesa grande e saboreavam umas pizzas deliciosas – dessas que tornam São Paulo famosa nacionalmente.

Num lado da mesa estavam em seqüência: Ana, Helena, Duda, Melissa e Leonora. No outro lado, de frente para elas estavam os parceiros. Hugo sentara-se de frente para Melissa.

Duda observava os olhares gulosos que Luis lançava sobre Ana. Ele não tirava os olhos dos seios da morena. A blusinha de Ana era provocante. O tecido leve insinuava mais do que mostrava, mas era muito sexy. A morena também olhava para ele, mas Duda não viu a mesma intensidade no olhar dela. Ana passava boa parte do tempo quieta, ouvindo o que lhe diziam. Prestava muita atenção à tudo o que Helena lhe dizia. Esta tocava Ana o tempo todo por cima da calça jeans. Eram gestos rápidos, mas freqüentes. Às vezes cochichava alguma coisa em seu ouvido. As duas usavam blusinhas sem manga e os braços desnudos roçavam um no outro, causando arrepios tanto em uma quanto na outra. Algumas vezes, Helena colocou os braços em volta do ombro da morena e puxou-a para si num abraço. Nesses momentos, Ana tentava não se mover, agindo como se não estivesse tão afetada pelo abraço.

A certa altura, Duda pediu licença e levantou-se. Precisava usar o banheiro. Helena também precisava ir.
- Vou com você – disse.
E as duas saíram.

Enquanto lavavam as mãos, lado a lado na pia do banheiro, Duda perguntou:
- Agora você volta para o seu apartamento?
- É...
- Não parece muito feliz...
- Me acostumei a morar com Ana. Vou sentir falta dela.
Hora de confrontá-la, pensou Duda. Olhou-a nos olhos:
- Há quanto tempo está apaixonada por Ana, Helena?
Duda esperava uma reação diferente da jornalista. Esperava que Helena negasse, é claro. Mas ficou surpresa com o tom de voz calmo e estudado.
- Você está maluca, Duda.
- Estou?
- Porque pensa isso?
- Pelo jeito como você age quando está com ela. Vocês são um casal. Agem como um. Têm a linguagem corporal de um casal quando estão juntas. Se já foram para a cama ou não, não é o mais importante.
- É claro que não fomos! Como pode insinuar isso? Eu estou noiva de João. Ana está com Luis.
Helena ficou irritadíssima. Como podia insinuar que estava indo pra cama com Ana? Estava também irritada porque Duda estava obrigando-a a pensar sobre coisas que escolhera ignorar.
Duda sabia que estava indo longe. Mas tinha certeza do que via. Helena estava apaixonada por Ana. Não tinha certeza se estavam envolvidas. Na verdade, nem sabia se Helena tinha admitido para si mesma o que estava sentindo.

Duda não estava realmente interessada em convencer Helena. Sabia que mesmo que ela concordasse com o que estava lhe dizendo, a essa altura, não admitiria. A intenção da psicóloga era simplesmente forçar Helena a pensar no que estava acontecendo entre ela e Ana. Queria que a prima analisasse os próprios sentimentos. Por isso, falava num tom baixo e calmo.
- Não estou te acusando de nada, Helena. Estar apaixonada não é crime algum.
- Não estou apaixonada por Ana.
- Helena, pare pra pensar no modo como olha pra ela. Você flerta com ela o tempo todo. Preste atenção no modo como abraça Ana.
- Eu abraço todo mundo.
- Você a toca de um jeito diferente. E está com ciúmes de Luis.
- Não tenho ciúmes. Só não gosto do cara.
- Sente-se atraída por ela.
- Ana é uma mulher bonita e atraente.
- Concordo. E você também é. Mas não me sinto sexualmente atraída por ela ou por você. Há uma diferença entre simplesmente achar atraente e sentir-se sexualmente atraída por alguém.
- Não estou gostando nada dessa conversa, Duda.
- Não esperava que fosse gostar. Tudo bem. Não falo mais sobre isso. Mas antes de encerrar o assunto quero que saiba de uma coisa.
Helena não disse nada.
- Quero que saiba que adoro você e adoro Ana. E estou aqui pra te ouvir se precisar se abrir.
- Não gosto quando banca a psicóloga pro meu lado.
- Não é a psicóloga que está falando. É a amiga.
Helena gostava de Duda. Se fosse outra pessoa a lhe dizer isso já teria rodado a baiana logo no começo da conversa. Resolveu cortar o assunto por ali mesmo antes que ficasse ainda mais irritada com a prima e dissesse alguma coisa da qual viria a arrepender-se depois. Voltaram para a mesa.
Para Helena, a noite tinha acabado.

*****

Quando João deixou Helena no apartamento de Ana bem mais tarde, a morena ainda não tinha voltado. Ana tinha deixado a pizzaria com Luis. [Por que não gosta dele, Helena? Luis parece ser boa pessoa.] [Ele parece que vai comê-la com os olhos. Não consegue nem disfarçar.] [Aposto que transam como loucos. E é isso o que devem estar fazendo agora.] A idéia irritou-a profundamente.

E de fato, era exatamente o que estavam fazendo. Ana tinha desistido de afugentar a loira da sua mente quando estava na cama com ele. Imaginava que estava com ela e imediatamente fica excitada. No início, a loira aparecia em seus pensamentos sem ser convidada. Com o tempo, Ana começou a convidá-la para fazer parte das suas sessões com Luis. Fechava os olhos e imaginava a boca e as mãos da loira percorrendo seu corpo. Estava usando o rapaz. Sabia que isso era terrível e sentia-se mal com isso. Mas justificava-se, dizendo a si mesma que todo mundo estava tendo o que queria (ou mais ou menos o que queria): ele tinha Ana, Ana tinha nele um jeito de canalizar parte das suas frustrações sexuais com a loira. Gostava de Luis, mas sabia que não havia muito mais que sexo entre eles.

*****

Helena trocou de roupa e deitou na cama. Não conseguia tirar as palavras de Duda de sua mente. Até agora, tinha se recusado a pensar no novo rumo que seu relacionamento com Ana tinha tomado. Na verdade, tinha se recusado a admitir que algo tinha mudado entre as duas. Duda a forçara a encarar a realidade. Não queria. Queria continuar com sua vida normalmente. Curtindo a companhia da melhor amiga. Comprometida com João. Afinal, nada havia de errado nisso. Ana era apenas sua amiga. Muito próxima, é verdade. A melhor amiga que jamais teria, mas ainda assim, apenas amiga.
[Que droga, Duda! Por que tinha que bancar a psicóloga pra cima de mim?]
Sentia-se atraída por Ana? Sim. E o que há de errado nisso? Nunca se tocavam de um jeito inapropriado. [Hmmm... defina “inapropriado”, Helena.] Nunca tinham se beijado, ou ido pra cama juntas. Tocavam-se como amigas.
Estava apaixonada por Ana? [Não, claro que não. Meu negócio não é mulher. Vou me casar com João.]
E esse diálogo que estava travando consigo mesma estava a ponto de causar-lhe uma dor de cabeça.
[E onde diabos se meteu Ana que ainda não havia chegado? Que droga de noite!]
Acabou adormecendo antes que Ana voltasse.