No final da noite, Ana estava em seu quarto. Pegou o violão que Helena tinha trazido e teve uma grata surpresa: tinha encontrado uma posição em que podia tocar e não sentia dor nenhuma. Mas não podia mover-se muito. Na verdade, não era a posição ideal para segurar o instrumento. Mas podia tocar. Ficou feliz. Tinha sentido tanta falta do seu companheiro. Tocar violão nunca fora simplesmente trabalho. Era apaixonada pelo instrumento. Adorava gastar tempo com o violão quando não estava bem ou quando estava sob estresse. Sentia-se mais calma ao dedilhar aleatoriamente alguns acordes e cantarolar uma melodia que gostava.
E foi o que fez.
Helena estava desesperada para conversar com Ana. E resolveu ir até o seu quarto. Sabia que seria difícil. Sabia que a sua própria presença, com sua atitude fria e distante estava machucando Ana. [Vai machucá-la mais ainda.] Ponderou que talvez devesse simplesmente se afastar para não causar mais dor. Mas não conseguia ficar longe. Tinha que ver Ana ou enlouqueceria.
Quando chegou à frente da porta do quarto, ouviu a morena tocando violão. Ficou ali em pé curtindo os acordes por alguns segundos.
Então bateu de leve na porta e entrou.
Ana parou de tocar. Quando viu a loira, sentiu aquela agitação dentro de si de novo. [Será que um dia eu vou conseguir olhar para ela sem sentir essa comoção toda?]
- O que você quer Helena? – perguntou. A pergunta não foi agressiva; o tom de voz era, na verdade, brando.
- Vim ver como você está – a loira respondeu baixinho.
Ana respirou fundo e fechou os olhos.
- Você quer mesmo saber?
Helena não respondeu. Continuou encarando a morena.
Então Ana disse baixinho:
- Tudo o que eu fiz hoje foi chorar.
Olhou nos olhos da loira e perguntou:
- Por que está fazendo isso comigo, Helena? Por que se afastou?
Helena não agüentou mais. Tirou-lhe o violão do colo. Sentou na cama por trás de Ana e ajeitou-lhe a cabeça no seu peito. Puxou o cabelo da morena para trás e descansou o queixo no ombro dela.
[Meu Deus, como eu senti falta disso!]
Ana não ofereceu resistência. Precisava tanto senti-la assim tão perto. Mas começou a chorar.
- Eu acreditei quando disse que me amava – disse finalmente.
Helena respirou fundo e ao fazê-lo sentiu o perfume do cabelo de Ana. Envolveu a morena com seus braços.
Mas o contato com o corpo de Ana a fez perder o controle. Chegou o rosto no pescoço da morena. Aspirou o perfume novamente. Não resistiu e beijou a pele macia. Continuou a mover a boca pela pele do pescoço e nuca de Ana. Ana fechou os olhos e deixou-se envolver pelo abraço e toque dos lábios da loira.
Helena, então, cuidando para não machucar Ana, virou o corpo e ficou de frente para ela. Tinha o rosto a centímetros do dela.
Ana estava tão triste. Tinha os olhos vermelhos de choro. Helena segurou-lhe o rosto com as duas mãos e enxugou-lhe as lágrimas com os polegares. Então ajeitou-lhe o cabelo atrás da orelha e disse:
- Não chore, Ana.
Os olhos fixaram-se nos lábios da morena. A única coisa que tinha em mente era a vontade de beijar Ana.
- Por que se afastou de mim, Helena? – Ana queria saber.
Mas Helena não estava ouvindo. Seu corpo estava gritando mais alto do que qualquer coisa que Ana dizia. E gritava por Ana. Queria tocá-la. A respiração foi se alterando. A proximidade do corpo da morena, o perfume da pele dela, a boca de Ana... O corpo de Helena era só desejo.
Nem parou pra pensar no que estava fazendo. Tomou a boca de Ana e mergulhou num beijo apaixonado e molhado. Sua língua entrou na boca da morena. As mãos começaram a correr pelos cabelos dela e foram descendo pelo seu corpo. Tocava-a com cuidado, mas com avidez também. Tocou-lhe os seios. Encheu ambas as mãos com o peso deles. Entregou-se por completo ao seu desejo por Ana.
Ana correspondeu. Também queria isso. E entregou-se ao prazer do beijo de Helena.
Mas de repente lembrou-se do que a loira tinha feito. Então a empurrou de repente.
- Não!! – disse com firmeza.
Helena acordou do seu transe. A respiração ainda acelerada.
Ana também estava afetada pela boca de Helena na sua, mas lembrou-se da atitude de Helena durante o dia.
- Não pode brincar comigo desse jeito! – disse – Vai me dizer por que fez aquilo?
Helena levantou-se. Estava transtornada. Fechou os olhos, passou as mãos pelos cabelos. [Perdi o controle.]
- Me desculpe, Ana, eu...
Não sabia o que dizer.
Deixou o quarto.
*****
Agora sim Ana estava confusa. Helena ainda a desejava.
[Mas se ainda me quer, por que escolheu se afastar?]
Não conseguia entender. A única explicação que tinha encontrado para o comportamento de Helena até então, era que a loira estava fazendo isso por causa de João. O dia todo conjeturou que talvez a loira tivesse se dado conta de que tudo tinha sido um erro e que ainda amava João. Decidira voltar para ele e não sabia como dizer isso à Ana.
[Mas não é isso. Ela ainda me quer!]
[Então por que decidiu se afastar? O que a faria afastar-se contra sua própria vontade?]
Então, de repente, tudo ficou claro.