Nos dias que se seguiram, Ana recebeu as visitas de Melissa, Marcos e Flávio. Artur e Hugo sempre apareciam por lá e passavam algum tempo com ela. Sara, às vezes acompanhava o namorado. Leonora estava no hospital sempre que não estava na universidade; e Helena ficava por ali boa parte do tempo também. A loira tinha trazido seu laptop e podia escrever enquanto fazia companhia à Ana. Mas também voltava ao seu apartamento com freqüência pois, por causa do seu trabalho, precisava da conexão com a internet.
As dores de Ana estavam diminuindo. Ainda sentia bastante desconforto quando tinha que se mover na cama, mas já não era tão dolorido falar. Quanto ao seu estado de espírito, procurava não pensar no que tinha acontecido ou porque tinha sido agredida tão violentamente.
Com a melhora física, um novo sentimento começou a tomar conta de Ana: impaciência. Lá pelo quinto dia de hospital, já estava achando dificílimo ficar presa à cama.
Quando o corpo fica imobilizado, a mente parece trabalhar mais ativamente. E a não ser pela noite em que tinha sido agredida, Ana passava muito tempo pensando em quase tudo. Pensava muito em Helena, é claro. No futuro que teriam juntas. Seu coração enchia-se de alegria diante da perspectiva de compartilhar sua vida com a loira. Helena resolveria sua situação com João e poderiam ficar juntas.
Também estivera empenhada em fazer um balanço da sua vida nestes últimos dias.
Coincidentemente, tinha chegado num momento de sua vida em que várias coisas importantes estavam sendo definidas. Não conseguia lembrar-se de outra época da sua vida onde tanta coisa tinha acontecido em tão pouco tempo. [Que diabo de ano!] De fato, em questão de meses, descobrira-se perdidamente apaixonada pela sua melhor amiga. E descobrira também – felizmente – que era correspondida. Também tinha terminado o mestrado, o que significava uma nova etapa profissional. E estava aguardando notícias sobre um possível doutorado no exterior. [Hmmm... já não me sinto tão empolgada.] A idéia de afastar-se de Helena não lhe agradava.
Mas estar presa ao leito de hospital dava-lhe a sensação de que sua vida tinha entrado num estado de suspensão, num tipo de limbo, uma zona onde tudo aguardava definição.
Estava perdida em seus pensamentos quando Helena entrou no quarto.
- Oi loira.
- Oi – entrou, curvou-se sobre a morena e cumprimentou-a com um selinho nos lábios.
Então parou e perguntou pensativa:
- Eu estou fazendo isso o tempo todo, não estou?
Ana riu.
- Está.
- É melhor eu ser mais cuidadosa – disse com um sorriso.
- Não estou reclamando.
- Ah, não está? – Helena sentou-se na beira da cama, chegou os lábios bem perto dos de Ana e passou a língua no lábio inferior da morena.
[Ah, Deus. Me ajude!]
O coração de Ana parecia querer saltar do peito. Ficou excitadíssima com o que Helena estava fazendo. Respondeu tocando a língua da loira com a própria. O corte no lábio superior ainda não lhe permitia beijá-la como queria. Mas tinham encontrado um jeito. Helena capturou-lhe a língua e sugou-a, brincou com ela, usando a sua própria. Então, tocou os lábios de Ana com os seus, mas não os moveu. Continuou a provocar a morena com a própria língua. Estava excitada também. Beijar Ana era simplesmente maravilhoso. Ficaram assim por alguns segundos. Então, com medo de que alguém aparecesse, afastaram-se uma da outra.
Helena passou a mão pelos cabelos de Ana.
- Você me faz fazer cada coisa! – disse.
- Eu??! – perguntou Ana. – Você me tortura desse jeito...
- Ana, você tem que sair daqui logo.
- Amanhã.
- Sério??!
- É. Dr. Gabriel veio hoje enquanto você estava fora. Disse que está satisfeito com meu progresso. Não há razão pra me manter mais aqui.
Helena abraçou a morena. Estava tão feliz!
- Que notícia maravilhosa, Ana! – ficou séria. – Você sabe que está indo pra casa de Leonora, não sabe?
- Estou?
- Nós já decidimos. Lá podemos cuidar melhor de você.
- Se vocês já decidiram... – disse Ana rindo.
Nesse momento a enfermeira entrou:
- Ana Maria, há um policial aqui que quer conversar com você. Pode ser agora?
Ana e Helena ficaram sérias. Ana não queria ter aquela conversa, mas sabia que cedo ou tarde teria que fazê-lo.
- Tudo bem – respondeu baixinho.
Helena segurou-lhe a mão.
- Quer que eu saia?
- Não!! De jeito nenhum. – apertou a mão de Helena com mais força. – Fica comigo, por favor.
Helena beijou-lhe a cabeça.
- Claro que fico.