Ana não sabia para onde estava indo. A cabeça estava a mil e pensou que, dirigindo, poderia acalmar-se. É claro, seu motivo para sair de carro àquela hora da madrugada era a necessidade que tinha de distanciar-se de Helena. Queria mesmo era que a distância física que agora tentava colocar entre ela e a loira, se traduzisse numa distância real entre a sua vida e a dela.
- Eu juro que vou te esquecer, Helena! – disse em voz alta.
Estava com raiva da loira. Mas não era apenas da loira que tinha raiva: tinha também raiva de todo o amor que tinha por ela.
Queria tirar aquele sentimento do seu peito. Queria odiar Helena. [Que patético! Nem isso eu consigo!]
Dirigia pelas ruas de São Paulo sem ter um lugar definido para ir.
Estava fugindo.
Então, olhando pelo espelho retrovisor, observou que um carro lhe seguia. Percebeu que, por mais voltas que desse, o carro continuava atrás do seu.
Ao invés de medo, sentiu raiva. [O que mais pode dar errado na minha vida? Traída pela pessoa que eu mais amo e com alguém na minha cola tentando acabar comigo!]
Pensou no que poderia fazer para livrar-se do carro que vinha atrás. Então teve uma idéia.
Primeiro, tratou de abrir certa distância entre os dois veículos. Não foi muito fácil, pois o motorista estava determinado e parecia saber o que fazia. O carro que a seguia manteve-se na sua cola por alguns minutos. Ana começou a ficar preocupada. No entanto, numa via rápida, Ana conseguiu o que queria e foi ajudada por alguns veículos que acabaram interpondo-se entre eles. Como conhecia bem aquela parte da cidade, procurou por uma rua residencial menos movimentada. Fez uma manobra rápida e entrou numa das ruas onde havia vários carros estacionados. Rapidamente estacionou seu carro próximo a dois outros veículos, desligou o motor, apagou as luzes e abaixou-se no banco do carro.
Ficou ali em silêncio, abaixada por alguns segundos, torcendo para que não a vissem.
Como previra, o carro que a seguia também entrou na rua em que estava e veio na sua direção. Ana prendeu a respiração.
Mas o carro passou direto pelo seu.
A morena ficou mais alguns minutos ali deitada no escuro. Seu plano tinha funcionado: nem sinal do outro carro.
Depois de alguns minutos, Ana deu partida no carro e saiu dali.
*****
No carro que seguia Ana, os três homens discutiam o que fazer.
- Não acredito que você deixou ela escapar! – disse o homem sentado no banco de trás.
- Eu estava na cola dela! – respondeu o motorista. – Não sei como ela pôde desaparecer!
Ele parou o carro e olhou para os outros dois.
- Quem vai ligar e avisar que ela escapou? – perguntou.
Ninguém queria dar o telefonema.
*****
Helena abriu os olhos. A ferroada veio violenta, antes mesmo de levantar-se da cama: uma dor de cabeça terrível. [Maldita hora em que eu decidi beber!] Os pequenos ruídos que vinham de fora do quarto àquela hora da manhã eram amplificados milhões de vezes dentro de sua cabeça. A luz que entrava pelo quarto também incomodava.
Estava deitada num dos quartos da casa e não fazia a menor idéia de como tinha vindo parar ali. Procurou por um relógio: onze horas da manhã.
Colocou-se de pé e descobriu que, além da cabeça, seu estômago também reclamava do excesso da noite anterior. Uma sensação mais forte de náusea a fez correr para o banheiro e despejar no vaso o que ainda havia no seu estômago.
Ficou ali sentada no chão do banheiro, esperando outra onda de náusea.
[Juro que nunca mais bebo tanto assim.]
*****
Quando Helena terminou seu banho e se trocou, já passava de uma da tarde. Depois de algum medicamento para aliviar os sintomas da ressaca e de um café que tinha se forçado a tomar, a loira sentiu-se um pouco melhor. Agora conseguia pensar em começar o dia. A cabeça, no entanto, ainda latejava. [Ainda bem que hoje é sábado.]
Procurou por Ana e não conseguiu encontrá-la em lugar nenhum da casa. O carro de João também não estava na garagem. No quarto da morena, encontrou o celular dela. [Talvez tenha saído bem cedo.]
Encontrou seu próprio celular e verificou que havia várias mensagens não respondidas e todas do mesmo número. Ficou preocupadíssima. Ligou imediatamente de volta e um homem atendeu.
- Guimarães! – a voz que respondeu era firme.
- Guimarães, sou eu, Helena. – disse a loira. – Você me ligou várias vezes... Me diga que está tudo bem com ela.
- Ah... então... dona Helena... – a voz já não era tão firme – Nós a perdemos de vista ontem.
- Como isso? – Helena tentou controlar sua ansiedade.
- Ela viu que estava sendo seguida e despistou a gente.
- Que horas foi isso?
- Por volta de duas da manhã... – ele disse.
[Meu Deus!!]
Helena respirou fundo.
- E não tem a menor idéia de onde ela esteja agora? – perguntou.
- Infelizmente, não – ele respondeu.
- Verificou em outros lugares? – Helena quis saber.
- Sim, fomos até o apartamento dela e também no bar. Ela não foi lá.
Silêncio. Helena estava nervosíssima.
Guimarães, então, explicou:
- Olha... nós a perdemos depois de algum tempo... e... não havia mais ninguém seguindo ela.
- Tem certeza disso?
- Positivo. Se nós não sabemos onde ela está, é bem provável que ninguém mais saiba.
[Menos mal.] Mas Helena ainda estava ansiosa e irritada com o homem.
- Guimarães, eu te contratei porque me disseram que vocês eram os melhores... Se alguma coisa acontecer a ela...
- Não paramos de procurá-la ainda, dona Helena – ele interrompeu. – Não vamos sossegar enquanto não acharmos a moça. Tente não se preocupar, assim que tivermos notícia, eu lhe aviso.
- Tudo bem... – ela respondeu. – vou ficar esperando.
Desligou o telefone.
Helena não tinha gostado nada da notícia. Mas também não queria arrumar confusão com Guimarães e os seus homens. Afinal, eles eram mesmo bons no que faziam. Mas estava preocupada com Ana. Era a primeira vez que a morena estava sem a proteção deles. E a loira sabia que quem tinha agredido Ana não hesitaria em tentar outra vez.