A ceia de natal tinha sido servida na casa dos Chagas. A casa estava cheia com a visita de Alberto, irmão mais novo de Leonora (com sua esposa e casal de filhos) e a irmã mais velha Marília (com o marido, e os três filhos). Os sobrinhos de Leonora eram quase todos casados e tinham filhos pequenos, que estavam correndo de um lado para o outro na casa.
Ana já tinha tido chance de encontrar praticamente todos em situações anteriores, pois sempre passava o natal com a família Chagas. E sentia-se muito à vontade na companhia deles todos. Desde que perdera os pais, os Chagas tinham se tornado sua família. Tinha alguns tios no interior do estado e alguns primos que estudavam ou trabalhavam na capital, mas quase não se viam.
Quase duas horas da manhã. Ana estava numa cadeira à beira da piscina. Conversara com várias pessoas. Alguns deles já tinham ido embora por causa dos filhos pequenos. Leonora insistira para que dormisse lá. Iria embora no dia seguinte. Não tinha sono – acostumada que estava à vida noturna.
Pra variar, sentia uma falta enorme de Helena. Estar cercada pela família dela, na casa dos seus pais era difícil. Impossível não pensar na loira. Ficou imaginando como seria o próximo natal, com a amiga já casada com João. Depois viriam os filhos. Como seria isso? Estaria ainda apaixonada pela loira? Ou também se casaria e suas famílias conviveriam? Seus filhos cresceriam juntos?
Leonora aproximou-se e sentou-se ao seu lado com uma taça de vinho. Ana também tinha bebido, mas não tanto.
- Ana Maria, o que está pensando?
[Em sua filha e em como eu quero que deixe João e se case comigo, Leonora.]
Ana sorriu, imaginando como reagiria Leonora com tal resposta. Apenas disse:
- No futuro.
- Helena me conta que o doutorado vai sair.
- Ainda não sei, Leonora. É bem concorrido.
- Você vai conseguir. Não tenho dúvida alguma.
Ana sorriu.
- Porque está triste, Ana Maria?
[Porque sua filha, por quem estou apaixonada, não sente o mesmo que eu.]
- Sabe como é... Fim de ano, reuniões de família, a gente fica meio melancólico mesmo.
- Sente falta dos seus pais, não é?
- Sinto. E muito. Me sinto só às vezes. Solta no mundo. Com uma liberdade que eu preferia não ter. Ainda mais quando vejo famílias juntas.
Leonora tinha os olhos fixos em Ana. Tinha um amor tão grande por essa menina.
Levantou-se, sentou-se bem próxima da morena e a abraçou.
- Ana Maria, você é minha filha. Adotei você há muito tempo.
Havia sinceridade naquelas palavras. Ana percebeu e emocionou-se. Os olhos encheram-se de lágrimas.
- Você faz um bem danado pra destrambelhada da Helena.
[Aqui vou eu outra vez, falando do meu assunto favorito.]
- Ah, Leonora, Helena sempre foi cabeça. Não precisa de mim, não.
- Está enganada, Ana. Com a sua timidez e personalidade tão diferente da dela, você equilibra a vida de Helena. Depois que você apareceu, a vida dela tomou outro rumo. Ela tem aquela mania de querer mandar nos outros, mas você é uma das poucas pessoas que realmente influenciam o que ela faz.
- Helena está em outra fase da vida, Leonora. Mudou muito. Vai constituir família. Não tem nada a ver com a pegadora de um ano atrás.
- Ana Maria, eu achei que conhecia minha filha. Mas quando ela anunciou o noivado, me pegou de surpresa.
- Acho que todo mundo ficou surpreso.
- É, mas não gosto de surpresas. Aliás, raramente me surpreendo. Não acredito em conversões súbitas. Não consigo engolir uma pessoa mudando radicalmente da água pro vinho de um dia pro outro.
- Não sei se estou entendendo, não acredita que Helena tenha mudado e decidido ter uma família?
- Não é bem isso. Eu achei que conhecia minha filha e fui surpreendida. E... Eu acho que na verdade, não fui surpreendida.
Ana olhou para Leonora em dúvida. Estava duvidando da decisão de Helena?
Leonora continuou.
- Acredito que ela está sendo sincera com João. Mas não tenho certeza se está sendo sincera com ela mesma. Não sei se está buscando o que quer. Ou se está se convencendo de que quer o que tem.
Ana ficou intrigada.
- Já conversou isso com ela?
- Ana Maria, você conhece aquela cabeçuda.
As duas riram.
- Ela jamais discutiria isso comigo, Ana.
Bebeu do vinho e continuou:
- Sempre achei que Helena estava procurando alguma coisa com aqueles relacionamentos tão superficiais que mantinha. Sabia que aquilo era temporário. Quando encontrasse o que queria, mudaria. Não tenho certeza se Helena encontrou o que procurava. O que me preocupa é que parou de procurar.
Silêncio.
- O mais interessante é que qualquer mãe estaria vibrando com a decisão dela. João é um homem muito bom. E a ama profundamente. E eu adoro aquele rapaz.
Deu um suspiro.
- Pena que as coisas na vida não sejam tão simples assim.
- Está dizendo que Helena não ama João?
- Não – Leonora suspirou e sorriu para Ana. – Estou apenas dizendo que não acredito em mudanças súbitas.
Beijou a testa de Ana e entrou na casa.
A conversa deixou Ana encucada. Será que tinha entendido o que Leonora estava tentando dizer?
*****
A vários quilômetros dali, no litoral. Helena na cama com o noivo, pronta pra dormir, pensava em Ana e no que estaria fazendo.