22 dezembro 2006

Capítulo XXII

No dia seguinte, falaram-se apenas por telefone. Helena tinha prazos apertados e não pôde ver Ana.
À noite, quando estava guardando os equipamentos, depois da sessão no bar, Ana avistou Helena entrando. Não acreditou.
Helena sentou-se próxima ao balcão enquanto esperava por Ana. Cumprimentou Melissa e Marcos (o percussionista) com beijos quando passaram por ela. Há tempos não via o rapaz.
Ana aproximou-se com um sorriso que podia iluminar a cidade toda.
- Oi.
- Senti tanto sua falta hoje – disse Ana, chegando o corpo mais perto de Helena.
Helena abraçou-a e sussurrou no seu ouvido:
- Eu não consigo ficar longe de você.
- O que quer fazer? [Que pergunta!]
- Quero que durma em minha casa, Ana.
Ana riu. Não acreditava.
- Você é doida.
- Sou. Completamente louca por você. Me segue no seu carro.
Ana obedeceu. Helena já tinha decidido; não havia o que argumentar.
Nem queria.

Helena estava tentando abrir a porta do seu apartamento, enquanto Ana a abraçava por trás e lhe beijava o pescoço. Não conseguia acertar o buraco da fechadura de jeito nenhum. Desistiu (por hora) e pendeu a cabeça para trás. Ana virou-lhe o rosto e a beijou.
- Ana...
- Hmmm...
- Tem uma cama lá dentro...
- Ok, parei.
Helena finalmente abriu a porta.

*****

Helena tinha acordado antes de Ana. A morena estava ao seu lado na cama. Ficou admirando-a enquanto dormia. Sempre gostara de fazer isso. Na verdade, nos últimos dias – depois que tinha resolvido parar de mentir para si mesma – percebeu que havia muitas coisas que gostava em Ana. E sempre fora assim. Quer dizer, a partir da segunda conversa que tiveram, depois do confronto no banheiro.

“- Oi.
Ana estava entretida com o livro que tinha em mãos. Assustou-se com a voz tão próxima. Quando viu de quem vinha, assustou-se mais ainda. Deu um pulo pra trás.
- Ei, calma... Só vim conversar – disse Helena.
Ana olhou-a ressabiada.
- Como é seu nome? – perguntou Helena.
- Ana.
[Gostei.]
- Ana... – Helena repetiu com um sorriso. – Eu... eu... queria pedir desculpas.
- (...)
- Pelas coisas que eu disse outro dia no banheiro.
Ana não disse nada. Ainda estava tentando entender o que a loira queria.
Helena continuou:
- Foi mal. Eu geralmente não sou neurótica assim.
- E agressiva... – completou Ana com um sorriso.
- É... e agressiva – concordou Helena também sorrindo.
- Talvez só quando está com ciúmes.
[Engraçado. Embora ela quisesse me bater, não tenho mesmo nada contra ela.]
Helena ainda sorria.
[Que rosto bonito ela tem. Pelo menos é bonito quando não está tentando me esganar.]
- E o seu? – Ana perguntou.
- O meu o que?
- Seu nome...
- Helena.
[Bonito.]
Silêncio.
- Em que ano está? – Helena quis saber.
- Terceiro. [Curiosa.]
Esperou um pouco e resolveu perguntar:
- Conversou com o Paulo?
A loira ficou triste de repente.
- Ele não quer mais me ver. Mas não teve a decência de me dizer isso na cara. Achei que ainda tava rolando alguma coisa entre a gente.
Ana não disse nada. Na verdade, não sabia o que dizer. Não estava totalmente à vontade na presença da loira. Ainda se lembrava claramente da maluca voando pra cima dela.
Helena continuou com o desabafo:
- E descontei em você a minha frustração e raiva. Fiz papel de idiota.
Ana ficou com pena da garota.
- Meu namorado gosta de você! – Helena deu um suspiro carregado – Quer dizer, ex-namorado!
- Ainda gosta dele?
- Gosto.
- Olha... não estou interessada no seu namorado.
A loira resolveu mudar de assunto:
- E aí? O que tá lendo?
- Agatha Christie.
- Qual? Já li um monte.
- Não sei o nome em português.
- Está lendo em inglês?
- É... Mas leio muito devagar.
- Quem é a vítima?
- Um velho chamado Aristide.
- Ah, eu lembro desse. Sei quem é o assassino.
- Não vai contar...
- Esse é difícil de adivinhar.
- Não quero ouvir.
- Quase impossível mesmo.
- Não fala.
- Fica fria. Não vou dizer nada. O que mais gosta de ler?
Silêncio.
Ana não queria falar sobre o que gostava de ler. Não lia ficção. Quando o fazia, como agora, era para treinar o inglês.
- Você é sempre curiosa assim?
- Sou. E aí o que mais lê?
- Não leio muito mais coisas. Jornal, revistas, livros sobre música...
- Nenhum autor brasileiro?
- Não.
- E poesia?
- Não.
Silêncio.
- Se o delegado terminou com as perguntas... eu preciso ir andando.
Helena sorriu.
- Ok, por enquanto é só isso. Pode ir.
[Mandona.]
- A gente se vê, loira. [Ou não.]”

Ana abriu os olhos e deu de cara com um par de olhos verde-escuros que a fitavam de perto. O sorriso veio instantaneamente.
- Bom dia.
- Bom dia.
Aninhou o corpo nu no abraço de Helena, o rosto enterrado no pescoço da loira. Aspirou o cheiro dela. Não queria estar em outro lugar no mundo. Estava tão confortável ali. Era como se tivesse voltado pra casa depois de tanto tempo procurando por um lar.
Ficaram assim. Ouvindo o coração uma da outra. Os sons da cidade acordando do lado de fora da janela.
- Tô com fome, loira.
- Hmmm... o que quer comer?
- Aquela omelete sua. Faz pra mim?
[Meu Deus, Duda estava certa. Nós somos um casal. Já éramos esse tempo todo.]

- Banho? Quem vai primeiro?
- Você.
Ninguém se moveu.
O conforto no abraço da loira foi virando outra coisa. Começou a beijar-lhe o pescoço de leve. Alcançou a orelha. Logo começou a explorar a pele de Helena com a língua. A jornalista, cujas mãos já estavam correndo o corpo de Ana, arrepiou-se toda.

Fizeram amor outra vez.

*****

No outro dia, no fim da tarde, estavam juntas novamente na cama de Ana.
O celular de Helena tocou na sala.
A loira levantou-se, nua e foi até lá. Ana seguiu-a com os olhos.
Helena voltou para o quarto com o aparelho colado ao ouvido. Sentou-se na cama. Ana não conseguia manter as mãos longe dela. Empurrou-a delicadamente, fazendo-a deitar na cama. Começou a beijar-lhe o pescoço. Helena, com o celular no ouvido, estava tendo dificuldades pra manter a conversa. Mas não se desvencilhou de Ana.
- Oi... hmm.... Ah... Tudo bem... Eu dou um jeito de ir... hmmm... Tá bom, eu prometo... – Ana, agora, tinha os lábios no ouvido dela. – Hmm... É... Ela tá aqui... Peraí.
- Leonora – disse passando o telefone para Ana. Sorriu maldosamente e chegou os lábios no ouvido da morena.
Ana, que sabia não ter o mesmo controle de Helena, levantou e deixou-a na cama.
- Oi Leonora.
A loira não conseguia tirar os olhos de Ana, andando nua pelo quarto e falando ao telefone. [Adoro o corpo dela!]
- Hmmm... Não, eu toco na quinta... Sábado? Tudo bem... Prometo... Tá... Outro. Tchau.
Desligou o celular e entregou-o a Helena.
- Parece que vamos nos ver no sábado. Churrasco na casa dos seus pais.
- Nós vamos nos ver muitas vezes antes de sábado – disse ao ouvido da morena.
Puxou-a para si e começou a beijá-la.