Helena abriu a porta do seu apartamento e deu de cara com Duda. Uma Duda com cara de poucos amigos.
- Que diabo você pensa que está fazendo? – a psicóloga perguntou entrando pela sala. Nem esperou que Helena a convidasse.
Duda estava furiosa. Foi direto ao ponto:
- Você vai me explicar direitinho essa palhaçada que está armando com a Ana. Está sendo no mínimo irresponsável. Brincando com o coração da sua melhor amiga desse jeito! Que droga é essa, Helena? Você tem idéia de como ela está machucada por sua causa?
Helena ainda tinha a porta aberta. Não estava surpresa com a reação de Duda. Conhecia a prima. Sabia que por baixo da calma usual, havia alguém com uma personalidade tão ou mais forte que a sua própria. E eram próximas o suficiente para conversar sem rodeios. Respeitavam-se e gostavam-se muito, mas Helena sabia que Duda não aceitaria o que estava fazendo. Estivera mesmo esperando pela sua visita.
Fechou a porta e disse:
- Bom dia pra você também, Duda.
Duda não respondeu.
- Quer alguma coisa pra beber? – Helena perguntou.
- Não. Estou bem. – Duda respondeu. – Quero uma explicação.
- Pois eu quero um café. – Helena disse. E foi para a cozinha.
Duda seguiu-a e sentou-se à mesa.
- Você vai ter que se acalmar – disse a loira.
A calma de Helena estava irritando Duda. Mas resolveu esperar. Tinha bastante tempo para ouvi-la.
Helena continuou:
- Vou conversar depois que o café estiver pronto. Assim você aproveita e se acalma um pouco.
Duda respirou fundo.
- Prepara uma caneca pra mim também – disse.
*****
- O que quer comer, Ana? – perguntou João.
Ana estava surpresa. Muito surpresa. E por dois motivos. Primeiro porque tinha conversado com João por mais de meia hora e ele ainda não tinha dito nada a respeito de Helena. Não mencionara a loira uma única vez.
O segundo motivo era ele estar fora do escritório num dia de semana, àquela hora do dia, totalmente relaxado e convidando-a para almoçar.
Não resistiu e perguntou:
- Vai me dizer o que está acontecendo, João? Porque está aqui a essa hora?
Ele sorriu e disse:
- Porque quero almoçar com minha melhor amiga.
Ana sorriu.
- Que amor! – disse com ironia. – Agora fala sério.
- Ok... – Ele ficou sério. Respirou fundo e explicou: – Porque eu estou quebrado por dentro. Helena terminou o noivado.
Ana não sabia o que dizer.
Então ele sorriu:
- Olha... Eu sou um amigo horrível. As coisas dão errado com Helena e eu venho correndo te procurar. Mas hoje não vim aqui pra procurar consolo. Quero sair, conversar, e muito, com você sobre qualquer coisa que não seja Helena Chagas. Quero esquecer que ela existe. Hoje é totalmente proibido tocar no nome dela.
Dessa vez foi Ana quem sorriu. Arqueou uma sobrancelha.
[Que idéia ótima!]
Pegou sua bolsa e disse:
- Hmmm... Que tal japonesa?
*****
As duas estavam sentadas à mesa da cozinha de Helena com as canecas cheias do líquido quente.
Duda estava impaciente. Mas decidiu deixar Helena começar a conversa.
- Primeiro, tem que me prometer que não vai contar a Ana nada do que eu vou te falar – a loira disse.
- Não vou prometer nada disso – disse Duda indignada.
- Então nossa conversa acaba aqui, Duda.
A jornalista encarou a prima com um olhar firme. Não estava brincando.
- Se não aceitar isso, não vai conseguir nada de mim.
Duda entendeu que Helena não estava disposta a abrir mão da exigência.
- Mas... – começou.
- Não tem mas... – o tom de Helena era firme. – Não pode dizer uma palavra do que vou te contar a Ana.
- Não pode me pedir isso, Helena...
- Posso.
Duda percebeu que Helena estava irredutível. Cedeu.
- Tudo bem. Não digo nada.
- Tem que me dar sua palavra.
Duda suspirou.
- Tudo bem. Tem minha palavra.
Helena então começou a explicar.
*****
Estavam no restaurante. João serviu uma dose de saquê a Ana.
- Me conta do show, Ana.
- Quer mesmo saber?
- Claro. Tenho certeza de que vai ser muito bom. Pra quando marcaram?
- Ainda não temos uma data. Mel resolveu adiar por causa do que aconteceu. Eu pedi a ela que fizesse com outro violão, mas ela não quis.
- E porque faria isso? Não tem ninguém melhor que você pra isso.
- Ah, sem essa, João. São Paulo está assim de violonista melhor que eu.
- Não está, não – disse ele, dando uma mordida no sushi – Mas não vou discutir isso com você. Quem são os músicos?
- Hmmm... a base vai ser o trio mesmo: eu, Mel e o Marcos. E a gente chamou o Fumaça pra fazer o sax e a flauta. E também um baixo, o Tomás.
- Puxa, só fera. – João estava admirado. – Vão tocar o que, Ana?
- Vai ser bem variado. Temos umas canções de Elis. Vamos ver se incluímos um ou outro Guinga.
- Guinga? Qual?
- Estamos vendo ainda.
Então Ana teve uma idéia.
- Ei! Porque não faz uns violões pra gente?
- Tá brincando, Ana? Só tem músico profissional nesse grupo.
- E você dá conta.
Ele sorriu. Fez que não com a cabeça.
- Não, não é pro meu bico, não.
- Deixa de ser bobo, João. Eu conheço teu som. Não te convidaria se não achasse que pode fazer. Você podia cuidar da base pra gente. Eu dobro com você e cuido dos solos. Que tal?
- Tá falando sério?!
- Claro que estou! – então Ana lembrou – Mas o cachê é insignificante.
- E quem liga pra cachê? Seria um privilégio tocar com vocês.
- Então tá combinado. Vou ligar pra Mel pra confirmar e te aviso. Mas sei que não vai ter problema nenhum.
João não acreditava no convite de Ana.
*****
- Em outubro do ano passado, – começou Helena – eu recebi um e-mail de um colega que tinha estudado comigo...
E contou a Duda em detalhes seu envolvimento com o dossiê.
- Enfim... Eu acabei me esquecendo completamente da história dos documentos. – concluiu.
Bebeu do café e continuou:
- Há mais ou menos uma semana, o mesmo sujeito me ligou.
Helena fechou os olhos. Ainda podia lembrar-se da voz ameaçando-a.
“- Dessa vez foi só um aviso. Mas eu vou matar sua amiguinha da próxima vez. Se eu desconfiar que você pensa em publicar alguma coisa, eu juro que acabo com ela. Você me entendeu?”
Duda estava sem palavras. Não esperava por uma história assim.
- Ela tentou me avisar pra eu ficar fora disso, mas eu não ouvi – Os olhos de Helena encheram-se de lágrimas. – Ela quase morreu por causa da minha arrogância e teimosia. Não vou deixar isso acontecer outra vez.
Duda levantou-se e abraçou a prima. Entendeu que Helena sentia-se responsável pelo espancamento de Ana.
- Ei... – disse olhando-a nos olhos. – Não é sua culpa. Não tinha como saber.
Fez uma cara pensativa e perguntou:
- Então está se afastando dela porque tem medo que a machuquem de novo? Mas seu afastamento não vai protegê-la! Eles podem atacá-la de novo.
- Vai proteger sim, Duda – Helena explicou. – Isso vai forçá-la a aceitar a bolsa do doutorado nos Estados Unidos.
Respirou fundo e disse baixinho:
- E a salvo da bagunça que eu criei.
*****
- Então já está conseguindo tocar?! – João perguntou animado.
- É, estou. Ainda não está perfeito, mas acho que dá pra encarar o bar dentro de alguns dias. E eu preciso mesmo. – Ana sorriu. – Tenho que pagar minhas contas.
- E dá pra dirigir?
Ana sacudiu a cabeça:
- Não sei, João. Mas acho que não há problema. De qualquer forma, não faz diferença nenhuma.
- Por que não?
- Roubaram meu carro.
- Puxa vida, Ana! Tinha me esquecido. E agora como vai trabalhar? Sem carro não dá pra encarar o bar, dá?
- Vou ter que contar com caronas. Hel... er... você sabe quem... se ofereceu pra me levar. [Mas vou ter que achar um jeito de não depender dela.]
João ficou em silêncio. Teve uma idéia.
- Ana... que tal se eu te emprestasse um carro pra você ir usando?
Ana arregalou os olhos.
- Ah, não posso aceitar isso, João!
- Por que não?
- Ah, não me sinto bem pegando carro emprestado. Mas agradeço você oferecer.
João não desistiu da idéia tão facilmente:
- Olha só, Ana... a empresa tem uma frota boa de carros. E não usamos todos ao mesmo tempo. Fazemos rodízio e mantemos sempre dois veículos como reserva. Eu poderia ceder um pra você na boa.
- Ah, João...
- Olha... – insistiu ele – se fosse pra você usar o veículo pra passear, eu nem ofereceria. Mas com o tipo de trampo que você tem, você precisa de um carro. Depender de carona pode ser um problema porque você termina seu show no bar bem tarde.
- Mas fico pensando se acontecer alguma coisa com o carro...
- Os veículos da empresa são todos segurados. E se acontecer alguma coisa, ninguém vai te responsabilizar.
- Hmmm, acho melhor não...
- Vamos fazer o seguinte... você não precisa me responder agora. Pensa mais um pouco e depois me diz se aceita minha oferta ou não.
- Olha, João... agradeço muito você oferecer isso.
- Bom... pensa a respeito e depois me diz, ok?
- Ok.
*****
- Mas, Helena, porque esconder isso de Ana? – Duda quis saber. – Por que simplesmente não diz a verdade a ela? Não seria muito melhor se ela fosse embora de livre e espontânea vontade?
Helena balançou a cabeça concordando.
- Seria. Mas Ana jamais iria embora sabendo que alguém está me ameaçando. Se ela descobrir que as pessoas por trás do esquema de corrupção na prefeitura ainda estão atrás de mim, não vai me deixar aqui sozinha.
- Mas ela nem desconfia? – Duda perguntou.
- Ela ficou desconfiada. Começou a juntar as coisas que o policial disse com o modo como foi atacada e achou que tinha a ver com o dossiê. Mas...
- Mas?
- Mas eu menti pra ela, dizendo que ninguém tinha entrado em contato comigo.
Duda levantou-se da cadeira e começou a andar pela cozinha.
- Que sinuca! – passou as mãos pelos cabelos. – Não é possível! Tem que haver outra saída!
Helena não estava tão otimista:
- Já pensei em tudo, Duda. Não existe outro jeito. O único jeito de proteger Ana é fazer com que ela vá embora. E a única maneira de forçá-la a fazer isso é fazer com que ela ache que não quero nada com ela.
*****
- Você conseguiu a bolsa mesmo?! – perguntou João. – Ana, isso é demais!!!
- É... UCLA é uma excelente escola. – Ana disse.
- Puxa, Ana! Eu estou bem mais empolgado que você! Não tá feliz, não?
- Estou, claro. Mas também tenho um pouco de medo. Na verdade... ainda não decidi se vou.
- Como? Vai deixar passar uma chance dessas? – João quis saber.
- Ainda estou pensando, João – Ana não queria explicar. Tentou mudar de assunto:
- O que tem ouvido de bom ultimamente?
*****
- Mas e daí o que acontece? – Duda perguntou.
- Eu vou atrás dos desgraçados que fizeram isso com ela.
- Peraí, Helena. – Duda ficou preocupada. – Não pode fazer isso sozinha. Isso é muito perigoso. Você já viu do que essa gente é capaz.
- Não vou fazer isso sozinha.
- O que quer dizer? – Duda estava curiosa.
- Eu tenho umas idéias.
- Helena, não vou deixar que se meta com esses caras sozinha.
- E o que pretende fazer, Duda? – Helena perguntou. – Qualquer pessoa que se envolva pode acabar machucada. E eu não posso deixar que outra pessoa se machuque.
- E a polícia, Helena? Por que não pedir a proteção deles?
Helena suspirou.
- Eu já estou indo atrás disso. Mas eu sei que eles não podem me proteger (ou a Ana).
- Como pode ter certeza disso?
- Não tenho certeza de nada, Duda! – Helena exasperou-se. – Só sei que esses caras parecem ter olhos em todo lugar! Eles parecem saber de detalhes que ninguém mais sabe. E eu não posso arriscar a vida de Ana.
Os olhos encheram-se de lágrimas.
- Eu a amo tanto, Duda! Morreria se alguma coisa acontecesse a ela.
Duda olhou nos olhos da loira e viu a angústia que estava sentindo. Havia dor, tristeza, culpa e medo nos olhos de Helena. Sentiu compaixão pela amiga. Queria ajudá-la mas não sabia como. Helena estava sofrendo terrivelmente. Sofria pelo seu amor por Ana que não podia acontecer, pela culpa que sentia, e, acima de tudo, porque estava fazendo Ana sofrer.
Duda abraçou a amiga mais uma vez. Helena agora chorava muito.
- Vamos pensar num jeito – disse sem ter certeza. Estava, na verdade, tentando convencer a si mesma.
- Mas não acha que a vida dela corre risco agora? – Duda quis saber. – Quer dizer, até que ela decida aceitar a bolsa e dê início ao processo todo, quem vai garantir a proteção dela?
- Eu ainda não sei exatamente como resolver isso, mas vou ficar de olho nela até que ela suba naquele avião.
Duda não conseguia esconder seu nervosismo. Não estava gostando nada daquela história.