Ana e Helena não tinham realmente conversado sobre o que estava acontecendo entre elas. Quando estavam juntas, agarravam-se, beijavam-se e faziam amor. Não havia tempo para conversar. Depois disso, aninhavam-se uma no corpo da outra e não queriam falar. Era o bastante sentir a outra tão próxima. Talvez sentissem que palavras poderiam trivializar o que estava acontecendo. E nada havia de trivial naquilo tudo.
Não, esclarecer as coisas e conversar sobre o futuro não era essencial. Nenhuma das duas tinha dúvidas sobre o que estava sentindo. Tinham conversado por dez longos anos; podiam muito bem passar sem isso agora.
Ana estava conhecendo um lado de Helena que nunca tinha visto: a mulher apaixonada, a amante voluptuosa. Não imaginava que a loira fosse tão intensa. Estava adorando. Helena era impulsiva, apaixonada, estava totalmente entregue, mergulhara de cabeça em sua paixão por Ana. Chorava quando faziam amor, ligava-lhe alguns minutos depois que se separavam, e outras tantas vezes no dia. Gostava de dizer à morena o que sentia com cada toque de Ana. Mostrava no jeito de beijá-la o quanto a queria.
A morena a amava com a mesma intensidade. Mas, por temperamento, era mais controlada e tímida. Falava menos. Expressava-se mais através de olhares. Ainda achava tudo meio fantástico, meio irreal. Difícil acostumar-se à idéia de que Helena a queria tanto quanto ela. Por outro lado, bastava olhar nos olhos da jornalista e podia ver toda a paixão e desejo. E amor também. Estavam definitivamente no mesmo lugar.
*****
As duas estavam sentadas no carpete da sala no apartamento de Ana. Ana recostada na base do sofá, tinha Helena à sua frente, de costas para ela, descansando a cabeça no seu ombro. As mãos de Ana a enlaçavam pela cintura. [Se pudesse ficaria assim com ela para sempre.]
- Hoje é sexta, Ana.
Ana sabia o que isto significava. A jornalista não tinha visto João a semana toda. Mas o fim de semana tinha chegado e não tinha desculpas para não encontrá-lo.
- Vou conversar com ele amanhã depois do churrasco. – disse a loira.
A morena não disse nada. Sabia que não era fácil para Helena. Apenas a abraçou mais forte.
- Vai ser um desafio não poder te tocar – disse finalmente.
*****
No sábado pela manhã, quando Ana apareceu na casa dos Chagas, Duda veio abrir-lhe a porta.
- Oi Ana.
- Oi Duda. Tudo bem?
- Tudo. E você? Sofrendo de depressão pós-tese? Porque aquilo deve ser como um parto, não?
Ana riu.
- É sim. Não sinto falta de jeito nenhum. Felicíssima por ter acabado.
As duas caminhavam em direção à piscina, onde os outros estavam.
- Mas tô sabendo que arrumou outro pepino, o doutorado.
- É, estou tentando arrumar mais sarna pra me coçar. E você, Duda, como está?
- Tô bem, Ana.
- Quando é que vai deixar de enrolar o Flávio?
- Eu??! – Duda ria.
- É. Você. Desde que eu te conheço vocês estão juntos.
- Não é verdade...
- Quando é que vocês se casam?
- Ano que vem. – Duda resolveu cutucar. – Se bobear, me caso antes de Helena.
Ana manteve o sorriso, tentando disfarçar, mas Duda como sempre, estava prestando bastante atenção à expressão da morena.
Helena estava conversando com Flávio perto da churrasqueira. João, abraçado a ela por trás, a segurava pela cintura. Não tinham se falado muito durante a semana e ele tinha sentido falta da noiva.
Helena sabia que Ana chegaria a qualquer momento. Estava se sentindo extremamente desconfortável com a situação toda. Na verdade, desconforto era pouco pra definir a sensação: um noivo carente, querendo atenção e a perspectiva de rever Ana a qualquer minuto. Ana, que era sempre motivo para que seu corpo entrasse em agitação.
A conversa não ajudava muito. Falavam do casamento de Helena e do noivado de Duda e Flávio, prestes a acontecer.
- O jantar vai ser dentro de algumas semanas – disse Flávio.
- Onde vai ser, Flávio? – perguntou Helena.
- Ainda estamos procurando um lugar, Helena. Duda está meio ansiosa porque não há tantas opções. Deveríamos ter planejado antes.
A jornalista levantou os olhos e viu Duda entrando seguida de Ana. Tencionou o corpo involuntariamente; não queria que Ana a visse assim com João. Não que tivesse medo da reação da morena; Ana sabia que a loira nada podia fazer a respeito. Helena também estava ciente de que Ana não lhe cobraria uma atitude. Sabia aguardar.
O coração de Helena começou a bater mais rápido, pela simples presença da morena no ambiente. [Meu Deus, pareço uma adolescente.]
Ana viu Helena assim que entrou na área espaçosa dos fundos da casa. A churrasqueira ficava bem ao fundo, depois da piscina. Havia algumas mesas com cadeiras, onde a família se reunira. Além da família Chagas, estavam ali, Sara, os pais de Duda (Marilia e Augusto) e seu irmão mais velho, Júnior.
Os olhares das duas se cruzaram à distância. Sorriram. Ana contornou a piscina e foi juntar-se aos demais. Helena continuou a conversa com Flávio, mas disfarçadamente seguia a morena com os olhos.
- Ana Maria! – Leonora imediatamente deixou o que estava fazendo e foi abraçá-la.
- Oi Leonora.
- Só vem à minha casa quando há comida, não é? – perguntou abraçando Ana bem apertado.
Ana ria.
- Também não é assim... – respondeu.
- Tudo bem, não ligo. Só quero que venha. Como está você, minha filha?
- Tô bem, Leonora. Meio de bobeira, esperando resultados.
- Quero que me conte assim que souber.
- Pode deixar.
Ana passou pelas mesas cumprimentando a todos. Conversou brevemente com Júnior. Ele era um bom papo e não se viam desde o ano novo.
Helena não agüentou mais. Precisava tocar a morena ou enlouqueceria. Deixou João e aproximou-se de Ana. Chegou por trás e abraçou-a pela cintura enquanto Ana ainda falava com Júnior.
Ana virou-se e a abraçou.
- Oi loira. [Meu Deus, como eu sinto falta do seu corpo!]
- Oi Ana. [Preciso tanto te beijar, Ana.]
As duas estavam fazendo um esforço enorme para não mostrar o quanto estavam perturbadas pela presença uma da outra.
Separaram-se e Ana tentou, a todo custo, prestar atenção ao que ocorria à sua volta que não era Helena; o perfume da jornalista estava deixando-a atordoada.
[Esse churrasco vai ser uma tortura.]
- Como foi sua semana, loira? – perguntou com um sorriso.
- Tive uma semana excelente. [Graças a você, meu amor.]
- Júnior estava me contando que terminou com a Júlia.
- Ah é, Júnior? Não sabia! [Está dando em cima dela.]