23 dezembro 2006

Capítulo LXVII

Ana estava a caminho do bar. Embora a maioria dos motoristas detestasse dirigir no fim da tarde em São Paulo, ela não se importava. Não se incomodava com a pressa dos demais. É claro, sua rotina de trabalho estava começando e não encerrando-se, como era o caso da maioria. Estava descansada, sem pressa e pronta para a sessão no bar. Mas conseguia relaxar ao volante principalmente porque aproveitava para pensar em outras coisas que não fossem o trânsito. E havia muito o que pensar. Agora, por exemplo, tentava entender que diabos estava se passando na mente de Oliveira.

[Não faz sentido nenhum!] Primeiro ele a convence de que havia algo a mais na agressão daquela noite. Depois age como um idiota quando ela explica que ainda está sendo seguida. O que ele está escondendo? E porquê?
E porque diabos continuam a segui-la? O que querem esses caras?
Isso soa mesmo como uma coisa planejada. E a única coisa que serve como possível explicação é o dossiê que Helena tinha tido em mãos. Será que alguém a estaria usando para evitar que Helena tornasse os documentos públicos? Mas então porque não entraram em contato?

[Espera aí! Quem disse que não entraram em contato? Helena disse isso. Mas a loira não estava sendo exatamente honesta com Ana ultimamente. Poderia muito bem estar mentindo.
E porque mentiria? Talvez ela não saiba mesmo de todos os fatos.
Ou talvez esteja mentindo mesmo.]

Com a cabeça cheia de perguntas sem respostas, Ana estacionou o carro.
Desligou o motor e respirou fundo.
Olhou em volta e viu o carro de Luís.

*****

- Quando foi isso? – perguntou Oliveira enxugando o suor da testa.
Do outro lado da linha, Helena tentava explicar o que tinha encontrado ao chegar em casa naquele fim de tarde.
- A porta estava aberta, mas não arrombada. Não roubaram nada, nem fizeram bagunça. Acho que estavam mesmo é atrás de uma cópia dos documentos.
- Ou talvez quisessem apenas assustá-la – observou Oliveira – mostrando que podem entrar em seu apartamento.
- Sim, mas eles tentaram acessar meu computador.
- E...?
- Não há nada aqui. Tenho uma cópia eletrônica do material escaneado e também das gravações. Estão no laptop que estava comigo.
- Conversou com o porteiro?
- Sim, ele não se lembra de alguém tentando entrar. Na verdade, está mais assustado que eu. Tem medo de perder o emprego.

Oliveira estava preocupado. Ficou em silêncio por um momento. Embora Helena não tivesse apresentado denúncia alguma ou procurado a imprensa, os bandidos pareciam preocupados. E a única coisa que tinha mudado era o fato de Ana ter decidido viajar. Seus encontros com Helena tinham sido bem cuidadosos – não havia porque desconfiarem de que a loira tinha procurado a polícia.
Então como poderiam saber da viagem? Estaria alguém passando informações a respeito da vida de Ana para eles?

Oliveira desligou o telefone e chamou um dos policiais da sua equipe.
- Juarez, preciso que você fique de olho em alguém pra mim nos próximos dias.

Helena deitou-se no sofá. Fechou os olhos. Estava começando a se encher daquilo tudo.

*****

Ana preparou o violão. Ainda tinha alguns minutos antes de começarem, então foi atrás de uma bebida.
- Você está linda hoje – Luís disse, abraçando-a pela cintura, junto ao balcão do bar.
Era interessante como conseguia “ler” o olhar dele. Sabia o que ele queria.
- Obrigada – respondeu.
- Quer fazer alguma coisa depois? – ele perguntou.
- Hmmm... você sabe... fica bem tarde.
- Eu espero.
- Não sei, Luís...
- Fazemos assim... eu fico por aqui e a gente conversa. Se você não estiver tão cansada no final, podemos ir a algum lugar.
- Tudo bem... – ela disse.
Ele chegou mais perto e disse ao seu ouvido.
- Você sabe... – ele disse – senti tua falta, Ana.
Ana sorriu.
[Sutileza não é teu forte, Luís. Eu sei o que você quer.]

*****

[Eu sabia que ela viria, hoje. Meu Deus, como ela tá linda!]
- Oi Helena – Aline não conseguia esconder o sorriso.
- Oi Aline – Helena respondeu – virou freguesa do bar, hein?
- É... Aqui é bem legal. [Além disso, eu tava louca pra te ver.]
- Que bom te achar aqui, garota. [Preciso mesmo de uma companhia como você depois do dia que eu tive.]
Helena sentou-se com Aline e começaram a conversar. Helena, porém, não tirava os olhos do palco.

*****

Ana tentava disfarçar, mas não conseguia tirar os olhos de Helena e Aline. De vez em quando encontrava o olhar da loira. [Porque tanta risada? E porque Helena tem que vir me provocar logo aqui onde eu trabalho? Que inferno!]
A morena estava tentando esconder a irritação e no intervalo foi atrás de uma bebida.
- Oi... – Júnior era todo sorriso – Posso te pagar uma bebida?
- Oi, Júnior – Ana sorriu de volta. – Como estão as coisas?
- Agora que você está aqui falando comigo, estão melhores – Ele tinha os olhos fixos em Ana.
Ana pegou a cerveja e balançou a cabeça sorrindo.
- Você não desiste, não é? – disse.
- Você não me leva a sério...
- Júnior... – Ana começou.
- Ei... tudo bem... – ele interrompeu. Com o canto do olho viu Luís que os observava de uma das mesas.
Sorriu pra ela e disse:
- Você está ocupada hoje. Só te pago uma bebida.
Aproximou-se de Ana.
- Mas eu vou querer você só pra mim qualquer hora dessas.
Deu-lhe um beijo no rosto e saiu.
A morena ficou olhando-o ir.
[Pelo menos eles não insistem muito...]

Ana sentou-se num banquinho próximo ao balcão. Fechou os olhos e respirou fundo. Queria ir logo embora pra casa.
Seu coração deu um pulo quando ouviu a voz conhecida atrás de si, bem próxima do seu ouvido:
- Todo mundo quer um pedaço da violonista...
[Odeio esse efeito que ela tem sobre mim.]
Helena estava irresistível. Mostrando generosamente pernas, decote e pescoço.
- Helena... – a morena disse o nome apenas para senti-lo na boca.
Helena chegou bem perto, olhou-a nos olhos e disse:
- Senti sua falta, Ana.
[Eu também.]
- O que você quer? – Ana perguntou.
Helena não entendeu o mau-humor de Ana.
- Porque está tão irritada, Ana? – quis saber.
- Não tenho mesmo razão pra estar muito louca com você?
Helena não disse nada.
- O que você acha, Helena? Você e sua... sua... namorada...
- Ei! – Helena interrompeu. – De que diabos você está falando? Aline é minha amiga.
- Amiga? Você nem conhece a garota direito!
- Você está com ciúmes... – Helena disse. Parecia surpresa
- Não estou! – Ana protestou.
A loira falava baixo, mas tinha um tom firme.
- Se alguém deveria ter ciúmes aqui, – Helena chegou mais perto – essa pessoa sou eu. É você que tem dois caras querendo te levar pra cama.
Ana ainda estava irritada, mas tentou não sorrir. [Ainda bem que você não sabe do terceiro.]
- A diferença... – disse encarando a loira e falando igualmente baixo – é que eu, ao contrário de você, não faço nada. Agora com licença que eu tenho que voltar a tocar.
Helena ficou sem entender direito. [O que foi que eu fiz?]

*****

Enquanto os músicos tocavam, Luís aproximou-se de Júnior.
- Qual é a tua? – perguntou sem tirar os olhos do palco.
Júnior sorriu e disse:
- Ela – disse olhando para Ana.
Voltou-se para Luís e perguntou:
- E a tua, qual é?
- Não deu pra perceber ainda, não?
Júnior ficou intrigado.
- Mudou de lado agora?
Luís pensou e disse:
- Ela vale a pena.
- Não acredito em você.
Luís sorriu e retrucou:
- Não estou interessado no que você pensa.
- E no que ela pensa? – Júnior tinha aquele sorriso provocante. – Está interessado?
Luís levantou as sobrancelhas.
- Está me ameaçando?
- De modo algum. Mas não posso deixar você brincar com ela – disse Júnior.
- Não estou brincando. Isso é mais sério do que você pensa. – sorriu. – Porque você não tira seu time de campo?
- E porque faria isso? – quis saber Júnior.
- Porque não tem chance nenhuma.
- Isso... – Júnior ficou sério – não cabe a você decidir.
Saiu dali e foi conversar com um grupo de amigos numa outra mesa.

*****

No intervalo seguinte, Mel e Marcos sentaram-se com João.
- Ana te falou que marcamos a data do show? – Marcos perguntou.
- Não falou, não – respondeu João.
- Ana está com a cabeça na viagem – disse Mel sorrindo.
- Vai ser na terceira quinta-feira de abril – Marcos explicou.
- Sem problema – disse João. Pensou um pouco e perguntou:
- O que vocês vão fazer quando ela for embora? Volta o Rubão?
- Acho que não... – Marcos disse – o Rubão não dá tanto ibope.
- Entendi... – riu João. – vocês querem mais que um violão.
Desta vez foi Marcos quem riu:
- Aí que você se engana. Queremos é um violão mesmo.
- É claro... um violão que agradasse o público feminino seria ótimo também – disse Mel encarando João.
João não entendeu que Mel referia-se a ele. Então Marcos deu a dica:
- A Mel está falando de você, João!
- Aaaaaah! – ele riu meio sem-graça.
Nesse momento Ana juntou-se ao grupo. Depois de discutirem alguns detalhes do show, Marcos e Mel foram cumprimentar outros amigos no bar.
- Fazia tempo que não te via tão empolgada com alguém – Marcos disse baixinho à Melissa ao levantarem. – É sério isso?
- Não queria me envolver, Marcos, – ela disse – mas não consegui evitar.
- E qual é o problema? Ele me parece um cara super legal.
Melissa respirou fundo.
- Olhe como ele olha pra Ana.
Marcos olhou de volta para a mesa. João e Ana conversavam animadamente.
- Ele está totalmente apaixonado por ela – disse ela sem conseguir esconder a tristeza.

*****

Helena sabia que não estava sendo boa companhia naquela noite. Nem estava tentando ser. Não conseguia disfarçar o mal-estar que sentia cada vez que uma companhia masculina se aproximava de Ana.
[Que droga! Não largam do pé dela.]
Ana estava mesmo incrível naquela noite. Não era nem preciso mencionar como ela era sexy tocando violão. O jeito meio tímido combinado com aquele jeito atencioso de conversar... [Não há como não se apaixonar por ela.]
[Pelo menos agora está conversando com João agora.] São amigos.
Aline a observava com atenção. Bebeu da cerveja e disse:
- Eu também acho.
Helena saiu do seu transe:
- Acha o que?
- Acho que ele está a fim dela.
Helena balançou a cabeça.
- Imagina! [Que idéia!]
Quem chegou interrompendo a discussão nesse momento foi Júnior. Tinha um sorriso enorme nos lábios e sem dizer uma só palavra já estava irritando profundamente a loira.
- Fala, Júnior – Helena disse impaciente.
- Oi Helena – ele respondeu – como estão as coisas?
Voltou-se para Aline:
- É Aline, não é?
- Sim – ela respondeu. Também estava observando-o com atenção.
- Só vim falar um ‘oi’. Adoraria continuar a conversa – mesmo sabendo que atrapalho – mas tenho que pegar a estrada de manhã.
- Vai pra onde? – perguntou Helena.
- Você sabe... trabalho.
- E onde é que você trabalha? – perguntou Aline.
- Santo Inácio.