22 dezembro 2006

Capítulo II

São Paulo, outubro de 2001.

Ana estacionou o carro e desligou o motor. Encostou a testa no volante do carro e bateu de leve, repetindo o movimento algumas vezes. Helena, ao seu lado, a olhou preocupada. - Você não tá bem, não é, Ana?
- Estou apenas cansada.
- Você precisa ir mais devagar com as coisas, amiga. Sua tese está consumindo suas energias. Você nem curtiu o filme direito. E foi tão engraçado.
- É, eu sei. Nunca te vi rindo tanto. Posso contar pra os outros que você gosta de filme pra criança?
- Que isso, não é filme só pra criança. É animação. E você gosta também.
- Vim com você porque João não gosta dessas animações.
- Eu adoro rir. Os filmes que ele gosta não fazem minha cabeça.
- Estou brincando, Helena. Também curto essas animações.
- Me diverti pra caramba. Mas não posso dizer o mesmo de você. – olha nos olhos da amiga. – Tenho me preocupado com você. Você tem se alimentado direito?
- Não dá muito tempo de pensar em comer bem, Helena. Eu tenho que terminar de escrever. Falta tão pouco.

Silêncio. Não que isso fosse algo desconfortável entre as duas amigas. Ana levanta a cabeça e Helena a está encarando com a cabeça meio virada de lado. Ana sabia que alguma idéia maluca estava se formando dentro da cabeça da amiga.
- O que foi, Helena?
- Hmmm...
- Ih, tenho até medo quando você me olha assim. Que é que tá pensando, Helena?
- Tive uma idéia. – o sorriso de Helena era contagiante.
- Desembucha – Ana diz sorrindo, mesmo sem saber do que se tratava.
- Vou me mudar pro seu apartamento e cuidar de você até você terminar de escrever.
- Tá doida? – o sorriso desaparecera.
- Não. Acho que é perfeito. Você se concentra em escrever e eu cuido de você. Cozinho, cuido do seu apartamento e das suas coisas até você terminar.
- E suas coisas, Helena? Seu apartamento, seu trabalho.
- Ana, você sabe que eu trabalho em casa. Tudo o que eu preciso está no laptop e eu posso carregá-lo comigo. Posso usar sua conexão. Você tem wireless?
- Tenho...
- Então não há problema.
- Mas você não pode se dar ao luxo de gastar tempo cozinhando. Você tem seus artigos pra escrever...
- Ei... Cozinhar pra você não seria diferente de cozinhar pra mim. Não vou virar sua escrava. Só vou me assegurar que você está comendo direito. Fora isso, trabalhamos o tempo todo. Eu nos meus artigos e você na sua tese.
- Não sei... A gente conversa mais que a boca quando tá junto.
- Eu te ajudo. Fico quieta no meu canto. Além disso, é só por um período de tempo.
- E o seu apartamento? Vai deixar sozinho?
- E desde quando isso é problema?
- Seus pais...
- O que tem eles? Não vai mudar nada, continuamos nos vendo nos finais de semana. E quando eu for visitá-los, te carrego comigo. Aliás – disse rindo e balançando a cabeça – do jeito que minha mãe te adora, ela seria capaz de se oferecer e vir pessoalmente cuidar de você.
Ana sorriu, concordando.
- Meu Deus, minha mãe gosta mais de você do que de mim mesma, Ana.
- Também não é assim.
As duas riram, lembrando-se de como Leonora realmente gostava de Ana.
- E João?
- O que tem João?
- O que tem João? – Ana riu – Ainda pergunta? Ele é seu noivo. O que vai achar de você se mudar pro meu apartamento?
- Ana, João sabe que você é família. Eu tiro um tempo pra ele no fim de semana, como sempre fazemos. No apartamento dele.
Helena sorriu e continuou:
- E ele também faz parte do seu fã-clube, Ana. Aliás... Pensando bem... Incrível isso. Minha família e meu noivo veneram o chão que você pisa.
Olhou pra amiga e disse rindo:
- E meu noivo te acha sexy.
- De onde você tirou isso? Ele por acaso é cego?
- Você surgiu numa conversa entre a gente há algum tempo. Ele se empolga todo quando eu digo que você vai aparecer. Gosta tanto de você. E me falou que te acha muito atraente.
- Que piada isso. O noivo de Helena me acha atraente. Ele gosta é do violão – Ana estava tentando mudar o rumo da conversa.
- Você realmente acha que é o seu violão?
- Acho que sim. A música empolga as pessoas. – Ana não estava gostando da conversa.
Helena sorriu incrédula.
- Então você acha que esses caras que vão te ver no bar toda semana não estão nem aí pra essas suas pernas quilométricas e essa sua bunda? Esse seu jeito meio tímido misturado com “me coma, por favor”.
- Ei! Não tenho esse jeito! – Ana fingiu protestar, dando um tapa de leve na coxa da amiga.
Helena ria.
- É tudo por causa do violão? Ana, se eu fosse gay, já teria te papado há tempo – disse rindo divertida.
- Helena...
- É verdade! Porque Deus te deu esse corpo, esse rosto e talento musical, tudo junto, eu nunca vou entender. Tudo pra uma pessoa só. Tão injusto esse mundo!
Agora era Ana quem ria.
- É verdade, Helena. Tão feinha você. E tão burrinha, coitada. Quem trabalhou como modelo?
- Eu só desfilei algumas vezes naquele evento beneficente que tinha todo ano.
- É, mas Estela queria te contratar. Além disso, quando saímos juntas não tem pra ninguém. É um desfile de olhos masculinos te secando. Nunca vi isso.
- Mas não é disso que eu tava falando. Eu estava dizendo que você é linda e que meu noivo te acha muito gostosa.
- Helena.
- É, eu sei. Tô te deixando sem jeito. Adoro fazer isso, minha querida. Essa é a minha função nesse mundo. – Helena abriu um sorriso enorme.
Ana fez uma careta.
- É que você fica tão bonitinha quando está encabulada – a última frase foi dita com uma voz como quem conversa com um bebê. Helena fez biquinho com os lábios e apertou uma das bochechas de Ana.
- Helena, larga do meu pé.
- Ok, parei. – disse ficando séria.
Silêncio.
- E aí? Amanhã ou depois de amanhã?
- O que?
- Pra eu me mudar pro seu apartamento.