23 dezembro 2006

Capítulo LIII

No dia seguinte Ana voltaria a tocar no bar. Já podia tocar por um período maior de tempo sem sentir dor e estava pronta para voltar à sua rotina.
Por volta das sete da noite chegou ao estacionamento do bar com o carro que João lhe emprestara. Achou curioso que houvesse tantos carros por lá.

Mas surpresa mesmo teve ao entrar no bar. A casa estava cheia. As mesas estavam todas ocupadas e havia muita gente em pé. Desde que começara a tocar ali, não conseguia se lembrar de ter visto o lugar tão lotado.
Ana, então, viu que no alto do pequeno palco, havia uma faixa enorme com os dizeres “Bem-vinda de volta, Ana. Amamos você.”.
Antonio, o dono do bar, tinha preparado uma enorme recepção para a sua volta. E foi ele quem veio recebê-la.
- Ana! – disse ele abraçando-a todo feliz ao vê-la.
- Antonio! – Ana não conseguia esconder a surpresa. – O que aconteceu aqui?
- Nossa estrela principal voltou. – Ele ria. – Achou que eu ia deixar passar batido?
- Não acredito! – disse Ana.
- É, mas não vai ficar se achando não. – ele disse em tom de brincadeira – Eu te adoro, mas fiz isso pra ter casa cheia.
- Claro, claro – ela disse.
Ele puxou-a para si e disse:
- Estou tão feliz de ter você de volta. E está vendo como você é querida? Todos vieram pra te ver.
Ana não acreditava. Estava todo mundo lá: os freqüentadores habituais, Melissa, Marcos e ainda Hugo, Sara, Duda, Flávio, João, Luís...

Seus olhos, é claro, procuraram por ela. E Ana a viu, sentada à uma das mesas. Deslumbrante, vestida para a noite numa mini-saia e blusinha. [Linda!]
No bar lotado, os olhos se encontraram.
Ao vê-la, a loira abriu um largo sorriso. E Ana não conseguiu negar-lhe o sorriso de volta. Sentiu aquele costumeiro calor por dentro. [Ela sempre vai ser capaz de me tirar o fôlego.]

Mas havia tanta gente ali para recebê-la. Passou pelas mesas, recebendo cumprimentos e abraços de fregueses e amigos e dirigiu-se ao palco. Melissa e Marcos já estavam lá e começavam a preparar-se para tocar.
Recebeu um abraço caloroso dos dois.
- Ana, estou tão feliz que voltou – disse Melissa.
- Você não faz idéia do quanto sentimos sua falta aqui – Marcos completou.
Ana estava emocionada.
- Obrigada, gente. Vocês são demais – disse.

Melissa abriu a noite com um pequeno discurso celebrando a volta de Ana ao bar:
- Boa noite pessoal. Hoje é uma noite muito especial. Especial porque uma pessoa que amamos muito voltou pra tocar com a gente.
Lançou um olhar para a morena ao seu lado e continuou:
- Eu queria que vocês recebessem comigo a Ana, nossa violonista.
O bar inteiro juntou-se a Melissa em aplausos. A morena sorriu timidamente. Ficou de pé onde estava e curvou-se agradecendo. Então sentou-se novamente no seu lugar um pouco atrás de Melissa.
Helena, na mesma mesa de Duda, Flávio e Hugo, bateu palmas com entusiasmo. [Ela é tão linda e talentosa e eu a amo tanto!]

Os músicos deram início à primeira seqüência de canções. As músicas eram conhecidas das pessoas que freqüentavam o bar.
Mas havia um clima diferente no ar. Talvez pela casa cheia, talvez pela alegria geral com a volta de Ana, talvez pela noite de clima agradável lá fora... Aquela noite no bar era especial.

*****

Helena não conseguia tirar os olhos do palco. Acompanhava cada gesto da violonista. Estava tão apaixonada que teve que controlar-se para não chorar ao ouvir as canções. Cada letra falava do que estava vivendo com Ana, do seu amor, do que significavam uma para a outra. [A gente vai sobreviver a isso tudo, Ana. E eu vou te reconquistar.]
A certa altura, Duda, que observava a euforia da loira, não agüentou mais. Puxou a loira de lado e lhe disse ao ouvido:
- Você precisa disfarçar! Está dando a maior bandeira. – então riu – Sabia que você está quase literalmente babando?
Helena fez uma careta e com muito custo decidiu prestar atenção ao que ocorria à sua volta. Resolveu ir até o balcão do bar, pegar uma bebida. Talvez ajudasse a pensar em outra coisa que não fosse Ana.

No balcão do bar, encontrou João, que tinha os olhos fixos no palco; parecia completamente envolvido pela música.
Helena pediu sua bebida e decidiu cumprimentá-lo:
- Oi.
- Ah, oi Helena. – ele disse.
- Tudo bem, João?
Ele bebeu do uísque que tinha na mão. Olhou para o copo e respondeu sem olhar para loira.
- Levando... Você?
Sabia que superaria o que tinha acontecido, mas ainda era difícil olhar para ela.
- Tô bem – Helena também estava achando interessante o copo em sua mão.
Nenhum dos dois sabia muito bem o que dizer ao outro. [Que situação!]
João olhou para o palco mais uma vez. E depois voltou-se e encarou a loira ao seu lado. Tinha uma expressão pensativa.
- Que foi? – perguntou Helena.
Ele balançou a cabeça e disse:
- Nada.
Ambos voltaram a atenção para o palco. Os dois – sem saber do que se passava na mente um do outro – pensavam na morena que tocava violão.

*****

Voltando para sua mesa, Helena viu Ana deixando o palco para o intervalo e sendo abordada por Luís. [Que sujeito insistente!]
Com a atenção fixa no que se passava entre os dois, acabou esbarrando numa garota alta de cabelos castanhos. Não viu quem era. Desculpou-se e já ia continuando seu caminho para a sua mesa quando a moça virou-se. Era Aline.
- Oi – disse a moça com um sorriso capaz de iluminar a cidade inteira.
- Oi Aline. Que surpresa te ver aqui! – Helena respondeu.
- É a minha primeira vez. Você vem sempre, Helena?
- Sim. Venho pra ver Ana tocar – e olhou para o palco.
- Ah sim... sua amiga, não é? – Aline perguntou, mas não tirou os olhos de Helena.
- É.
- Ela é muito boa.
- É ela é demais mesmo.
- E parece ser muito querida também.
- É sim.
Helena ficou ligeiramente incomodada com Aline lhe encarando.
- E o seu namorado? – perguntou.
- Wil não pôde vir.
- Já viu Hugo e Sara? Estamos ali naquela mesa.
- Ah, legal... será que cabe mais um? – perguntou Aline.
- Claro – Helena respondeu – Venha.
Aline acabou juntando-se ao grupo.

*****

Ana encerrou a breve conversa com Luís e veio cumprimentar a mesa em que estava Helena. Queria dizer oi aos seus amigos mais próximos. Mas principalmente, queria ver a loira de perto. Em vários momentos, tinha flagrado o olhar intenso dela seguindo-lhe e procurando-lhe os olhos. E Ana não tinha conseguido resistir. Estavam quase se devorando com os olhares que lançavam uma à outra.
Ana, é claro, não tinha esquecido a rejeição de Helena. Mas naquela noite, era como se as duas fossem pessoas diferentes. Imaginou que fossem duas desconhecidas que tinham se encontrado pela primeira vez e descoberto um desejo incontrolável uma pela outra.

*****

João também tinha se juntado ao grupo na mesa e a conversa estava animadíssima. As bebidas contribuíam para tornar todo e qualquer comentário ainda mais engraçado. É claro, o próprio assunto ajudava.
- Não, não... – Duda discordou de Hugo. – Pra mim, o melhor do Monty Python é “O Sentido da Vida”.
- É verdade... – concordou Aline – Aquela cena da origem da música logo no início me arrancou lágrimas. [Não consigo tirar os olhos dessa mulher!]
Aline fez uma imitação do homem da caverna batendo nos outros, o que provocou uma gargalhada geral.
- Eu me lembro dessa... – Ana disse – é mesmo hilária. O cara vai distribuindo pancadas a torto e a direito. [Se eu não me controlar aqui, vou agarrá-la no meio de todo mundo.]
- E a cena da aula de educação sexual? – perguntou Helena [Acho que nunca a vi tão linda assim.]
- Que o professor tem que pedir pra todo mundo prestar atenção? – Hugo respondeu.
- Acho que essa ninguém vai imitar aqui – disse Helena olhando para Aline.
Nova gargalhada.
- Hmmm... Eu ainda acho que “A Vida de Brian” é o melhor – disse João. [Como é que eu nunca percebi como Ana é fascinante?]
- Concordo, João – Flávio disse. – Eles tiram uma com qualquer assunto.
- A gente tem que se juntar pra assistir isso juntos – sugeriu Duda. [Será que vou ter que dar uns tapas na Helena pra ela sair desse transe?]
- É verdade – Ana concordou. – É outra coisa assistir isso em grupo.
A morena percebeu que Melissa e Marcos já estavam de volta ao palco.
- Hmmm... Tenho que voltar a tocar. – disse – Daqui a pouco eu volto.
Lançou um olhar e um sorriso para a loira. Helena disfarçou o calor que sentiu.

*****

Quando os músicos encerraram a noite por volta da meia-noite ainda havia muita gente no bar. Ana ficou ali mais um pouco conversando com alguns amigos, mas finalmente decidiu ir para casa. Helena tinha acabado de deixar o bar.

A morena entrou no carro, deu partida e foi embora.
Distraída, pensava na noite agradável que tinha tido.
Nem percebeu que estava sendo seguida por um carro. Um carro com três homens fortes e carrancudos.