23 dezembro 2006

Capítulo LXIV

Flávio e Júnior conversavam na sala do apartamento de Duda.
- Você está bem interessado nela... – observou Flávio.
- Ah, isso não é novidade, Flávio. – respondeu Júnior rindo – Nunca escondi nada... Aliás porque ela não veio?
- Eu sei que Duda a convidou, mas acho que pintou alguma coisa... – disse Flávio.
Da sala mesmo, perguntou em voz alta para Duda, que conversava com Helena na cozinha:
- Por que Ana não veio, amor? – perguntou.
As duas, entretidas na conversa, estavam terminando os últimos preparativos para o almoço de domingo. Não tinham ouvido o papo dos dois.
Duda olhou para Helena e, da cozinha mesmo, respondeu para o noivo:
- Ela ia sair com o Luís. [Ela desistiu de vir quando eu disse que Helena viria também.]
Na sala, Júnior fez uma careta.
- Preciso dar um jeito nesse concorrente... – disse com um sorriso.
- E esse nem é o seu maior obstáculo – respondeu Flávio sorrindo.
- O que você quer dizer com isso? – quis saber Júnior.
- Hmmm... não te contaram a novidade ainda? – perguntou Flávio.

*****

- Então você vai mesmo para os Estados Unidos? – Luís perguntou antes de tomar um gole do vinho. Estavam num restaurante italiano do qual ele gostava muito e saboreavam um rondelli recheado com diferentes tipos de queijo, um prato que Ana não conhecia, mas estava achando delicioso.
Ele nem tentou esconder sua intenção de impressioná-la. Estava, na verdade, conseguindo.
Ana estava curtindo o almoço e a companhia dele. Luís parecia realmente interessado nela. Fazia perguntas e ouvia com atenção. [Pelo menos hoje ele quer saber algo mais do que a lingerie que eu estou usando.]
Ele tinha ligado no sábado e sugerido que almoçassem juntos. Ana recusara o convite de Duda para o almoço. Disse à psicóloga que não queria encontrar Helena. Duda não gostou muito, mas acabou entendendo.
- Se tudo der certo com o visto, sim... – a morena respondeu.
- E quando exatamente você viaja? – ele quis saber.
- Tão logo saia o visto... Coisa de dois meses.
- Puxa, tão rápido? – ele não escondeu a frustração.
- Eu poderia esperar mais... – Ana explicou. – Mas decidi que quero ir logo. [Não tenho mais razão pra ficar aqui.]

*****

- É verdade, Júnior... – disse Duda – Ana aceitou a bolsa da universidade na Califórnia. Deve viajar em uns dois meses. Achei que você soubesse...
- Não, não sabia – ele disse. Então abriu um sorriso. – Então tenho dois meses pra convencê-la a mudar de idéia?
Helena fingiu que não ouviu. Nunca levara a sério o interesse de Júnior por Ana, mas ele não parecia estar brincando. Decidiu mudar de assunto.
- Você está de carro novo, Júnior? – perguntou – Vi você chegando numa picape nova.
- Você viu só o brinquedo novo dele, Helena? – perguntou Duda. – Eu deveria ter sido advogada. Com o dinheiro da clínica nunca vou ter um carro daqueles.
Júnior apenas riu.
- É... mas não basta ser advogado... – Flávio explicou – tem que ser advogado de político.
- Não sabia que você tinha deixado a empresa de advocacia – Helena disse.
- Eu ainda presto serviço pra eles. – Júnior explicou. – Mas meu trabalho mesmo é como advogado principal de um pessoal de uma cidade do interior do estado.
- Tá feito, hein, Júnior? – brincou Flávio.
- Ainda não... – Júnior disse com um sorriso – Agora preciso da garota certa pra compartilhar tudo isso comigo.

*****

- Eu não entendo muito como funciona um doutorado por lá... é muito diferente daqui? – perguntou Luís.
- É basicamente como um emprego – explicou Ana. – Se você tem bolsa, a universidade te paga um salário pra você estudar. E à medida que você vai avançando no curso, você ajuda a custear os estudos ensinando na própria universidade, como assistente de um professor.
- E de repente você pode tocar por lá também, não? – ele perguntou.
- Hmmm. Ainda não sei, Luís... – Ana disse – Esses cursos de doutorado costumam ser bem puxados...
Então disse pensativa:
- Por outro lado, como eu não tenho dinheiro nenhum, talvez precise mesmo arrumar um trampo pra complementar a bolsa...
- E pra viajar, Ana? – quis saber Luís – Você está legal de grana?
- Vai ser bem apertado – Ana respondeu – Tenho umas economias, mas vou ter que encarar toda chance de trabalho que aparecer até a viagem.

*****

- E você, Helena? – perguntou Flávio – está solteira mesmo ou já partiu pra outra?
- Não estou com ninguém, Flávio – Helena não queria ter aquela conversa.
- Mas... – Júnior disse – Não é por falta de pretendente, não é, Helena?
- Não sei do que você está falando, Júnior. [Será que ele descobriu alguma coisa?]
Helena queria mudar de assunto outra vez. Olhou para Duda buscando ajuda. Duda nada disse.
- Ah é, Helena? Quem é o sortudo? – quis saber Flávio.
- Não é sortudo, Flávio – Júnior tinha um sorriso malicioso nos lábios.
Fez um suspense e então disse:
- Desta vez, a nossa pegadora aqui fisgou o coração de uma mulher.
Helena engasgou com o suco.