No dia seguinte, Ana deixou o hospital. Leonora e Artur vieram buscá-la e levaram-na para a casa da família. Ana foi acomodada num dos quartos da enorme casa.
- Acho que vai ficar bem aqui. Esse quarto é bem iluminado. – disse Leonora abrindo as janelas. Helena, Artur e Hugo estavam ali também.
Ana sentiu-se, mais uma vez, imensamente grata por tudo o que estavam fazendo por ela.
- Olha... – começou – eu queria agradecer de coração tudo o que estão fazendo por mim.
Ficou emocionada.
- Eu não sei o que seria de mim se não fossem vocês – os olhos encheram-se de lágrimas. – Eu nem tenho palavras pra dizer o que vocês significam pra mim. E jamais vou poder retribuir o que estão fazendo.
Leonora também se emocionou:
- Nós amamos muito você, Ana. Não se esqueça nunca de que você é parte dessa família.
- E nós temos uma surpresa pra você – disse Artur. – Hugo, você pega pra gente?
Hugo saiu e voltou logo com um pacote.
- Isso é pra você, Ana. Feliz aniversário – disse.
- É hoje, não é? – perguntou Leonora.
Ana fez que sim com a cabeça. [Eles se lembraram!]
- Não acredito que vocês se lembraram.
Abriu o pacote. Era um telefone celular. Habilitado e pronto pra usar.
- Agora a gente pode te localizar a qualquer hora – disse Hugo.
- Como você pode ver, o gene do comportamento controlador compulsivo é dominante na família. – emendou Helena.
- Eu nem sei o que dizer, gente. – disse Ana. – Vocês são demais. Obrigada mesmo.
Cada um deles a abraçou, desejando-lhe feliz aniversário. Estavam felizes por tê-la em casa.
*****
Quando ficou só com Helena, a loira sentou-se na beira da cama.
- Helena, eu queria dizer uma coisa...
A loira fitou-lhe os olhos a fim de ouvir com atenção o que Ana ia dizer. Quando seus olhos encontraram os de Helena, Ana esqueceu o que ia dizer.
- Eu... eu...
- Hmmm?
- Meu Deus, Helena, não consigo pensar com você me olhando desse jeito.
- Tá bom, então não olho mais – e com um sorriso, virou os olhos para o teto. – Tá melhor assim?
Ana bateu-lhe de leve na perna.
- Não. Olha pra mim que eu quero te dizer uma coisa.
- Decide, Ana. – Ainda tinha aquele sorriso sarcástico.
- Tô falando sério, Helena.
- Ok. – fixou os olhos na morena mais uma vez. – tô ouvindo.
[Meu Deus, estou tão apaixonada por ela! Esses olhos verdes são a minha perdição.]
- E aí? – perguntou Helena – vai falar ou não?
- Olha... eu queria agradecer o que está fazendo por mim.
- Não precisa agradecer, Ana.
- Mas eu quero. Foi uma semana horrível e você ficou do meu lado o tempo todo. Mesmo tendo um milhão de coisas pra cuidar, você não me deixou.
- Eu nunca iria te deixar sozinha naquele quarto.
- Eu sei. E eu sou tão grata por isso.
Ana tocou o rosto de Helena com uma das mãos.
- Eu sou a pessoa mais sortuda do mundo por ter você na minha vida. E... eu te amo tanto, Helena!
Helena ainda tinha os olhos fixos em Ana. A morena continuou. Precisava dizer o que estava sentindo ou explodiria.
- Eu nunca imaginei que pudesse amar alguém desse jeito. Nunca ninguém chegou nem perto de ter o papel que você tem na minha vida.
A esta altura, Ana tinha os olhos cheios de lágrimas. Helena também se emocionou.
- E eu estou tão apaixonada por você que nem consigo pensar direito, Helena. Quando você não está por perto, eu fico pensando “quando ela vai aparecer?”. – Ana esboçou um sorriso entre as lágrimas. – Então você aparece. – Ana começou a traçar o contorno do rosto de Helena com o dedo. – E quando eu olho nesses seus olhos, eu perco a noção das coisas. Parece que eu estou caindo e não tem ninguém pra me amparar. Ao mesmo tempo, tudo parece fazer sentido. – respirou fundo. – Ver você sorrindo pra mim é... é... como voltar pra casa. Mas ao mesmo tempo chega a doer por causa da intensidade. É uma sensação tão incrível que eu nem consigo explicar.
Agora Helena também tinha os olhos cheios de lágrimas. Ficou em silêncio por um instante olhando a morena. Então disse baixinho:
- Essa foi a coisa mais linda que alguém já me disse.
Chegou os lábios mais perto dos de Ana e a beijou.
*****
A confissão de Ana era a certeza que Helena precisava para fazer o que fez a seguir. Saiu do quarto e voltou com um pacote.
- Agora eu quero te dar o meu presente – disse.
- Helena... não...
- Shhh... – Helena interrompeu, colocando-lhe a mão sobre os lábios. – Deixa eu fazer isso, Ana.
Helena entregou-lhe um pacote pequeno. Ana abriu.
Era um anel. Parecido com o que Ana tinha lhe dado, mas de design diferente.
- Eu não sou nem um pouco original – disse a loira com um sorriso.
Era uma jóia bonita. Ana estava sem palavras.
- Mas esse tem uma coisa que o meu não tem – completou Helena.
Pegou o anel na mão e mostrou a inscrição do lado de dentro: “Helena”.
Ana não acreditou.
Helena tomou-lhe a mão esquerda. Estava com receio da reação de Ana.
- Posso? – perguntou olhando nos olhos de Ana.
A morena sorriu.
- Deve – respondeu.
Helena deslizou o anel pelo dedo de Ana e beijou-lhe a mão.
- Eu também te amo. Muito – disse.
*****
Na manhã seguinte, Helena trouxe seu laptop até o quarto e o colocou no colo de Ana para que pudesse checar seus e-mails.
A morena abriu sua caixa postal e ficou surpresa com o número de mensagens. Os e-mails tinham se acumulado por causa da semana no hospital. Também porque, por causa do ocorrido, muita gente tinha escrito, querendo notícias.
Mas uma mensagem em particular lhe chamou a atenção: era da University of California, Los Angeles.
Ficou ansiosa, o coração começou a bater mais rápido.
O coração acelerou mais ainda quando leu o conteúdo do e-mail.
Tinha sido aceita no programa de doutorado em antropologia.