Ana e seu trio estavam tocando a última música do bloco, antes do intervalo, quando a morena levantou os olhos e viu Helena entrando no bar com João. A loira tinha dito que talvez aparecesse, mas não tinha dado certeza. Assim que entrou, Helena cravou os olhos no palco, procurando pela violonista. Quando os olhares se encontraram, Ana sentiu aquele calor subir-lhe o corpo. Helena estava deslumbrante. O ambiente mudou imediatamente para melhor. Mesmo estando João abraçado à jornalista. Engraçado isso. Mesmo depois de descobrir-se apaixonada pela loira, Ana não tinha nada contra João. Afinal, ele era apenas o sortudo que tinha conquistado Helena. Sentia ciúmes? Sim. Morria de ciúmes ao imaginá-lo tocando Helena. Mesmo vendo-o segurando a mão da loira era doído. Mas João era seu amigo também. E era um sujeito bacana. Não tinha raiva dele. O sentimento era mais de inveja que qualquer outra coisa. Apenas queria estar no lugar dele.
No intervalo, foi cumprimentar os dois.
- Oi João. Que bom que veio.
- Oi Ana. Fazia tanto tempo que eu não aparecia por aqui.
- Verdade. Trouxe o violão? Quer dar uma canja?
- Não, Ana. Hoje só vou curtir quem toca de verdade.
- Seu bobo. Você não fica atrás de ninguém.
- Obrigado, Ana. Vou fingir que acredito.
- E Helena? Tá quieta por quê? Tá doentinha? – Ana frisou “doentinha” com um beicinho.
- Vai alugando, Ana – Helena respondeu. – Me vingo em casa.
- Vou pegar uma bebida pra gente. – disse João. – O que quer Helena?
- Uma cerveja – respondeu ela.
João foi atrás das bebidas.
Helena tinha se vestido para provocar. A blusa até que era comportada, mas as pernas longas estavam generosamente expostas pela saia curta. O cabelo parcialmente puxado para cima, deixava ombros e pescoço mostra. [Definitivamente, a parte do corpo dela que eu mais adoro. E os cabelos. E os olhos. E a boca. Ah, meu Deus!]
Ana estava “bebendo” a loira à sua frente. A penumbra do bar, a música ao fundo, outros rostos, a noite, tudo contribuía para que seu desejo pela loira se intensificasse exponencialmente. A atmosfera do bar e o jeito como estava vestida deu-lhe a impressão de que se tratava de outra pessoa; não a amiga com quem compartilhava o apartamento. Por um momento, imaginou que fossem duas desconhecidas. Ana não conseguia parar de sorrir. A loira lhe retribuía a intensidade do olhar. E sorria do mesmo jeito.
- Oi – disse Ana.
- Oi.
- Vem sempre aqui?
- Tento – a loira resolveu entrar na brincadeira da morena. – A música é sempre boa.
- Ah é?
- A guitarrista é excelente.
- Guitarrista?
- É. A morena de cabelos longos.
- Hmmm... Acho que é violão o que ela toca.
- Não. É guitarra mesmo.
- Ah, estou vendo que você é especialista no assunto. – provocou Ana. – Eu não entendo muito. Pra mim violão e guitarra é tudo a mesma coisa.
- Não, não – disse Helena fingindo seriedade. – tem uma diferença enorme. A morena toca guitarra.
Ana riu.
- E ela é boa?
- Excelente. Não que alguém esteja prestando atenção.
- Ah... Não prestam atenção na música?
- Não. Os caras só vêm aqui pra babar na bunda dela.
Ana caiu na risada.
- Você é uma mala sem alça, Helena.
- Eu sei.
João voltou com as bebidas.
- Posso pedir uma música? – perguntou Helena.
- Claro.
- Toca “Ferrugem” pra mim.
- Djavan?
- É.
- Eu não solo essa...
- Eu sei. Já vi Melissa cantar.
- Ok, assim que a gente voltar, tá?
Ana correu os olhos pelo bar e viu Luis sentado sozinho. Ele sorriu para ela.
Luis era boa companhia. Estava vindo ao bar com freqüência só para vê-la. Mas Ana não queria deixar Helena para estar com ele. Por outro lado, precisava fazer alguma coisa para tirar Helena da cabeça. Não que estar com Luis estivesse funcionando. Por mais quentes que fossem suas sessões com ele, não conseguia sentir nem um pouco do que Helena lhe causava com um simples abraço. Mas não podia continuar a viver desse jeito, desejando a amiga que estava noiva de outro amigo. Por isso resolveu deixá-los e ir procurar por Luis.
- A gente se fala depois – disse para Helena. – Beijo, João.
Foi até lá. Ele levantou-se. Abraçou-a e deu-lhe um beijo. Os braços dele correram pelo corpo dela e pararam na parte que mais gostava. [Apaixonada ou não por Helena, este homem sabe pegar.]
Estavam num canto do bar e não chamaram tanto a atenção do restante das pessoas. Chamaram, sim, a atenção de Helena, que com muito custo desgrudou os olhos do casal para prestar atenção ao que dizia João. [Hmmm, não gosto desse cara.]
*****
Na tarde seguinte, o celular tocou e Helena atendeu.
- Alô.
- Helena Chagas?
Helena reconheceu a voz masculina. Gelou.
- Ela.
- Você vai entregar os documentos amanhã às seis da tarde no Parque São Gonçalo. Anote o endereço porque eu não vou repetir.
Helena ouviu atentamente e anotou o endereço.
- Venha sozinha. Coloque os documentos num saco plástico de supermercado. Deixe-os sobre o banco da praça e saia sem olhar para trás. Se alguma coisa der errada, eu vou atrás de você.
Desligou.
Ana, que estava com ela na sala, entendeu do que se tratava. Levantou-se da sua mesa e abraçou a amiga.
- Eu vou entregar o dossiê amanhã, Ana. Ele pediu pra eu ir sozinha e deixar tudo num banco da praça.
- Eu vou com você.
- Não, Ana...
- Não vou discutir isso com você, Helena. Não vou deixar você ir sozinha até lá.
- Mas...
- Eu fico no carro, se isso faz você se sentir melhor.
- Tudo bem.
*****
E assim foi feito. No dia seguinte, Ana levou Helena até o local indicado e ficou esperando-a no carro. Abraçou a loira e ela saiu do carro.
Helena andou até o banco com o pacote em mãos. Exatamente às seis horas, sentou-se no banco. Não havia ninguém por perto. Colocou o pacote sobre o banco, levantou-se e andou em direção ao carro.
Foi tudo bem rápido. Assim que ela entrou no carro, Ana respirou aliviada. Deu partida no carro e saíram dali.
*****
Em alguns dias, não pensavam mais no assunto do dossiê. Também, ninguém ligou. Helena concluiu que os papéis tinham chegado às mãos de quem a ameaçava. Quando pensava na história toda, ficava com muita raiva. Queria mesmo ver quem estava por trás disso tudo na cadeia. Mas optou pelo caminho mais fácil e resolveu esquecer tudo.
Tudo? Não exatamente. Helena, assim que recebera o dossiê, tinha tirado cópias de todos os papéis e CD. Seu texto explicando os detalhes das transações ilegais das secretarias da prefeitura estava praticamente pronto. Tinha estudado os documentos e tinha decifrado o caminho que o dinheiro percorria. Sabia no bolso de quem estava indo parar cada centavo desviado. Sabia também que o que tinha em mãos era mais do que suficiente para uma reportagem-denúncia ou abertura de inquérito policial. Mas estava com medo. Quem quer que estivesse por trás das ameaças, estava ciente da mesma coisa.
*****
O fim de semana chegou e Ana concentrou-se no trabalho. Decidiu aproveitar um novo fluxo de idéias que estava tendo. Luis insistira para que fizessem alguma coisa juntos, mas ela preferiu ficar em casa escrevendo. Estava mesmo quase terminando. Havia ainda muito o que fazer, mas a parte das idéias e argumentos estaria concluída até domingo. Como sempre fazia, Helena saíra na sexta com João e voltaria no domingo à noite. Ana sentia uma falta imensa da amiga, mas concluiu que o fim de semana seria produtivo exatamente pela ausência da loira. Seus sentimentos por Helena, embora mais sob controle que no início, não diminuíam de intensidade. Às palpitações e faltas de ar, juntou-se uma dor profunda de saber que não teriam um futuro juntas. Ana sofria quando via Helena com João. Sentia-se mal com esse novo sentimento. Afinal, João era seu amigo. Queria sentir-se feliz por eles. Mas não conseguia. Queria estar no lugar dele e poder tocar Helena. Queria mesmo fazer amor com ela e ouvi-la dizer seu nome naqueles momentos tão íntimos.
*****
No finalzinho da tarde de domingo, Helena estava num barzinho com João e mais dois casais amigos. Eram conhecidos que se viam com freqüência. Os rapazes eram amigos próximos de João. Helena não tinha tanta intimidade com eles, mas as namoradas eram companhias agradáveis; gostaram-se imediatamente. Já tinham saído algumas vezes juntos. O lugar em que estavam servia bons aperitivos e bebida de primeira. Estavam sentados ao ar livre. A noite de outubro estava incrivelmente fresca. As piadas fluíam num ritmo quase frenético de todos os lados da mesa e Helena ria como nunca, contribuindo aqui e ali com suas tiradas. Estava realmente se divertindo.
Então porque motivo, estava com uma vontade louca de pegar o celular e ligar para Ana para ver como estava? Ensaiara fazer isso várias vezes, mas ficava em dúvida porque não conseguia achar uma boa explicação. Sabia por que queria ligar. Queria ouvir a voz da morena, saber o que estava fazendo. Estava sentindo uma falta danada de Ana. Mas estaria com a morena em questão de horas, não tinha como explicar o telefonema.
Entre uma risada e outra estivera contando os minutos. Queria que o domingo acabasse logo, para poder voltar para o apartamento de Ana. Afastou da mente qualquer pergunta sobre o porquê de estar fazendo isso. Não queria pensar em como isso era esquisito. Decidira não tentar dar explicações a tudo de estranho que estava fazendo ultimamente por causa de Ana. Só queria ver Ana e pronto.
*****
Novembro chegou e Ana finalmente concluiu os últimos capítulos da tese. Revisou o trabalho. Tinha levado menos tempo do que previra inicialmente. Ficou em dúvida se contava para Helena imediatamente ou esperava mais um pouco. Não queria que a loira deixasse seu apartamento.