Ana pulou da cama cedo naquele dia. Foi direto para o banheiro. Lavou o rosto e foi para a sala. A porta do quarto de Helena estava aberta. Nem sinal da loira. Era cedo ainda, não tinha voltado da corrida matinal. Ana procurou o controle remoto, ligou o som do rádio. Era uma estação de jazz. Esparramou-se no sofá. Ficou quieta de olhos fechados ouvindo a música. Estava tentando organizar seu dia.
[Hoje tenho que me encontrar com o orientador na faculdade... Vai tomar um tempo lascado só pra chegar lá... Pelo menos não vou tocar hoje... Vou de ônibus ou vou de carro? Ônibus é mais barato... Meu carro tá tão ruinzinho, coitado. Qualquer hora me deixa na mão... Mas agora não tenho grana pra mandá-lo pra oficina.]
- Madrugou hoje, Ana. – Helena disse ainda ofegante da corrida, ao entrar no apartamento.
Ana assustou-se com a voz da amiga.
- Que susto, Helena! – Recompôs-se. – eu tava tão distraída...
- Desculpa. Achei que tivesse me ouvido entrar.
- Tudo bem... – levantou-se do sofá. – Vai tomar banho que eu preparo o café.
Helena foi para o banho e Ana foi para a cozinha. Pôs a água pra ferver, arrumou a mesa, colocou o pão, manteiga, bolo e foi checar seus e-mails enquanto esperava pela água. Preparou o café e voltou ao computador. Depois de alguns minutos quando Helena entrou na cozinha, o cheiro de café era irresistível.
- Hmmm, tô morrendo de fome, Ana.
Ana levantou os olhos e tentou a todo custo disfarçar o efeito que a blusinha de alcinha de Helena estava tendo sobre ela.
Sentaram-se ambas à mesa.
- Hoje eu vou passar boa parte do dia fora, Helena. – explicou Ana entre uma mordida e outra no pão. – Tenho que me encontrar com Paulo do outro lado da cidade e vou de ônibus – disse encarando Helena.
- Por quê? – perguntou Helena.
- Porque o que? [O que foi que eu falei mesmo? Deus, como é difícil coordenar as idéias com essa mulher vestida assim.]
- Porque vai de ônibus?
- Meu carro não tá muito confiável. Preciso levá-lo a oficina. [Ela tem um colo maravilhoso. Seios do tamanho certo. Como seria senti-los na minha mão?]
- Que besteira, usa meu carro, Ana. Vou ficar por aqui o dia todo.
- Hmm?
- Planeta Terra para Ana. Tá pensando no que, mulher?
- Ah... Não gosto de emprestar seu carro, Helena.
[E aquele pescoço pedindo pra ser beijado? Ela tem um cheiro tão bom!]
- Leva meu carro. Vai ser mais rápido. Se quiser, deixo seu carro na oficina.
- Hã? Eu posso me virar...
[Sutiã nem pensar, né, Helena? Meu Deus, ela quer me matar!]
- Tá decidido. Usa meu carro. A que horas é seu compromisso?
- Logo depois do almoço.
[Ela tá sorrindo pra mim.]
- Então porque a gente não vai junto pra oficina agora de manhã e deixa teu carro lá? Então você me traz de volta.
- Hã?
- Ana Maria...
- Hã?
[Eu adoro esse sorriso dela.]
- Você tá avoada hoje. Não tá ouvindo o que eu tô falando.
- Tô com sono ainda...
- E aí? Vamos resolver o lance do carro hoje ou não?
- Não. Melhor outro dia.
- Ok, mas, por favor, leva meu carro.
- Olha, não quero mesmo usar seu carro hoje. Eu posso ir de ônibus. Não vai ter problema nenhum.
Silêncio.
- Tudo bem. – concordou Helena. – Mas se precisar é só pegar as chaves.
Ana foi para o computador cuidar dos detalhes do seu encontro com o orientador. Mas não conseguia tirar a visão da loira com aquela blusa da sua mente. [O que está acontecendo comigo? Eu nunca senti isso por nenhuma mulher... Não consigo parar de pensar em... em... beijar... é isso mesmo... beijar aquele pescoço e aquela boca.]
- Vou tomar um banho, Helena. [Gelado. Quem sabe a água não leva isso o que eu estou sentindo?]
Ana saiu para o seu compromisso com Paulo por volta do meio-dia. O banho gelado não tinha ajudado muito e a cabeça parecia querer explodir de tanto que matutava sobre as idéias que lhe ocorriam com relação à Helena.
Quando ficou só, a loira também ficou pensando em Ana. A amiga parecia distante, mas na verdade, Helena percebia-lhe os olhares intensos. Alguma coisa estava acontecendo naquela cabecinha e ela iria descobrir.
A loira voltou para o computador. Abriu um e-mail de um conhecido. A mensagem continha uma proposta que lhe chamou a atenção imediatamente. Pegou o telefone e discou o número que estava no e-mail.