14 fevereiro 2007

Capítulo LXXXII

- Mas porque não me contar? – Ana perguntou – Eu tinha o direito de saber quem estava por trás disso tudo, afinal fui eu que apanhei!
Oliveira estava sério. Estava pensando no quanto podia contar a Ana.
- Me diga uma coisa... – ele disse finalmente – você vai mesmo embora?
- Vou. Em duas semanas.
Isso facilitava tudo.
- Olha... o que eu vou lhe contar, você não pode contar a Helena...
[A loira não está merecendo minha confiança ultimamente mesmo.]
- Por que não? – perguntou Ana.
- Eu preciso que ela entre com uma denúncia e apresente os documentos como prova contra as pessoas que estão por trás do esquema de corrupção na prefeitura e que, na minha opinião, armaram uma emboscada para você. O testemunho dela é muito importante. Mas ela disse que só fará isso quando você estiver longe daqui e a salvo.
Ana nada disse. [Então era o que eu suspeitava.]
Sua mente voltou no tempo. Lembrou-se das atitudes aparentemente incoerentes de Helena nos últimos meses. Num dia evitava-a, tratando-lhe com frieza; no outro, mostrava o quanto estava apaixonada.
[Isso explicaria o comportamento dela.]
- Estávamos tentando proteger você, Ana Maria. Quanto menos você soubesse melhor para sua segurança.
- E o que mudou? – Ana quis saber – porque está me contando isso agora?
- Você não está mais em perigo.
- Não? Como sabe?
De repente, Ana entendeu.
- Eles são policiais!
Oliveira sorriu. Ela já tinha desconfiado.
- Não exatamente.
- O que quer dizer?
- Helena os contratou – ele respondeu.
Ana ficou em silêncio de novo.
[Não acredito que ela fez isso!]
Sentiu gratidão. Pensou no quanto Helena deveria estar sofrendo por ter que guardar tudo isso para si mesma.
Mas não era bem assim. [Ela não tinha que passar por tudo isso sozinha.]
Ficou zangada.
[Aquela idiota! Como pôde esconder isso de mim?]

*****

Helena sentia-se perdida. Estava confusa. Tinha sido surpreendida ao ver Ana e João juntos.
Não, não era surpresa. Apenas tinha se recusado a ver a verdade.
Estava com raiva. Sentia-se enganada.
[Mas também o que você queria, Helena? Você a rejeitou...
Sim, mas por uma boa razão.
Razão que ela não sabe.
O que ela deveria fazer?
Esperar que você a quisesse de volta?]
Não importa.
[Estou com muita raiva.
Como ela pôde fazer isso?]
Tinha ciúmes de Luís, mas nunca o vira como uma ameaça séria. Ana nunca falara dele com entusiasmo. O ciúme era mesmo porque ele tinha ido pra cama com ela.
Júnior também não era problema. Conseguia ver que Ana o tratava apenas como um amigo.
Mas João...
Isso parecia sério. Ana gostava dele. [Está apaixonada?]
Helena não sabia.
Reviu a cena em sua mente.
Sentiu-se mal. Um nó na garganta.
[Eu vou perdê-la...]
Queria sair correndo.
O telefone tocou.
Era Aline querendo saber se estava tudo bem.
Combinaram de se encontrar mais tarde.

*****

Oliveira analisou o rapaz sentado à sua frente.
Parecia tranqüilo e nem um pouco aborrecido com as perguntas.
- O que exatamente o Sr. está investigando? – Luís perguntou.
- A agressão à Ana Maria e a tentativa de assassinato de Helena Chagas.
Luís ficou curioso.
- E os dois estão relacionados?
- Acredito que sim.
- O que quer saber de mim, investigador?
- O que estava fazendo nas duas ocasiões.
Luís puxou da memória.
- Eu acho que estava com um amigo no dia em que atacaram Ana.
- Ele pode comprovar isso?
- Sim.
- E no dia em que Helena foi atacada?
- Hmmm... nesse dia eu acho que estava no bar.
- No mesmo bar?
- É, o bar onde Ana toca. Estou sempre lá.
Oliveira nada disse.
Luís sorriu e disse:
- Acho que acabei de me tornar um forte suspeito de tentativa de assassinato.
Oliveira não disse nada novamente. Apenas fez uma anotação num bloco de notas.