À noite houve o esperado show da banda de Ana no teatro do SESC. Por volta das seis da tarde, os músicos estavam no palco testando o som e acertando os últimos detalhes. Testaram microfones e regulagens, passaram umas duas músicas e se aprontaram para o início do show. Estava tudo pronto.
João estava muito empolgado. Mas também estava nervoso. Não conseguia relaxar. Ana, mais experiente, tentou ajudar. Puxou conversa.
- João, relaxa, vai dar tudo certo.
- Tô tentando, Ana – ele disse.
Melissa observava. Então, aproximou-se de João e propôs:
- Deixa eu te fazer uma massagem, João.
- João... – disse Ana – se você não relaxar com a massagem da Mel, nada mais vai te relaxar. Ela é maravilhosa.
E era mesmo. João estava curtindo o toque de Melissa. E a massagem, de fato, ajudou-o a relaxar.
Quando acabou, Melissa deu-lhe um beijo no rosto e disse sorrindo:
- Você vai arrasar!
A cantora acreditava no que dizia. Tinha adorado a idéia de João juntando-se à banda. Para ela, ele ficava incrivelmente charmoso tocando violão. Estava acostumada a trabalhar com outros músicos, muitos até melhores que João. Mas ele tinha algo mais. Era quieto, um pouco tímido – o que Melissa achava incrivelmente atraente – e mostrava, na expressão do rosto, o prazer que sentia em fazer música. A cantora estava mesmo apaixonada por ele. E ao fazer a massagem, tentou disfarçar a sua empolgação por ficar assim tão próxima dele.
Ana teve a leve impressão de que havia algo mais naquela massagem.
*****
Helena chegou ao teatro por volta das sete horas. Ainda havia bastante tempo até o início do show, programado para começar às oito. Queria era poder ver Ana. Mas os músicos estavam atrás do palco, longes do público, concentrando-se para a performance. Encontrou vários amigos, mas não parou para conversar. Queria garantir um lugar próximo do palco.
Nesse momento, deu de cara com Luís. Cumprimentaram-se.
Ele puxou conversa.
- Como você está, Helena?
- Bem. E você?
- Tudo bem. Não nos falamos mais...
- Pois é... [Não que eu tenha sentido falta.]
Luís ficou em silêncio. Encarou-a.
[Chega de bancar o bom moço.]
- Você não vai com a minha cara, não é? – ele perguntou para espanto de Helena.
A loira olhou em volta para ver se alguém havia ouvido a pergunta. Não havia ninguém por perto.
- Posso saber do que é que você está falando? – ela perguntou.
- Não precisa esconder. Dá pra perceber.
- Você está louco...
- E eu sei porque.
- Ah é? – a loira não estava entendendo o porquê do confronto.
- Está apaixonada por ela – ele disse sem sorrir.
- Ela quem? – a loira fingiu surpresa.
- Ana, é claro.
- Você está maluco. [Será que está escrito na minha testa?]
Ele sorriu um sorriso sarcástico, debochado. Nem se deu ao trabalho de desmenti-la.
- Você deveria lutar por ela.
[Essa é boa... recebendo conselhos desse cara.]
- Eu...
Ele ignorou-a:
- Ana é tudo de bom. Ela vale a pena – Encarou a loira e continuou – Por outro lado...
- Por outro lado...??
Aquele sorriso irritante outra vez.
- Acho que ela já te escapou. A fila anda... e a fila dela está bem grande.
- Escuta aqui... – Helena começou.
Mas ele não ficou pra ouvir.
- Outra hora... – disse saindo.
E deixou a loira falando sozinha.
Helena estava irritada. [Mas que diabo! Quem mais vai querer me queimar na fogueira?]
Continuou a olhar para Luís que agora tinha parado para cumprimentar Júnior.
[Não sei se eu te odeio mais por você ter ido pra cama com ela ou pelo que você falou.]
Nesse momento, Duda acenou para ela do outro lado do teatro. Ela e Flávio vieram sentar-se perto dela. Flávio saiu em seguida para cumprimentar uns conhecidos.
- Já volto – disse.
- Não nos falamos muito nessa última semana, Helena – disse Duda – mas quero saber o que anda acontecendo.
- A novidade é que o visto de Ana saiu e ela deve viajar nas próximas semanas. Acho que até já reservou o vôo.
- Ah é? Pra quando?
- Eu não sei exatamente. Não estamos conversando muito, Duda.
- Como você está?
- Não muito bem. Está caindo a ficha que ela vai mesmo embora...
Duda colocou a mão sobre o braço da prima.
Helena olhou para a entrada do teatro e viu Aline. A moça veio em sua direção.
- Qual é a dessa garota, Helena? – Duda perguntou.
- Já te falei, ela é uma amiga.
- Ela grudou em você, Helena. Está a fim dela?
- Claro que não. Ela só está me fazendo companhia. Deixa de ser implicante, Duda.
- Eu não gosto dela – Duda fez uma careta.
- Se comporte – pediu Helena sorrindo.
Com a aproximação de Aline, as duas pararam de falar.
As três cumprimentaram-se e Aline sentou-se ao lado de Helena.
*****
Os músicos tinham trabalhado duro para divulgar o evento. E o resultado estava lá: às oito da noite, o teatro, com espaço para quase seiscentas pessoas, estava quase lotado.
Havia bastante expectativa, mas Melissa e os instrumentistas estavam confiantes. Tinham preparado uma seqüência de quinze canções, com arranjos inéditos.
As luzes do teatro se apagaram. Acenderam-se focos de luzes sobre os músicos no palco. E Melissa começou a cantar, acompanhada apenas pelo violão de Ana.
Helena quase não se segurou. Ana estava linda. A loira estava emocionadíssima. Sentiu que ia explodir de orgulho. A música... Ana com aquele jeito tão descolado e atraente de tocar o violão... as luzes do palco... a voz de Mel... Duda, ao seu lado, deu-lhe um cutucão. Helena controlou-se para não chorar de emoção.
Acabado o primeiro verso, o restante da banda entrou acompanhando a cantora e Ana.
*****
O show foi um sucesso. Embora fosse uma apresentação da banda, ou seja, um evento e repertório bem diferentes do que tocavam no bar, o público participou cantando algumas das músicas. Outras eram menos conhecidas. Mas agradaram bastante. Ao final, foram aplaudidos com entusiasmo.
*****
Acabado o show, os músicos guardaram os equipamentos rapidamente e desceram para a entrada do teatro a fim de receberem os amigos mais próximos e outros que tinham resolvido ficar para cumprimentá-los.
Ana queria ver Helena. Mas quando chegou na entrada do teatro, foi cercada por um grupo de amigos, querendo abraçá-la. Alguém trouxe flores. À distância viu Helena. E ao lado dela, viu Aline.
[Mas que coisa!]
Finalmente as duas conseguiram se cumprimentar. Mas não puderam falar muito.
Helena abraçou-a calorosamente e disse-lhe ao seu ouvido:
- Você é fantástica. Demais. E eu te adoro.
Era tudo o que importava para a morena: saber que Helena tinha gostado.
Outros amigos pediam a atenção de Ana. Helena sabia que aquela era a noite da violinista e de seus fãs. Ficou assistindo toda orgulhosa, conversando com alguns conhecidos.
As conversas se estenderam por mais alguns minutos. Mas o grupo foi diminuindo e grande parte dos amigos foi indo embora. Os músicos conseguiram finalmente deixar o teatro. Tinham planejado uma pizza em algum lugar. Ana iria com João.
No caminho para o carro, Ana e João discutiam detalhes da apresentação. Erros que o público não tinha percebido, outras coisas que tinham dado certo, solos, surpresas e passagens que tinham saído diferente do ensaiado.
João estava vibrando. Queria discutir cada momento do show. Tinha adorado a experiência.
Chegaram no estacionamento.
Ana também estava feliz pelo resultado do trabalho e pela participação do amigo.
- João, estou muito orgulhosa de você – sorriu. – Acho que você já pode vender as lojas e viver de música.
Ele riu. Ficou mais feliz ainda. A opinião de Ana era importante.
- Obrigado por ter me convidado, Ana. Não teria conseguido se não fosse por você. E você estava demais!
Ele abraçou-a e disse:
- Você é demais!
Então tomou-lhe o rosto entre as mãos e a beijou.
Helena, do seu carro, viu a cena toda.