Ana não tinha controle sobre seu corpo ou sobre suas reações. Com o beijo, Helena tinha tomado conta dos seus sentidos: os olhos verdes escuros de desejo, o cheiro discreto do perfume que conhecia tão bem, o toque macio dos lábios, a mão ágil que rapidamente agarrou-lhe a cintura, a sensação da língua quente de Helena na sua boca...
- Você é minha – Helena parecia dizer com aquele beijo.
E Ana respondia sem palavras:
- Sim, sou sua, Helena.
Então, sem dizer palavra, e tão abruptamente quanto entrou, Helena interrompeu o beijo e saiu.
Ana ficou lá. Sozinha. Tentando controlar a respiração. Imediatamente sentindo falta do contato do corpo da loira.
Levou alguns minutos para se recompor.
Sentindo-se mais dona de si, não conseguiu evitar o sentimento de frustração que seguiu o beijo. [Eu jamais vou conseguir me livrar da influência dela.]
Sentiu tristeza.
[Isso não tem futuro.]
Respirou aliviada ao lembrar que seus dias próxima de Helena estavam contados.
Mas sentiu um vazio enorme também ao constatar isso.
*****
Helena deixou o banheiro e foi recompondo-se no caminho ao salão principal do restaurante.
Porque tinha feito isso?
Não tinha certeza. Ver Ana e João juntos tinha lhe cegado. Puro ciúme. E reagiu sem pensar. Algo lhe disse que tinha que reclamar o que era seu. Ana era sua. Quando viu a morena levantar-se para ir ao banheiro, não pensou duas vezes. Nem sabia direito o que faria.
Para entrar de volta no salão do restaurante, tinha que passar por um corredor. E no outro lado, esperando à entrada do salão principal avistou Júnior. E ele parecia irritado.
Helena não entendeu. E não estava interessada saber. Quis ignorá-lo, mas ele estava travando a sua passagem.
- Júnior, me dá licença – disse.
- Então não é Aline – ele disse fitando-a desafiadoramente. – É Ana, não é?
Helena ficou surpresa.
- Isso não é da sua conta, Júnior – disse.
- Ana é da minha conta, Helena.
Helena achou melhor não alongar a conversa.
- Com licença, Júnior – disse forçando a passagem e deixando-o para trás.
Ele ficou olhando-a ir. Estava visivelmente irritado.
Um observador atento poderia detectar uma ponta de ódio no olhar dele sobre a loira.
*****
Depois de servido o prato principal, os convidados começaram a movimentar-se pelo salão, cumprimentando os noivos e conversando com conhecidos em outras mesas. Leonora aproximou-se de João e Ana. Abraçou o rapaz.
- Que bom te ver, João – disse.
- Leonora! – ele respondeu feliz em vê-la.
- Como você está, meu querido? – ela quis saber.
Colocaram a conversa em dia e Ana resolveu deixá-los a sós.
- Quando vai aparecer num dos nossos churrascos? – Leonora perguntou.
- Hmmm... – ele tentou ser evasivo – você sabe, Leonora... Eu e Helena terminamos há pouco e...
- Besteira! – ela interrompeu – Não vou me privar da sua companhia.
- Além disso – disse ela fixando os olhos em Ana, que conversava com uma moça a poucos metros deles – me parece que o fim do noivado está superado para você.
Leonora disse isso com um sorriso. E não havia repreensão no seu tom de voz. Estava sinceramente interessada em tê-lo de volta visitando a casa. Queria também discretamente informá-lo que estava ciente do interesse dele em Ana.
E João sabia disso. Mas mesmo assim ficou sem jeito.
Leonora percebeu que o rapaz tinha ficado desconcertado e tratou de deixá-lo mais à vontade:
- João, você sabe que Ana é minha outra filha, não sabe?
Ele não esperava um confronto tão direto por parte de Leonora tão cedo. Não sabia o que dizer.
- Não quero que se sinta pressionado – disse ela com um sorriso. – Apenas não gosto de ver ninguém se machucando.
- Eu não vou...
- Eu sei, meu querido – ela interrompeu novamente. – Eu sei...
Abraçou-o e disse antes de retirar-se:
- Fiquei tão feliz em vê-lo de novo, João.
[E estou me referindo a você, João. Não quero que “você” se machuque, meu querido.]
*****
- Vocês estão juntos? – Júnior perguntou.
Ana balançou a cabeça.
- Não, Júnior – disse. – Somos apenas amigos.
Júnior abriu um sorriso.
- Então não é ele? – insistiu.
Ana sorriu.
- Júnior...
- Tudo bem... – disse ele com um sorriso. É que é difícil competir com um adversário invisível. Se pelo menos eu soubesse quem é...
- Júnior...
- Ok, ok... vamos falar de outra coisa.
[Eu sei que não é ele, Ana.]
*****
Acabado o jantar, João foi levar Ana em casa. Estacionou o carro em frente à casa dos Chagas.
Ana estava em silêncio.
- Você não está muito bem hoje, não é? – ele perguntou.
- Me desculpe, João. Acho que estou um pouco ansiosa com as coisas que tenho por decidir.
- Você não tirava os olhos de Helena hoje – ele disse.
Ana gelou.
- Está preocupada com o que ela pensa ao nos ver juntos? – ele perguntou.
- Hmmm... – Ana respirou aliviada – é... mais ou menos.
- Ana... – ele olhou bem nos olhos dela – foi ela quem terminou tudo. Não existe mais nada entre nós.
Ana ficou em silêncio. Não queria magoá-lo dizendo que não correspondia ao sentimento dele. E não queria alimentar alguma coisa.
- João... eu estou um pouco confusa. Podemos conversar sobre isso outra hora?
- Claro – ele disse sem conseguir esconder o desapontamento – nos vemos amanhã.
- Amanhã?
- Sim, esqueceu que o show é quinta feira? Temos ensaio todos os dias a partir de amanhã.
- Puxa, nem me lembrei – disse Ana – Então nos vemos amanhã.
Deu-lhe um beijo rápido na bochecha e saiu do carro.