Aline correu os olhos pelo bar à procura de Helena.
[Ela não veio. Droga!]
Olhou em volta. Sem a jornalista, o bar não tinha graça. Na verdade, sem ela, não achava graça em quase nada ultimamente. A obsessão por Helena estava mudando completamente sua rotina. Por exemplo, passara a evitar o namorado a todo custo.
Resolveu esperar. [Quem sabe ela não aparece?]
Tinham se falado durante o dia. Tinham corrido juntas naquela manhã e Aline estava conseguindo dar um jeito de falar com a loira duas ou três vezes por dia. A idéia de mostrar preocupação com o bem-estar da loira estava dando certo. Isto lhe abria caminho para falar com a loira a qualquer hora.
“- Estou ligando pra saber se você está bem. Estou preocupada com você.” Era assim que começava a conversa. Logo, perguntava do dia da loira e pedia se podiam almoçar juntas ou fazer alguma outra coisa. Helena não dizia não.
Aline pediu uma bebida e sentou-se. Do lugar de onde estava num dos cantos do bar, tinha uma boa visão do palco; mais precisamente, uma boa visão da violonista morena que acompanhava a cantora.
[O que é que ela viu nela?]
Ana estava concentrada no que fazia. Não viu Aline.
Aline começou a analisar a morena. Era simpática. Tinha um sorriso e cabelos bonitos. Quando se curvava sobre o violão, a franja caía sobre o rosto, dando um charme extra. E tocava muito bem. Também tinha um corpo muito bonito. Aline conseguia perceber como Ana poderia ser considerada atraente por algumas pessoas. Mas não era assim de parar o trânsito. [Não sei mesmo o que Helena viu nela.]
De repente percebeu que não gostava mesmo de Ana. Não queria admitir a razão de tal antipatia. [Nossos santos não batem mesmo.] Não queria pensar em como ficava irritada cada vez que Helena mencionava o quanto Ana era especial e o quanto a amava. É claro que não mostrava tal irritação quando a loira vinha com tal conversa. Era simpática e ouvia com atenção. Afinal, tinha que conquistar Helena primeiro. Depois faria as coisas do seu jeito.
Estava entretida analisando a morena quando Júnior aproximou-se.
- Posso? – perguntou ele.
- Claro. [Outro que baba pela violeira.]
- Cadê a loira, Aline? – ele perguntou ao sentar-se.
- Também queria saber – Aline respondeu.
Uma idéia lhe ocorreu. A conversa com Júnior poderia ser imensamente proveitosa. Ele nem sabia ainda, mas tinham interesses comuns. Talvez fosse hora de contar isso ao rapaz. Unidos, poderiam conseguir o que queriam.
- Há quanto tempo estão juntas? – ele quis saber.
Aline riu.
- De onde tirou a idéia que nós estamos juntas, Júnior?
- Que isso, Aline! É só olhar pra vocês duas pra perceber que tem alguma coisa rolando.
- Hmmm... [Isso é bom de saber. Muito bom mesmo. Se você pensou isso, uma certa violonista também pode ter pensado.]
- Infelizmente, não está rolando nada – ela disse. – Não ainda – completou.
- Ah é? E porque não? Posso saber?
Aline deu um gole na cerveja e sorriu.
- Sua prima está apaixonada por outra pessoa.
- Hmmm... e quem é? Alguém que eu conheça?
Aline aproximou-se dele. Queria ver de perto a reação de Júnior ao que iria dizer.
- Conhece sim – disse. E olhou para o palco, apontando com a cabeça na direção de Ana.
Júnior ficou sem entender.
- Alguém da banda? – ele perguntou sorrindo.
- Sim – respondeu Aline. – Ana.
Júnior parou de sorrir imediatamente.
*****
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Estava em choque. Aline também não disse nada.
Então ele perguntou, meio que falando consigo mesmo:
- Mas e os emails no celular?
- Do que você está falando? – Aline não estava entendendo.
- Ah... como eu fui burro... “A” não era de Aline... – Estava frustrado – Como é que eu não vi isso antes?
- Do que você está falando? – Aline perguntou de novo.
Ele contou das mensagens no celular de Helena de alguém chamado “A”.
- E o que é que te levou a pensar que era eu? Eu nem a conhecia na época.
Ele ficou pensativo.
- Isso quer dizer que isso já vem rolando há tempo. E o pior de tudo é que Ana a ama também.
Encarou Aline:
- Porque não estão juntas?
[Acho que te contar isso agora não vai ser útil pra mim, Júnior. Vou guardar pra mim essa informação.]
- Não faço idéia – respondeu.
- Agora que você viu que estamos interessados na mesma coisa, nós podemos trabalhar juntos... – Aline propôs.
- Do que você está falando? – Júnior ainda estava atordoado com o que acabara de descobrir – Você também está a fim de Ana?
Aline balançou a cabeça.
- Claro que não. [Que sujeito devagar!] Estou me referindo ao fato de que tanto eu quanto você não queremos que estas duas fiquem juntas.
Júnior esboçou um sorriso. Tinha subestimado a garota.
- Estou ouvindo. Pode falar.
Então Aline lhe contou o que estava pensando.